domingo, 8 de fevereiro de 2009

O Julgamento Final




− Miguel! Eu creio que não preciso refrescar a sua memória sobre a sua posição nisso tudo, não é mesmo?
− Não, Senhor meu Deus! Mas por que é que eu fiz jus a uma interpelação tão sem sentido?
− Porque você me parece desorientado, sem saber com agir nesta hora tão solene!
− Mas Altíssimo, é só me dizer o que o Senhor quer que eu faça, e eu faço!
− Ah, não, Miguel, sem rapapés, sem rapapés!
− Está certo, Senhor! É que eu estou mesmo desorientado. Fiz treinamento de uma eternidade para este dia, mas confesso que estou nervoso com a responsabilidade.
− Miguel, me diga, para que é que eu fiz de você o Anjo do Arrependimento e da Justiça, o Príncipe Defensor dos filhos meus, o Poderoso Escudo contra aquele Lúcifer pervertido se não é para que você esteja ao meu lado nesta hora suprema?
− Eu sei, Pai, e longe de mim furtar-me às obrigações com que o Senhor me honrou. Mas é que eu tenho que conduzir os interrogatórios antes do encontro com os juízes, tenho que encaminhar aos defensores os dossiês de cada criatura, tenho que checar a infraestrutura dos tribunais e ainda realizar minha tarefa principal, que é a de ser Seu assistente no veredicto final.
− É muita coisa, não é, meu filho?
− É muita gente, Senhor, muita petição, muito pedido de revisão de caso! Tem os que choram, os que ameaçam, os que imploram, os que estão em estado de choque. Não dá para tratar os infelizes com desatenção! Isso, Senhor, sem falar dos atrasos...
− Atrasos? Como assim?
− Os advogados, Senhor, alguns já estão nas salas do tribunal, mas outros ainda nem sequer conversaram com os seus clientes.
− Não chegaram?
− Não. Eles reclamam que ainda não conseguiram se desincumbir de processos mais antigos.
− Mas isto aqui é prioridade, Miguel, prioridade! Convoque quem for preciso: os defensores aposentados, os advogados mais jovens, qualquer um que já esteja no céu.
− Os mais jovens também?!
− Claro! É uma turma doida para mostrar serviço. Querem fazer nome comigo a todo custo.
− Certo, certo. Convoco mais promotores também?
− Não, não! Deixe a turma da acusação por conta de Lúcifer e dos seus anjos malditos! Eles que se virem para falar das culpas. Nosso papel, Miguel, é o de defender os desgarrados.
− É para já, Senhor, é para já.
− Chame o evangelista Lucas para supervisionar os interrogatórios dos mais nervosos, e peça a ele que deixe os outros santos médicos de prontidão. É preciso evitar sofrimento desnecessário.
− Já convoquei todos, Senhor.
− E as salas de interrogatório, estão prontas?
− Todas.
− Então, mãos à obra, meu filho.
As almas que se amontoam pelos corredores do limbo ainda estão meio atordoadas. O tempo de um piscar de olhos entre os últimos momentos de suas vidas terrenas e a eternidade desconhecida só lhes permite lembrar uma luz ofuscante e linda que veio do céu, seguida de uma dor tão intensa quanto rápida. Amontoados num pátio que se estende ad infinitum, sentem-se incomodados pela presença maciça uns dos outros. Querem sair, mas não sabem para onde ir, e a indecisão faz deles um bando barulhento.
− Senhores, senhores, por favor, se aquietem! - tenta, em vão, controlar a turba um querubim brilhante.
E segue tentando chamar a atenção da platéia díspar, sem lograr sucesso, até que uma voz forte, brava e imperiosa se faz ouvir como um trovão:
− Calem-se!
Puxa, que eficácia! O silêncio se faz em ondas e a atenção de todos se volta para o dono da voz que os convoca no imperativo. Quem será? Espicham-se e procuram pela vastidão, até que alguém grita:
− É São Paulo! Olhem, ali, ali naquele canto, no alto, em roupas de soldado!
