domingo, 8 de fevereiro de 2009

Cheiro de paixão



Paixão boa tem que estalar de repente. Eu me apaixonei num susto, num desses momentos perfeitos em que o objeto da paixão é que nos encontra e possui. Mas uma história só é história se permitir que a conte a narrativa. E o início de tudo ainda é o melhor começo.
Moreno me arrastou para morar ali faz pouco tempo, repetindo uma mania irritante de mudar de casa quase todo ano. “Se a gente não muda de ares não faz diferença no mundo’, insiste ele, “Criou raiz, se acomodou”. Grande coisa! E o afeto pelo lugar, o cheiro das coisas, as trilhas...não contam? O mentiroso não criava raiz por motivo bem menos filosófico: o preço dos aluguéis.
Nem com os gritos de “Anda, Fred!”, nem com a dose extra de ração, nem com a promessa de uns dois ou três bifinhos de carne prensada eu levantei minha barriga do chão para deixar a casa antiga. Mas, como disse, fui arrastado até o carro, e do carro até um portão branquinho bobo, e do portão...huum...do portão às possibilidades! Duas batidas com as patas e aquele empecilho branco e bobo desabrochava numa rota de fuga.
Pronto, eu já gostava do ali; um vira-casaca de primeira! Principalmente depois das seis da tarde, quando Moreno montava no jipe para ir dar aulas e me deixava de presente o rebuliço das ruas além do portão. No segundo dia de redondezas exploradas é que me deparei, de repente, com aquela paixão que lhes revelei antes da hora.
Um cheiro delicioso de...de...de coisas deliciosas me impediu de virar à esquerda na esquina. Segui em frente enfeitiçado, captado pela mistura de aromas que ora me pareciam frango, ora porco. Podia jurar que até mesmo um carneiro ao molho de hortelã me passou pelas narinas arreganhadas. Fosse o que fosse, eu já despejava arabescos de baba e fungados pela calçada. Depois de um pouco mais de chão, no entanto, foram os cheiros que me abraçaram todos de uma vez, e eu sabia que tinha alcançado o paraíso!
Quatro mesas descascadas de metal azul, rodeadas por cadeiras cambetas, cochilavam inabitadas na calçada. Um único degrau as separava da parte interior do boteco, cujo balcão reluzente contrastava com a cor duvidosa do piso de cerâmica. E lá de dentro, de depois do balcão, me corrompiam aqueles cheiros apaixonantes que os primeiros glutões iriam abocanhar dentro de dois ou três quartos de hora.
Mais tarde, quando Moreno começou a frequentar o local às quintas-feiras, noite da sua folga na universidade, eu aprendi com ele que o nome do meu paraíso era Fecha Nunca. O boteco abria as portas durante os sete dias da semana e nem madrugadas de chuva assustavam os clientes, que corriam com as mesas para dentro, se espremendo entre o degrau e o balcão dos cheiros. Só que Moreno é um passante em minha história.
Voltemos, portanto, ao nosso primeiro encontro, meu e do estimado Fecha Nunca. A primeira estratégia era saber como seriam recebidos os cachorros por ali. Memórias prudentes e doloridas me trouxeram de volta alguns pontapés e baldes de água que meu couro enfrentou em estabelecimentos semelhantes. Cautela, Fred, cautela! Um latidinho baixo, espremido, e duas abanadas de rabo. Contato feito, é preciso esperar para saber como vai reagir o gorducho com cara de dono. Só há duas saídas: ou gosta de mim, ou me põe para correr.
O primeiro afago veio na orelha. Ai, ui, que gostoso, meu ponto predileto! Depois no papo, e no dorso e novamente na orelha, só que na outra. Em seguida, um naco suculento de carne foi parar entre as minhas patas. Um cavalheiro, um verdadeiro cavalheiro! Pensando bem, quem é gorducho aqui? Um pesinho de nada acima e eu, maldoso, apelidando o sujeito de gordo! Que falha imperdoável com um amigo já tão querido!
A primeira noite no Fecha Nunca foi inesquecível. Assim como a segunda, a quinta e a vigésima primeira. Não tinha noite sem carnes ou afagos. Depois de duas semanas, Seu Claudionor − meu amigo e proprietário do estabelecimento − colocou até uma vasilha de água pra mim, num cantinho do chão. Todo o mundo me passava a mão e eu, vadio e escancarado, dava e sobrava a barriga para quem quisesse apalpar, como fruta de tabuleiro.
Seu Claudionor ficava intrigado porque eu sempre aparecia no início da noite e ia embora à mesma hora, um pouco depois das dez e meia. E como me tratava feito gente, insistia sobre isso, cismado. Tentei explicar, mas apesar da nossa tanta afinidade, não entendeu; não é cachorro. Ele só compreendeu a precisão dos meus horários depois que Moreno, já então cliente habitual do Fecha Nunca não só às quintas-feiras, mas também aos sábados e feriados, lhe descreveu sua rotina de professor universitário. Meu amigo nunca entregou as minhas fugas, nem Moreno pareceu perceber a intimidade com que me cercavam os fregueses. Seu Claudionor aprendeu, daquela data em diante, que meu nome era Fred.
Confesso que no começo dessas farras noturnas me senti um desonrado. Não tinha ninguém ali que não me achasse um vira-lata, um largado. Tenho certeza de que a comida e os afagos eram dirigidos ao cão que eu não era: um desvalido de rua. Sou um cão tratado, tenho casa, comida, quintal e um dono que não troco por nada no mundo, apesar de doido, doido. Mas como resistir à tentação das carnes? Como virar as costas para tantas mãos, tantos assovios? Quando ia com Moreno, me deitava meio longe dele, fingindo nos conhecermos apenas da vizinhança. Afinal, ele sabia meu nome e o “vem cá, Fred” era sempre um risco ao meu disfarce de coitado. Mas um boteco tem regras que ninguém viola, e a principal delas é o ‘viva e deixe viver’.
Não me envergonho mais da omissão de identidade. Respondem por meu fingimento as delícias que Seu Claudionor prepara no pecado do cheiro e do sabor. Respondem em parte, no entanto. De verdade mesmo, devo mais culpa às tais mãos e assovios que me adulam.
Por expiação, preciso lhes revelar que uivo e morro por um carinho, por qualquer carinho! Corpo esparramado no chão, patas encolhidas sob a cabeça, olhos virados para cima, os cantos caídos como amêndoas: eis meu segredo infalível de entrega. Sou um mendigo de afetos incorrigível, um chantagista reles! Confesso que sou. E por mais essa confissão me obrigo ainda a outra: larguei para trás os escrúpulos e nada, nada do que puderem pensar de mim me fará desistir de lamber pés cansados, ou de esfregar a cabeça nas coxas macias que me admitem por perto.
Um cão não aguenta a solidão causada. E essa doença de ausência só tem cura pelo agrado. Pode ser um amor meio sem jeito, uma amizade breve, uma companhia calada, uma fidelidade incerta: aceita-se, incondicionalmente, qualquer um desses remédios! Sou um cão, sou carente.
Moreno me faz favores quando me muda de casa; me desconforma e me joga em novas empreitadas. Como o Fecha Nunca, onde meu focinho cheira e meu coração se entrega.

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