domingo, 8 de fevereiro de 2009

A Centelha

Michelangelo Merisi (Caravaggio) "A Conversão de São Paulo", Capela Cerasi, Santa Maria del Popolo, Roma, Itália. cerca de 1601. - Internet - Google Imagens


Não é preciso que vos diga meu nome, posto que não seja eu o cerne de vossa curiosidade. Concentrai-vos, por isso, no que vos irei revelar, e que se passou naquele tempo.
Sede ávidos dos fatos e pensai nos acontecimentos como relíquias para vosso crescimento. Ouvi minhas palavras, pois que minha voz atravessa a longevidade do tempo para falar-vos de escolhas.

Voltai comigo aos ventos do passado...

Conseguis escutar o ódio altíssono que pulsa em minhas têmporas? É minha ira que exacerba-se à conta desse gentio que se arrasta pelas estradas e que se esconde em toda parte como um monstro de mil tentáculos. Reproduzem-se em blasfêmias e se prestam a ouvir ensinamentos de um tal Jesus, nascido em Nazaré, que se proclama o Messias. A privação de meus sentidos é fruto da audácia de tais malditos.
Reúnem-se nas cavernas, como bichos preparando o ataque. Cantam em pecado e falam da magia com que o Nazareno os ludibria como se fossem milagres. São seguidores do Caminho e não se amedrontam com prisões e lanças, porque não têm apego às próprias carnes ou aos prazeres terrenos. Pregam obediência unicamente a um reino que não é deste mundo, e falam do amor ao semelhante como caminho de salvação. Induzem os homens ao desacato das leis de Roma e desafiam os rabinos quanto às leis de Israel.
Minha espada regozija-se em calar suas entranhas. A lâmina sangra o ventre de homens de família, pais, irmãos, mulheres e meninos mais crescidos, em cujo olhar percebo a mesma mansidão e a crença estúpida de seus pais.
Ao que podeis chamar perseguição, denomino justiça. Não me convencem as doutrinas do gentio, nem suas vestes despojadas, nem suas palavras profanas. Sou um fariseu. Israel corre em minhas veias e pela nação dos meus antepassados devoto-me ao cumprimento da Lei do Senhor. Roma recebe minha lealdade de soldado e faz uso de meus dons para manter a observância às leis dos homens. Decepa meu gume tudo o que dessa verdade se excede. Estirpo a abominação pela morte ou pelos grilhões.
Não temo o vosso julgamento. É certo que tenhais desconfiança do pecador que vagueia pelos séculos. Contudo, peço-vos que compreendais quem somos nós, os homens que ainda não chegamos ao vosso tempo. Estamos ocupados em construir as tramas que vossos ouvidos e olhos receberão por descendência.
Esta é uma era de bélico vigor. Os bons soldados defendem a propriedade e o Estado em troca do ouro do soldo. Aos melhores homens cabe vasculhar os becos sórdidos, colher delações na embriaguez das tabernas, percorrer as sendas solitárias em busca dos pregadores da doutrina do Nazareno.
Repito-vos que derramo, em êxtase, o sangue dos agitadores no solo de Jerusalém. Invado os covis que se disfarçam em casas, arranco o idoso do leito, a mulher do cozimento. À minha consciência não pesa matar, nem comovem os braços das esposas que se agarram às minhas botas em imploração por seus maridos.
Em Jerusalém, perecem judeus como Estevão, seguidor do Caminho, que ousam profanar o templo com palavras possuídas. Seu apedrejamento não me causa impressão, mas o atrevimento de sua língua moribunda assanha-me o ódio. Eis que, já desfalecido, o insolente roga ao Altíssimo que livre da culpa os seus executores.
Penso no agitador Jesus e no perigoso poder da sua seita de magias. O despropósito do judeu ensangüentado dá-me o convencimento de que urge prosseguir para além de Jerusalém com a campanha de flagelação e morte aos hereges.

As cartas do Conselho de Anciãos são fardo leve em minha caminhada e é júbilo o que conduz meus pés sem descanso até Damasco. Na província da Síria, os sacerdotes aguardam pela aniquilação de minha espada.
Seis meses em privação da sábia chuva permitem ao sol atroz roubar o viço da vegetação. Os humores de meus soldados não se elevam muito acima do meu e a malícia do solo ressecado conduz as patas dos animais ao perigoso escorregar na borda dos abismos.
Passa do meio do dia e, finalmente, podem desalterar-se as fibras de meus homens na beleza da planície damasquina. A poeira sufocante das veredas transmuta-se em imensidão. O sol desiste de sua força contra nós e imerge no Farfar, o sinuoso fertilizador das terras sírias. A viagem é agora suave.
Assusta-se, subitamente, minha montaria com uma luz inesperada que desce sobre minha cabeça. Atira-me ao chão e o impacto do meu corpo lançado à terra conduz meus olhos à escuridão, meus ouvidos ao imponderável.
Uma voz de mel e aço interpela o meu temor: “Por que me persegues? Por quê?”.
Meu coração já é certezas. Yeshua, a quem renego pela espada, a quem expulso dos meus pensamentos, a quem persigo em meus pecados vem até mim em minha estrada! Não consigo mais se não curvar-me ao Filho do Deus de Abraão, pois que cega a ignorância de meus atos e revela-se a mim pela luz da verdade!
Por três dias o Senhor mantém os meus olhos na morte, enquanto aquece de vida meu conhecimento. Obriga-me à ajuda de meus soldados, sem cujo amparo não posso caminhar. Ressuscita-me das trevas em Damasco, pela ajuda do justo Ananias.
E ao permitir-me tanto amor, mergulha-me em conversão. Louvado seja!

Não reflitais mais sobre o passado. Deixai-o repousar.
Inquietai-vos agora com os vossos caminhos. Meditai sobre vossa crueldade e sobre vossa cegueira. E tende por certo que vós também sereis julgados.
Percebei, além dos acontecimentos, que não é morte ou vida que o Pai manifesta à vossa alma.
O que Ele concede ao vosso espírito é a centelha da escolha.

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