quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Regras da casa

Ilustração: A Noite Estrelada, de Vincent van Gogh

O maço de cigarros quase vazio. O copo derramado sobre a mesa. A pinga forte recendendo no quarto sujo, escorrendo até o cabo do 38. Melando tudo. O dedo longo, amarelado pela nicotina, rodando o tambor, roçando o gatilho. E então se desviando para mais um cigarro. A reprodução malfeita de um Van Gogh na parede, imitando uma noite brilhante. Desbotada. Mesmo assim mais brilhante do que o céu que se vê agora pela janela. A pintura conversando com ela. Agonizando beleza em meio às coisas feias. 
O banheiro rançoso. O barulho do ventilador. A cozinha sem comida. A mesa melada de pinga. O 38 melado de pinga. A vida melada de merda. 
O deboche do macho que foi embora na véspera. Gritando que ela não tem coragem. Que ela é um blefe. 
Mulher ameaça se matar para o homem ter pena e ficar com ela. Mulher nem sabe se matar direito. Toma comprimido que é para dar tempo de alguém encontrar, ter pena, levar para o hospital, fazer lavagem, salvar.
Foi o que ele disse.
Só se esqueceu de falar da terapia. Para encarar com os mesmos olhos os mesmos abismos, e repetir com a mesma pressa os mesmos erros. Um se curar para se ferir de novo. Sobrevida em ciclos. É para o que servem as terapias. Engodo. Não tem sobrevida no abandono. 
Ela quis conversar sobre essas coisas. Não deu. Ele saiu sem saber que ela não vai precisar de hospital, lavagem, terapia. Ela comprou uma arma. Que já matou antes. Alguém. Alguns. Uma arma safada, ungida de sangue. Velha e usada. Calejada como ela. Marcada por histórias recorrentes, por dores recorrentes. Recorrente foi um requisito que ela exigiu na hora de escolher a arma. Pessoas e coisas precisam se assemelhar para se unir.
O estômago se agita em náuseas que não têm a decência de virar vômito. A tontura não dá trégua. O corpo dói. O corpo se revolta. O corpo luta. Desperdício. Tudo inútil. A alma não luta faz tempo. Cansada, cansada, cansada. De um cansaço que cresceu desde que ela cismou de amar. Não deveria. Nem ter cismado nem ter amado. Como se isso fosse possível. Besteira. Ninguém cisma ou ama com a razão. 
Balanço. Quantos homens estiveram dentro dela? Do corpo. Da cabeça. Cada um arrancando um pedaço do quebra-cabeças que ela montou de si mesma. Nenhum deles foi bom. Nenhum. Ela é ciclos repetidos de escolhas erradas. Fruta de tabuleiro que todo o mundo apalpa e deforma. Mas não leva. Apodrecendo sem viço,  amassada e malcheirosa. 
Sem culpas. Pazes feitas com a inveja de nunca ter sido um retrato roubado. Desses com risos e paisagens e tardes de sol e abraços de amor e outras mentiras. Ela não cabe em cenários felizes. Não combina com conselhos, rezas, doutrinas, fórmulas. Desfez-se de tudo isso. Mantras sem serventia. Ensinados por gente que não erra. Ou diz que não. Gente que não conhece a desistência. Que nunca partilhou de um desmonte. Desfez-se deles, também. 
Restam apenas ela e os demônios. Mas eles podem ficar. São hóspedes antigos. Conhecem as regras da casa. Sem hospital, sem salvação, sem terapia.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Garrafas no jardim


Enterradas na terra. Plantadas entre avencas e coqueirinhos e samambaias. O vício escondido pelas folhas dos vasos. Tudo tão bem disfarçado que eu me pergunto como é que o braço paralisado de papai consegue dar conta de cavucar e enterrar as garrafas. Muitas. 
Mamãe acredita — com sua fé nos santos e nas rezas — que ele não bebe mais. E nem as frequentes idas ao jardim nem o cheiro permanente das pastilhas de hortelã a fazem pensar diferente. Ela não quer enxergar, não aguenta mais saber. Ou mente. Para que nós possamos respeitá-lo. Respeito? Raiva. De escutar a voz dela, trêmula, repetindo que a força do Espírito Santo o curou. De testemunhar a impotência dessa negação passiva, dessa responsabilidade repassada ao divino.
Como todos os que se recusam a ver, mamãe dá nomes diferentes à própria fraqueza. Abnegação. Companheirismo. Amor. Mas o que eu vejo é uma mulher perdida que se alimenta da crença em promessas convenientes. E um simulacro de homem que promete qualquer coisa para estimular a ingenuidade dessa crença. Cúmplices. A que finge; o que esconde.
Há anos, ouço desculpas. Coerentes, incoerentes, inúteis. 
É assim que ele relaxa. 
Ele está comemorando. 
Com esse calor, quem é que aguenta? 
Aniversário. 
Natal. 
Formatura dos filhos. 
Férias. 
Nascimento dos netos. 
Aposentadoria. 
O time dele ganhou o campeonato. 
Ele está sem dinheiro. 
E as quedas, os esquecimentos, a magreza excessiva, os olhos congestionados, o andar em zigue-zague, os vômitos, os banhos frios. Tudo escondido dos filhos. Ou nem tanto. Mamãe não se dá conta, mas faz tempo que somos parte da mentira. De tantas. De todas.
Ele exagera, mas aguenta. Se ele fosse viciado, já tinha morrido. Quem não toma seus porres na vida? Alcoólatra é uma palavra muito forte. Todo o mundo bate o carro uma vez ou outra. Caiu porque o chão estava molhado. Ele para de beber quando quiser. Ele bebe pra se divertir. Ele até que diminuiu. Deixa ele em paz.
Daqui a um ano, papai vai morrer. De cirrose. Nós ainda não sabemos, mas estaremos lá quando acontecer. Mudos. Coniventes. Preocupados. Temos nossas próprias garrafas no jardim.