sábado, 21 de outubro de 2017

Se



Apagada. A vela sobre o tijolo quebrado agora é cera derretida. De um branco sujo, gosmento. Janela afora, só um pouco de uma luz distante impede a escuridão de ser inteira. Mas não é claridade bastante que ela consiga enxergar da pouca altura do seu corpo que nem alcança um metro ainda. Os pés descalços caminham devagar até a porta sem tranca. No corredor comprido, o escuro é pior. Ela volta, com medo do bicho-papão. Com medo de tudo. Quer a mãe. A mãe que saiu no começo da noite. A mãe que só vai voltar amanhã. 
A mão miúda quase esmurra a madeira vagabunda da porta. A voz quase grita. Ela toda quase enfrenta o corredor escuro para procurar a escada. Ela quase. Mas se lembra da mãe dizendo: Aqui não pode gritar, não pode chorar. Quando a mamãe sair, tem que ficar quietinha. Senão vem um monte de homem mau pegar você. 
Não, ela não pode gritar.
Faz pouco tempo que elas moram ali. Que a mãe entrou escondida nesse prédio grande e escuro. E subiu muitas escadas sujas cheias de um cheiro ruim e de gente esquisita. 
Agora, nossa casa é aqui, disse. 
Faz pouco tempo que elas começaram a passar o dia na rua, pedindo dinheiro no sinal, comida nos restaurantes. Sem conseguir muita coisa. 
As pessoas não ajudam mais. Vou ter que me virar. Foi assim que a mãe falou. 
Agora, a mãe sai todas as noites. Sem ela. Vai se virar. E lá fora não tem ninguém para escutar o choro dela fungado de medo. Para ouvir ela dizer baixinho Mamãe, mamãe, volta mamãe! Para ela avisar que a vela apagou. Só os homens esquisitos que ficam nas escadas.
Se ela ficar quietinha no canto do colchão sem forro encostado na parede, se fechar os olhos para não ver o escuro, se for uma menina boa que não chora, se esquecer o estômago que é só falta, se não sentir o frio que ultrapassa o pano fino e furado enrolado no corpo, se tampar aquela boca de dentro que conta para a sua cabeça uma história que ela não quer ouvir: 

Cadê a mamãe? 

Mamãe foi trabalhar. 

Eu acho que ela foi embora. Deixou você sozinha.

Não foi, não! Ela me deixou com os anjinhos. Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador... Mamãe, mamãe, eu não sei o resto! Volta, mamãe! Vem me buscar! Cadê os anjinhos, mamãe?

Se ela conseguir sair dali sem passar pelos homens esquisitos na escada. Se ela conseguir fugir da história ruim que está ecoando dentro dela: A mamãe não vai voltar… A mamãe não vai voltar. Se ela conseguir subir no caixote que está bem embaixo da janela da cozinha. Se conseguir abrir a janela. Se conseguir subir no parapeito. Se conseguir voar. Como os anjinhos. 



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Regras da casa

Ilustração: A Noite Estrelada, de Vincent van Gogh

O maço de cigarros quase vazio. O copo derramado sobre a mesa. A pinga forte recendendo no quarto sujo, escorrendo até o cabo do 38. Melando tudo. O dedo longo, amarelado pela nicotina, rodando o tambor, roçando o gatilho. E então se desviando para mais um cigarro. A reprodução malfeita de um Van Gogh na parede, imitando uma noite brilhante. Desbotada. Mesmo assim mais brilhante do que o céu que se vê agora pela janela. A pintura conversando com ela. Agonizando beleza em meio às coisas feias. 
O banheiro rançoso. O barulho do ventilador. A cozinha sem comida. A mesa melada de pinga. O 38 melado de pinga. A vida melada de merda. 
O deboche do macho que foi embora na véspera. Gritando que ela não tem coragem. Que ela é um blefe. 
Mulher ameaça se matar para o homem ter pena e ficar com ela. Mulher nem sabe se matar direito. Toma comprimido que é para dar tempo de alguém encontrar, ter pena, levar para o hospital, fazer lavagem, salvar.
Foi o que ele disse.
Só se esqueceu de falar da terapia. Para encarar com os mesmos olhos os mesmos abismos, e repetir com a mesma pressa os mesmos erros. Um se curar para se ferir de novo. Sobrevida em ciclos. É para o que servem as terapias. Engodo. Não tem sobrevida no abandono. 
Ela quis conversar sobre essas coisas. Não deu. Ele saiu sem saber que ela não vai precisar de hospital, lavagem, terapia. Ela comprou uma arma. Que já matou antes. Alguém. Alguns. Uma arma safada, ungida de sangue. Velha e usada. Calejada como ela. Marcada por histórias recorrentes, por dores recorrentes. Recorrente foi um requisito que ela exigiu na hora de escolher a arma. Pessoas e coisas precisam se assemelhar para se unir.
O estômago se agita em náuseas que não têm a decência de virar vômito. A tontura não dá trégua. O corpo dói. O corpo se revolta. O corpo luta. Desperdício. Tudo inútil. A alma não luta faz tempo. Cansada, cansada, cansada. De um cansaço que cresceu desde que ela cismou de amar. Não deveria. Nem ter cismado nem ter amado. Como se isso fosse possível. Besteira. Ninguém cisma ou ama com a razão. 
Balanço. Quantos homens estiveram dentro dela? Do corpo. Da cabeça. Cada um arrancando um pedaço do quebra-cabeças que ela montou de si mesma. Nenhum deles foi bom. Nenhum. Ela é ciclos repetidos de escolhas erradas. Fruta de tabuleiro que todo o mundo apalpa e deforma. Mas não leva. Apodrecendo sem viço,  amassada e malcheirosa. 
Sem culpas. Pazes feitas com a inveja de nunca ter sido um retrato roubado. Desses com risos e paisagens e tardes de sol e abraços de amor e outras mentiras. Ela não cabe em cenários felizes. Não combina com conselhos, rezas, doutrinas, fórmulas. Desfez-se de tudo isso. Mantras sem serventia. Ensinados por gente que não erra. Ou diz que não. Gente que não conhece a desistência. Que nunca partilhou de um desmonte. Desfez-se deles, também. 
Restam apenas ela e os demônios. Mas eles podem ficar. São hóspedes antigos. Conhecem as regras da casa. Sem hospital, sem salvação, sem terapia.