domingo, 8 de fevereiro de 2009

Almas imortais




Terraço dos Leões - Ilha de Delos - Grécia - Google Imagens




Diana se levantou irritada com a repetição do sonho. Há semanas, era visitada por um bando de leoas que cercava uma mulher jovem, de rosto difuso. A mulher não temia as feras e caminhava entre elas até algo ou alguém que não se podia ver. Era apenas isso. Mas acostumada a esculpir dentro de si imagens que antecipavam fatos, ela estava incomodada.
Saltou da cama para o chuveiro e espantou a noite mal dormida. Tinha um parto ainda pela manhã, pacientes à tarde e, à noite, o ensaio geral do seu grupo de balé. Entretida com os pensamentos, vestiu-se com pressa, guardou malha, sapatilha, e saiu sem café.
No fim do dia, não se sentia cansada. No ensaio, entregou-se com paixão aos movimentos. De repente, uma dor lancinante, a queda ao chão e um corre-corre de tutus esvoaçantes. Depois disso, a cirurgia, uns dias de hospital, e a volta ao apartamento solitário, acompanhada por uma licença não solicitada e inegociável de 45 dias.
A decisão de viajar aconteceu duas semanas depois da operação. A passagem de avião foi colocada sobre a mesa, junto a um passaporte ansioso e pouco usado. Poucos dias depois, desaconselhada pelo ortopedista, mancando levemente, sem nenhuma dor e seguida somente por uma bengala elegante, Diana desembarcou, sozinha, na esplêndida Atenas.
A chegada à capital dos helenos fez festa aos olhos; antigo e novo uniram-se docemente na percepção da viajante. Como só passaria um dia ali, pois ainda tinha que seguir viagem para o seu destino final, Mikonos, Diana visitou poucos lugares: o imponente Templo de Zeus Olímpico; a igreja ortodoxa de Panaghia Kapnikarea, sólida construção do século XI; e o Templo de Hefesto, o mais bem preservado do mundo. Talvez na volta pudesse ficar mais dias em Atenas.
Pela manhã, um mel divinizado sobre frutas lhe foi servido em despedida. Partiu para as Cíclades por volta das 11 horas.
Escolher a Grécia nunca foi um acaso. Quantas vezes tinha fechado os olhos para imaginar ruas estreitas, abraçadas por casas brancas, ou terraços ensolarados, cortejados pelo mar? Agora, tudo seria real e de olhos abertos! Do Porto de Pireus à ilha de Mikonos foram sete horas de namoro com o Egeu. Um cheiro de antiguidade misturado aos sons e rebuliços da Grécia do futuro esperava por Diana. No caminho até o hotel, uma impressão a comoveu: as casinhas brancas estavam realmente lá, como pedaços de isopor numa maquete de criança.
Mikonos foi feita para se baterem pernas, mesmo uma perna doente. Árida e seca de clima, a ilha recendia emoções. Todo fim de tarde, depois de manquitolar feliz pelas ruelas estreitas e conspiradas, Diana sentava-se nas tavernas e voltava-se para a imensidão azul-marinho banhada por um pôr do sol obsceno. Saboreava a feta, queijo de cabra servido com orégano, e as mezédes, porções de pão e pastas acompanhadas de temperos, legumes ou frutos do mar. As iguarias eram servidas em comunhão com o gosto de uva e anis de um bom copo de ouzo. Mais à noite, buscava as buzukias, casas de espetáculo de música grega tradicional, onde regalava a audição e o espírito com os acordes das melodias.
Entretanto, aqueles sonhos não a tinham abandonado, e essa nódoa boba punha a perder em parte o encantamento. Depois de uma semana, uma inquietação a empurrou adiante de Mikonos. Caminhou até o porto e de lá, num barco, junto com outros turistas, seguiu para a ilha-museu de Delos, também conhecida como Ortígia.
Mais uma vez o indescritível Egeu! Fechou os olhos e deixou que o sol corrompesse a sua pele. Sem se importar com os folhetos nem com as explicações do guia, passou a travessia aspirando o perfume do mar que invadia os seus pulmões com aromas anciãos. Trinta minutos depois, Delos.
