domingo, 8 de fevereiro de 2009

Nesta terra também!




Foto: internet - Google Imagens

Sexta-feira, fim de tarde. E fim de tarde é quando a noite já começou a colocar as manguinhas de fora, mas ainda não deu permissão às estrelas. O calor que eu sinto me conta que não importa o tempo no relógio: é hora de relaxar. Estou aqui a trabalho e só volto para casa domingo, porque, com o caos aéreo, os voos estão superlotados.
O pessoal do escritório nem precisou insistir muito para eu aceitar um programa na orla, porque o mar nunca precisou de apelo para me ter por perto.
Como aluguei um carro, decidi que posso encontrar sozinha o restaurante. Recusei duas caronas. Quem sai para a noite com a turma do escritório tem duas opções: pegar a tal carona e depender de algum clímax etílico para ir embora, ou ir no próprio carro e ter a liberdade de escapar antes que as línguas comecem a ficar tão enroladas quanto a divisão da conta.
E aqui estou eu, sozinha, na porta desse tal de Ponto de Encontro. Na minha terra, isso é nome de zona! Nada contra...nem a favor, até por que não tenho bem certeza se, hoje em dia, as pessoas ainda vão a esses lugares pagos. Tudo tão liberal neste mundinho moderno, tão fast food − “chegou, pegou, levou” −, que eu me sinto um pouco envergonhada do preconceito.
Melhor parar um minutinho na porta e telefonar para o pessoal. Ninguém atende. Parece que fui mesmo a primeira a chegar. Tudo bem. Enquanto isso, fico aqui na porta bebendo a exuberância noturna desse mar espetacular!
É tanta gente entrando, que se eu não garantir uma mesa agora não vamos conseguir lugar. Faço um gesto suave com o indicador e um rapaz musculoso de roupa colorida se aproxima sorridente. Melhor dizer sarado, porque musculoso é coisa do passado.
− Por favor, uma mesa para seis pessoas.
− A senhora me acompanhe, por favor.
Essa “senhora” me acompanha há um tempo, como um alter ego indesejável. É como calda quente em cima de bolo: gruda, entranha, endurece e enjoa. Bom, pelo menos a mesa é boa, de frente para o calçadão. Quanta gente, que movimento!
− Garçom, por favor, uma água mineral com gás.
− Só a água? Não quer outra coisa para beber?
Por que esse moço da bandeja me olha assim como se eu fosse um estorvo? Tenho que consumir álcool para ser bem servida? Se comer, então, capaz até de eu ganhar um sorriso! Não gostei do atendimento aqui. Olha o jeito como ele fala! Eu sempre começo com uma água gelada, ou com uma água de coco antes de pedir um chopinho, mas se ele me irritar demais sou capaz de pedir água a noite toda!
Tem um sujeito me acenando aqui de lado. Vou virar a cabeça e passear os olhos displicentemente para ver se é algum conhecido... Não, não conheço mesmo. Ele deve estar me confundindo com alguém. Ia ser muita coincidência mesmo, tão longe de casa...
− Com licença, posso me sentar?
O que é isso?! Como é que essa criatura chegou aqui tão rápido?
− Desculpe, mas estou esperando alguém.
− Só um drinque - insiste o espinhento.
− Não dá. Desculpe.
O intrometido recebe um olhar firme. Nem um sorriso. Ele se afasta meio debochado e acho que chegou a hora de pedir meu chope. Era tudo o que eu precisava agora: assédio! Parece que a única mesa onde sobram cadeiras e falta gente é a minha. Mas será o Benedito? Ninguém atende o celular!
Não! Eu não acredito que aqueles dois homens estejam vindo para cá! Dois! Deve ser alguém que eles conhecem na mesa atrás da minha. Para disfarçar o susto, peço, rapidamente, um chope com dois dedos de colarinho.
− Podemos sentar?
Não acredito! Eles estão falando comigo! Os dois!
− Desculpem. Eu estou esperando uns amigos que se atrasaram, mas não estou sozinha. Obrigada.
Sinceramente, isso já passou dos limites! Se não fosse pela mesa e pelo medo de me desencontrar do pessoal eu ia embora agora! Mais uma tentativa pelo celular, mais um chopinho e 15 minutos de espera; depois eu peço a conta.
− Vamos dançar? - uma mão áspera me segura o cotovelo.
De onde surgiu esse frasco de perfume ambulante? Quem deixou essa mão de lixa encostar em mim? Eu nem tinha ouvido a música...
− Não, não quero.
Que educação que nada! Abandonei o “desculpe” e o “obrigada” junto com a água mineral.
− Vai mangar de mim, é? Venha dançar!
Apelou! Apelou e apertou o meu braço. Isso virou emergência!
− Quer tirar a mão, por favor?
− Não tiro não! Venha dançar e pare de dengo!
Tento alguma solidariedade ao redor e esbarro com os olhos zombeteiros do garçom. Faço sinal, mas ele me ignora. Não é possível que esteja fingindo que não vê os meus acenos cada vez mais fortes! Apanho minha bolsa e arranco das mãos do bárbaro o meu braço dolorido. Corro para o moço sarado da porta e altero a voz:
− Eu estou sendo agredida por um sujeito que quer me obrigar a dançar e eu quero que você tome alguma providência!
Enfrento o grandalhão não por vontade, mas por desespero. Preciso da proteção daqueles ombros enormes, musculosos, para poder ao menos sair dali, já que o estúpido está quase chegando perto de mim!
− Que foi menina? Ele é um dos nossos melhores clientes! Não acertou a grana?
Chão! Eu preciso do chão que foi embora. Preciso ao menos daquele “senhora” tão respeitoso que me daria alento e confiança agora! Forço passagem até o caixa no fundo do bar e peço a conta. Qual mesa? Sei lá! A essa altura, o garçom também está no meu encalço e eu grito para ele:
− Que mesa é aquela? Rápido!
− Quatorze, responde ele sem nenhuma simpatia.
Jogo o dinheiro em cima do balcão. Não sei se a mais, mas com certeza não a menos, porque enquanto fujo em zigue-zague para o carro ninguém mais me segue. Meu pânico é cortado pelo som estridente do celular.
− Alô! Graças a Deus! Cadê vocês? Como? Me esperando? Me esperando onde? Porto de Encontro? ...Porto?!
Enquanto fecho bem as portas e janelas do carro, esfriando as confusões com o ar refrigerado, o nervoso se acalma lentamente, e a gargalhada de um pensamento se exterioriza: “Nesta terra, também!”.

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