domingo, 8 de fevereiro de 2009

Goiás..ou pequi or not pequi?


Goiás, 09 de junho de 2006.

Goiás é um município de 30 mil habitantes, povoado de gente alegre, educada e simples, daquela simplicidade que ora emociona, ora encoraja o ser humano a repensar vaidades e outras tolices.

O Rio Vermelho, que entremeia a cidade, é paisagem obrigatória para as fotografias de profissionais e amadores, até por que olhar para aquela água tranqüila induz ao difícil exercício de imaginar como é que tudo pode mudar num instante. Uma chuva aqui, outra ali e as cheias quase destruíram a cidade uns tempos atrás, danificando, inclusive, a famosa casa e museu de Cora Coralina, a grande escritora goiana.

Cora é a figura imensa de Goiás (e ao mesmo tempo controvertida em sua história de mocidade, que os locais contam em voz baixa, como se ao falar estivessem assustando os mais tradicionais): “Ela saiu da cidade, quando mais jovem, para acompanhar um amor...você sabe como é...cidade pequena...as pessoas falam...”. Mas Coralina resistiu aos preconceitos e se fez maior, muio maior.

Só que Goiás vai bem além dos cartões postais e da fama da escritora que os grandes centros conhecem e reconhecem: Goiás é um paraíso!

Portas estreitas, pintadas de azul, rosa, marrom ou verde abrigam casas imensas que atravessam até a rua dos fundos, lembrando, em seu interior, a cidade da infância de quase todo o mundo. Mesmo nós, criaturas de capitais implacavelmente repletas de arquiteturas monumentais, guardamos na memória uma casa de avó, um pedaço de meninice recheada de moringas, quintais de terra batida.

E Goiás tem igrejas, como qualquer outra cidade de interior, mas tem, principalmente, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, um deleite para os olhos de santos e pecadores. Em sua cúpula, tipo chapéu de bruxa, reina o brilho de um relógio altaneiro, que acompanha sereno o ir e vir dos visitantes e dos nativos. Logo abaixo, um campanário perfeito, de onde um sino revela, ao longo do dia e da noite, as horas, as meias-horas e os quinze minutos.

Os habitantes de Goiás revelam que existem repiques especiais do sino: se morreu uma criança, se aconteceu alguma coisa especial...Dizem até que é preciso pertencer a confrarias para poder ter direito ao repique do sino...Sabe-se lá!

Quando alguém morre, um carro de som passeia pela cidade comunicando respeitosamente o acontecido, informando o nome do falecido e a hora do enterro. O local? Pra quê? Cidade de 30 mil habitantes não tem problema de ter mais de um cemitério não!
No meio disso tudo, ao som de músicas distantes cantadas ou tocadas pelos visitantes mais animados, ao brilho de um luar que tira o fôlego, aconteceu o VIII Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o FICA – até o nome é carinhosamente sugestivo.

Imprensa, ambientalistas e estrangeiros trabalharam e transitam com o fervor de formigas, projetando documentários, se conhecendo ou reconhecendo uns aos outros, falando dos seus filmes e vídeos, captando ou oferecendo espaços para a divulgação dessa produção tão necessária, tão honesta e ainda tão distante das grandes salas do cinema nacional.

Cada filme um universo, uma denúncia, uma beleza escondida deste país ou de outros – aqui, todos amigos.

Os estandes montados no Ginásio Alcide Jubé incentivam à aproximação, à integração, ao cochicho amigo.

E de repente, no meio desse mar de câmeras, de mochilas e de coletes, a alegria ruidosa dos alunos de todas as escolas de Goiás, as da cidade e as do meio rural. Crianças interessadas, de rostos corados, educadas de berço. Meninos e meninas que perguntam, pedem, consultam e ensinam sobre a natureza que conhecem, talvez, melhor que nós.

À noite, as projeções dos filmes e documentários somam forças aos shows de artistas locais, todos amigos, filhos ou irmãos dos habitantes em quem a gente esbarra a toda hora, porque prestigiam tudo intensamente. E restaurantes cheios de papos animados, de onde o cheiro do pequi sai inebriante e de onde os empadões e pizzas piscam para todo o mundo, convidando ao prazer da mesa.

Goiás é uma delícia! Goiás é uma renovação!

E agora dá para entender porque os goianos são tão bairristas: eles podem!

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