Uma sensação familiar fez com que Diana se separasse do grupo e começasse sozinha a exploração da ilha. Sem dor ou cansaço na perna, partiu em direção às ruínas. Extasiada, perdeu-se em contemplações. Tocou com as pontas dos dedos as ânforas brancas que um dia armazenaram vinho e mel para o deleite dos convivas seculares. Imaginou os mercados fervilhantes e o Templo de Ísis repleto de adoradores. Passou pelas ágoras, pelo anfiteatro, pelos santuários.
Faltava visitar, contudo, a avenida de terra onde estátuas acocoradas protegiam a ilha. Dirigiu-se para lá, com o propósito de encerrar a visita, mas, ao aproximar-se das esculturas encravadas no solo, deparou-se com as leoas!
− São elas, são elas! - gritou, atônita, para o vazio.
Nove magníficas leoas de mármore, rugindo para o ar parado de Ortígia, vigiavam a eternidade da ilha. Ao lado, uma placa: “Terraço dos Leões, século VII a.C”.
− São as minhas leoas! As leoas dos meus sonhos! - Diana continuou.
Descontrolada pela incompreensão do acontecido, tropeçou com a perna operada numa pedra e novamente, como no dia do ensaio, caiu ao chão em dor desesperada. Incapaz de erguer-se, sentiu, pouco depois, um abraço frio que a apertou intensamente. Horrorizada, percebeu a serpente imensa que se enroscava nela, sufocando-a cada vez mais.
Então, vindo do nada, um jovem de imensa beleza se atirou ao réptil. Cabeleira solta ao vento, dorso nu, laureado pelo sol incandescente, combateu a serpente até que a pressão do animal em volta de Diana cedeu, e enfim cessou.
Ao perceber que ela tentava falar, o desconhecido selou-lhe primeiro os lábios e depois os olhos com os dedos longos, fazendo com que adormecesse.
No barco, ao acordar, Diana viu-se rodeada por alguns turistas e pelo guia. Confusa, perguntou:
− Quem era o homem que me salvou da serpente? Onde ele está?
− Serpente? - retrucou alguém, incrédulo.
− Sim, sim, uma serpente imensa! - continuou Diana.
− Não há serpentes em Delos, senhorita - afirmou prontamente o guia. − A senhorita desmaiou por causa do sol e teve um delírio. Deve ter batido o peito numa pedra, quando caiu. Deu sorte que nós a encontramos logo!
Sem acreditar na hipótese do guia, e ao mesmo tempo atordoada, Diana notou, surpresa, que não havia resquício de dor na perna operada, apenas a cicatriz mediana. No tórax, onde a serpente se enroscara, uma mancha roxa imensa testemunhava o impossível. Ali, também, nenhuma dor.
Em Mikonos, rumou direto para o hotel, vencida pelo cansaço e pelas emoções desenfreadas do dia. E adormeceu bem cedo.
Em sonho, o radioso jovem da ilha, cercado pelas nove leoas, revelou-se a ela:
Procuro por ti a cada geração, rainha das feras. As leoas-guardiãs de minha ilha pressagiaram a tua divindade e te reconduziram a mim.
Minha irmã, eu te reconheço da água compartilhada em que nos deitamos no útero de Leto. Tu, Ártemis, és também Diana, Luna e Selene, deusa da lua, dos nascimentos, dos bosques e da dança. És a metade lançada por Ilítia ao solo flutuante de Delos, para preceder-me no caminho até a vida.
Reconhece-me do abrigo côncavo em que estivemos a nos olhar com a cumplicidade dos fraternos! Em mim, Apolo, deus do sol, das profecias e da cura, enxerga o pequeno varão que aparaste em teus braços naquele duplo livramento.
O que duvidas ter acontecido, aconteceu. Por ti, como antes por Leto, destruí novamente a píton. E cumpriu-se, mais uma vez, o oráculo: a ninguém é permitido morrer ou nascer em Delos.
Parte. Volta ao mundo que deitou para dormir a tua memória dos tempos. E quando estiveres dançando para os seres do hoje, lembra-te que, igualmente nós, como sol e lua, eternamente nos encontraremos em danças de chegada ou despedida.
Diana acordou. E Ártemis chorou em toda a sua formosura.

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