domingo, 8 de fevereiro de 2009

O Baile das Vítimas


Coiffeur à la victime - Imagens Google Images - Internet

Revoluções são como meadas de lã. Antes que a ponta do primeiro fio encontre fim na dura carretilha, estendem-se metros de anos. Mas de que serve uma revolução se não para durar o tempo de desdobrar-se em conseqüências para as criaturas? A fúria de carnes sangrando pelas baionetas ou pela lâmina da guilhotina é apenas alimento das batalhas. Depois, bem depois de uma dor quantificada é que os homens recuperam pela razão os ideais que lhes serviram de causa.
Uma revolução é feita para derrubar costumes e, para sobreviver, é preciso atrever-se em novas práticas. Foi assim naqueles dias.
Eu tinha 14 anos e rompia o ano de 1794 em Paris. Minha mãe, Claire Dupont, tinha sido presa pelo Comitê da Salvação Pública sob a acusação de conspiração. Na verdade, sua única culpa era a de ser mulher de meu pai, executado um ano antes como inimigo da revolução. Nossos bens foram tomados, mas depois devolvidos, e eu vivia na propriedade onde nasci, com uma tia idosa de minha mãe.
A primeira vez que vi Madame Tallien foi quando ela estava sendo libertada. O prestígio político da controversa senhora tinha conseguido livrar da prisão, junto com ela, várias outras presas, inclusive minha mãe.
O feito notável e a garra com que continuou a se empenhar em prol de outros condenados valeram-lhe a alcunha de Nossa Senhora de Thermidor. O nome Thermidor deveu-se ao local onde seu marido enfrentou, durante uma convenção, o temido Robespierre, impedindo-o de falar e, assim, conseguindo realizar o pedido de Madame Tallien: a libertação de muitos presos políticos. Da menina que se fizera amante do tio aos 12 anos, à mulher que se tornava santa para os franceses uma longa estrada tinha sido deixada para trás.
A mim, isso pouco importava. Tampouco me impressionava a beleza hispânica da senhora que caminhou para a luz através dos portões da prisão dos Carmelitas. O encantamento de Madame Tallien eram os cabelos!
Os tempos de revolução testemunharam uma atitude surpreendente das encarceradas. Para evitar que os carrascos arrancassem suas longas cabeleiras pouco antes da morte pela guilhotinaa, cortavam elas mesmas seus cabelos antes do momento no patíbulo, deixando-os como herança às famílias. Madame Tallien foi a primeira presa libertada depois desse costume.
A visão dos seus cabelos muito curtos extasiou tanto os olhos da minha adolescência que quase me esqueci que minha mãe vinha um pouco atrás. Ela também não tinha mais os longos fios que penteava com cuidado pela manhã, prendendo-os em coque, e à noite, soltando-os para dormir. Mas nunca a falta de moldura valorizou tanto uma tela. Eram mulheres diferentes aquelas que saiam das garras da morte de volta para nós. E o silêncio da pequena platéia reverenciou-lhes o sofrimento.
Tocada pela discriminação que as mulheres passaram a sofrer por causa dos cabelos curtos, Madame Tallien passou a usar os seus propositadamente cortados. Em pouco tempo, curvando-se à força daquela mulher, Paris se rendia a um novo modismo: o penteado à la victime.
Aqueles dias me enfezavam o espírito. Apesar de não sentir as privações como os mais velhos, irritava-me ter perdido a liberdade de caminhar por qualquer canto. A França se tinha mostrado para mim um país cruel e cínico. Os prazeres adultos se multiplicavam como escapes para outras repressões impossíveis de conter, mas para os jovens, como eu, restava quase nada.
Antes da revolução, as famílias da nobreza tomavam em suas mãos a realização de grandes bailes, e com as danças e contradanças entretiam a juventude. Muitos compromissos foram selados ao compasso de valsas ou minuetos, ou ao som de breves concertos onde os idosos dormitavam e os mais jovens cochichavam idílios.
Com medo dos tribunais da revolução, ninguém mais abria os salões para ostentar festas. E a juventude enrugava-se no tédio de uma política que ainda não lhe pertencia.
Mas, como já lhes disse, uma revolução derruba costumes, substituindo-os por outros de maior ousadia. Foi com o fôlego da audácia que os jovens aristocratas parisienses descobriram os bailes públicos que podiam ser realizados nos salões dos hotéis. O Baile Richelieu foi o primeiro, depois foi a vez do Baile Thelusson, e em pouco tempo as festas nos hotéis se tornaram conhecidas e almejadas por toda Paris.
