domingo, 8 de fevereiro de 2009

Armand


Cardeal Richelieu - Internet - Google Imagens
Minhas décadas irão partir de mim antes que a noite adormeça na claridade da manhã. Sinto-me, contudo, pleno. Sei que a morte consumirá voluptuosa esta carne ofegante e febril. Pois que o faça! Não vejo a hora de livrar-me da tosse sanguinolenta que testemunha meus dias e que não se curvará nem mesmo aos santos óleos da unção extrema. Sou Armand-Jean du Plessis, Primeiro-Ministro de França, Cardeal e Duque de Richelieu. Minha morte será apenas um hoje inacabado que se curva aos caprichos do porvir. Um porvir ao qual pertencerei por meus atos, e onde serei sorvido por amigos e inimigos que ainda desconheço, porque só os encontrarei em espectro. Contudo, sou e continuarei a ser, nesses muitos dias que o tempo trará após a minha morte, o conselheiro de reis. Fiz História, ao invés de preenchê-la. Entendi, desde minha precoce juventude, que os verdadeiros homens carregam poucas coisas numa bagagem de vida: o amor à pátria, uma lembrança respeitosa à própria origem e a certeza de que as mudanças são apenas movimentos de acomodação do poder. Amei somente duas mulheres: minha mãe e minha França. Não concedi exceções. No entanto, jamais incentivei que amigos ou inimigos alcançassem por mim um ódio prolongado. Afirmo, neste meu contraditório, que amigos se fizeram inimigos e inimigos se mostraram amigos, já que ensinamentos úteis me foram ministrados por conspiradores, e tagarelices inócuas me foram trazidas por aduladores da corte. O cargo de Primeiro-Ministro me envaideceu a razão, nunca os sentidos. Pelo poder me apaixonei quando ainda sugava as tetas da ama de leite, mas jamais o quis por volúpia ou intenções vazias. O poder que me fascina é reger vontades, afinar a camarilha, executar destinos. Sou homem de estratégias, de conselhos, ou, como disse certa feita Sua Santidade, “um homem astucioso”. Esse modus vivendi fez de mim um arbitrário, um cruel. Mas como forjar uma nação sem derrubar pilares desgastados? Como derrotar o inimigo fraquejando em sua presença, ou salvar o amigo permitindo-lhe zombaria? Não me agrada derramar nenhum sangue, mas é preciso aplicar o bordão para que o Estado esteja protegido. Eu fui o bordão. Dou como certa a cessação iminente da vida. Explica-se, assim, esta sôfrega revisão do passado: minha frágil e submissa mãe, protegendo meu corpo de menino franzino e adoentado; meu irmão, a quem verei mais tarde já de meu caixão; o início da vida religiosa, em Luçon. Gostaria que Luís pudesse estar aqui para se despedir comigo, e não de mim, mas esta hora pertence à memória e à excitação do que estará disposto adiante. A vida não me abandona, apenas leva-me ao próximo desafio. A morte é só uma carruagem sem conforto. Deixo para trás soberanos, políticos, súditos, contendas. Desincumbi-me a contento da expiação deste desterro. Meu Testamento Político falará por mim em todas as questões. Revelará que construí um Estado, mesmo que o tenha erguido o rei. E apesar dos violentos conflitos e sacrifícios que lancei ao povo, ainda assim garanti a Luís a alcunha de O Justo. - Pardon, Eminence... Monsieur le Cardinal... Ah, esse entra e sai de rostos em meu crepúsculo! Já não bastam os médicos sentados como abutres à entrada de meus aposentos, vigiando meu quase cadáver a cada quarto de hora! Nega-se ao moribundo a dignidade de um fim à sua escolha! A vista turva não impede meus ouvidos de reconhecer a voz sem tom do criado jovem. Mando que se aproxime. - Père Joseph manda dizer a Vossa Eminência que estará aqui antes da agonia – diz o rapazote, sem entender o que recita. Sem pressa, sem pressa, Joseph! – penso eu, mas logo me arrependo de tão inesperada autocomiseração. - As ordens foram cumpridas? Minhas vestes estão prontas? - Sim, Eminência. O solidéu, as jóias, o calçado, tudo limpo e pronto para a cerimônia. A vaidade que me abraça não é a dos trajes. Fui mais general em minhas vestes da Igreja que os engalanados homens que empunharam espadas de aço. Minha espada esteve sempre embainhada na cabeça e dali saiu para as batalhas exatas. Alegra-me lembrar, agora, que em todos os momentos solenes o vermelho do paramento eclesial sempre se sobrepôs às divisas e medalhas dos oficiais. Assim o será, mais uma vez, para honra da Igreja e do Estado! Acordo de mais um devaneio com a tosse que já não me dá trégua. O isolamento que começa a impacientar-me reaviva a necessidade de que Joseph venha logo estar comigo. François LeClerc du Tremblay, meu amigo e conselheiro père Joseph, caminhou comigo em minha história. Entregarei a ele meu último suspiro, como entreguei certezas e dúvidas durante quase duas décadas. Pedirei a ele, em confissão, que prossiga agindo sobre o Cardeal Mazarin, o sucessor escolhido, para que meus pensamentos se perpetuem nos ouvidos de Luís. Estou pronto para conhecer mais um reino. Desejo tão somente, antes da inconsciência, consultar Joseph sobre as possibilidades do depois. Não carrego arrependimentos ou medos para além desta noite. Apenas a certeza de que o olvido jamais estará comigo em minha vida eterna.

Um comentário:

  1. Anônimo9/2/09 10:35

    Cinthia,
    Parabéns! Você como sempre despontando e surpreendendo! Você é uma pessoa de vanguarda e idéias futuristas.
    Recebi com mutio alegria e orgulho o seu contato. Avante. O mundo é todo seu!
    Abraços,Ré

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