No entanto, durou pouco o nome do Baile Thelusson. Janeiro de 1795 trouxe dias de inverno branco e noites de escandalosos acontecimentos.
O Thelusson abria suas portas para mais uma festa grandiosa. Minha mãe e eu nos encontramos com uma amiga e seus dois filhos ainda nas escadarias e a conversação era descontraída. Os cabelos ainda curtos das duas já não chamavam a atenção das pessoas, embora a suntuosidade dos trajes se ressentisse da ausência dos penteados em cachos.
Pouco depois que nos instalamos no salão, um rebuliço colheu a atenção dos presentes. Madame Tallien, na altivez de seus cabelos curtos e escovados para trás, entrou no salão de baile trajando uma túnica em estilo grego de tecido fino. Os pés, descalços, estavam trançados com fitas vermelhas. No pescoço, sem qualquer vestígio de jóia, uma gargantilha fina e irregular, também vermelha, imitava um fio de sangue.
A reprodução das roupas das mulheres condenadas a caminho da guilhotina causou uma comoção sem igual, e nos olhos de Madame Tallien brilhou o regozijo pelo impacto do ardil.
Coincidira que, pouco antes da pantomima, um cavalheiro desconhecido havia pedido permissão a uma senhora para dançar com sua filha. Inspirada pela essência da cena, a senhora declinou o convite, repreendendo-o por solicitar a dança à filha comprometida.
- Mas maman, eu não sou comprometida! – sussurrou-lhe a mocinha.
- Eu sei, menina, eu sei, mas logo haverá propósito em minha atitude.
E dito isso, dirigiu-se até uma senhora, cujo marido também tinha morrido um ano atrás, pedindo-lhe que seu filho dançasse com a mocinha.
Estando já o par nos primeiros passos no salão, dirigiu-se a mãe da moça aos que estavam mais próximos e estranhavam o acontecido:
- Pensais que é soberba o haver declinado do pedido daquele outro cavalheiro? Pois não o é. Minha 
filha é órfã da revolução, porque pelas mãos do carrasco morreu seu pai na guilhotina. Eu mesma 
estive quase lá a ser executada, tão próxima do verdugo que não fosse a piedade de Madame Tallien não poderia retornar à vida. Acaso é insano querer que minha pequena só dance com outro órfão, com o filho de alguém cujo sangue também cobriu o cadafalso? Ou pensais que apenas sobre os ombros de Madame Tallien devem pesar os grandes gestos?
A intensidade da proposta contaminou todos os grupos no salão e rapidamente a dança dos dois jovens, bem como a de outros pares que se formaram à semelhança, recebeu a alcunha de Contradança das Vítimas.
Nunca mais Thelusson teve seu nome à frente das festas que abrigava. Daquela noite em diante, toda Paris reconhecia apenas o Bal de Victimes.
Na medida em que o tempo passava, mais e mais as contradanças e outros comprometimentos só eram permitidos aos filhos e filhas de nobres mortos pela revolução.
Logo, mais um costume foi introduzido ao escândalo dos trajes de Madame Tallien, que agora eram comuns a outros convidados. Muitos jovens e adultos passaram a trajar-se de luto fechado para freqüentar os bailes, ostentando, inclusive, a braçadeira em honra aos mortos. Ladeando os que se vestiam como condenados, afrontavam por meio desse desrespeito aos ritos aqueles que não pertenciam ao grupo de órfãos, horrorizando de bom grado tais cidadãos, a quem viam como algozes indiretos de seus pais e maridos.
Não sei se eram tão superficiais em sua dor quanto lhes quiseram fazer crer, ou se apenas decidiram que cuspir o seu ultraje aliviava a agonia. Não sei se seu deboche era mesmo vil, ou se somente uma forma grosseira de representarem o único legado que possuíam. Eu ainda não era inteiramente uma deles, porque me faltava a coragem para as roupas e as atitudes. Mas descobri que não existe jeito de emprestar elegância ao sofrimento. Sobreviver é encontrar alternativas para preservar o espírito.
Foi assim que acabou por pertencer-me a política. Por meio de uma consciência ingênua, mas alerta, de que não havia igualdade ou fraternidade ou liberdade que pudesse advir de sangue derramado.
Eu sou Justine Dupont, parisiense, e tenho agora 15 anos. Esta tarde, cortei meus longos cabelos e os entreguei à minha mãe. Mas isso não importa. O que importa é ser uma órfã do Baile das Vítimas.Estou me dirigindo ao Thelusson, protegida do frio pela carruagem. E pela primeira vez 
entendo as palavras que o jacobino Camille Desmoulins publicou em seu jornal pouco antes de morrer: "Hoje, houve um milagre em Paris: um homem morreu no leito."

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