− Escutem todos, porque não há tempo a perder. A eternidade tem pressa, portanto, em formação! À minha direita, em formação de quatro, os políticos... em seguida, os empresários...isso...em linha de quatro, de quatro, eu disse! Agora, os banqueiros...
E assim acontece. Na sequência, vêm os ditadores, depois os militares, os advogados, os médicos, os engenheiros, os agiotas, os integrantes dos movimentos pela terra, os pensadores, as prostitutas... Uma após a outra, as hordas entram em formação, porque ninguém organiza os gentios como São Paulo!
− Agora, uma formação à esquerda - grita o homem santo.
E, ordenadamente, vão se apresentando os jornalistas, os servidores públicos, os professores, os poetas, os cineastas, os alcoólatras, os gulosos, os jovens, as crianças, os religiosos. A multidão continua a se juntar de quatro em quatro, até que, finalmente, oito bilhões setecentos e dezoito milhões e onze mil almas perfilam-se em pelotões.
O montante contabilizado pelo Arcanjo Miguel no painel multimídia é desesperador. Afinal, ainda estão para chegar as almas mais antigas, umas espalhadas pelo purgatório, outras, fugitivas, passeando pelos mundos na tentativa de encontrar velhos conhecidos. “Fé, Miguel, fé e esperança”, o primeiro anjo do Senhor tenta confortar a si mesmo. “Muitas dessas almas vão direto para o paraíso! Lembre-se de que existe a salvação sem escalas”.
Colocando-se ao lado de São Paulo, o arcanjo dirige-se aos recém-desencarnados:
− Amados! Muitos de vocês não vão precisar passar pelo julgamento do Senhor Deus. Os eleitos de quem eu falo têm sido almas de luz e de fé, e vão direto para a terra de leite e mel!
− Hurra!!! - ouve-se o grande clamor da audiência.
− Prestem atenção: aqueles de vocês que olharem para cima, neste exato momento, e enxergarem uma auréola de luz, agarrem-se nela e boa viagem para o convívio dos eleitos!
O tumulto é imenso, mas o resultado é parco. No placar multimídia que se sustenta no aro, o resultado é estarrecedor: apenas um bilhão, cento e trinta e cinco milhões, duzentas e dezoito mil quinhentas e trinta e oito almas estão liberadas para o céu! Fatídicos 13% que na certa vão desagradar ao Senhor tanto pela pobreza da arrecadação, quanto pelo número cabalístico que Ele tanto recrimina. Pior ainda é constatar que a maior parte desse montante pífio é constituída por crianças, jovens e portadores de deficiência mental.
Incrédulos, irritados, arrependidos ou histéricos, prostram-se diante de São Miguel Arcanjo e de São Paulo os restantes sete bilhões quinhentos e noventa e sete milhões, duzentos e trinta e um mil seiscentos e setenta e nove espíritos. Inflexíveis aos resmungo coletivo, os querubins começam, então, a convocar os pelotões para dar início ao grande juízo.
− Senhoras meretrizes, por favor acompanhem a advogada Maria Madalena e seus querubins-assistentes às salas de interrogatório do pavimento Prisioneiras do Corpo.
E lá se vão elas em bando para uma das alas mais arejadas do limbo.
− Políticos de todos os partidos, repito, de todos os partidos, não importando número de votos nem tamanho da bancada, acompanhem Santa Rita dos Impossíveis ao pavimento Prisioneiros da Mentira.
− Animais, São Francisco de Assis está pronto para traduzir vossos balidos, mugidos, latidos, rugidos e trinados no pavimento Prisioneiros do Homem.
Uma turma atrás da outra, uma alma após a outra, os tribunais do limbo vão sendo preenchidos. Minutos, horas e dias celestiais intermináveis se passam em grande agitação, deixando exaustos anjos, santos, beatos, querubins e serafins. Aproxima-se a última hora do juízo, e o Altíssimo prepara-se para revelar a Sua face misericordiosa aos eleitos. Impaciente, Satanás afia a foice com que fará a colheita dos impuros.
Então, sem previsão alguma, surge um impasse de imensa relevância na maior sala do tribunal divino. Lá dentro, em caloroso bate-boca, São Benedito e um demônio de maior alçada discutem, sem acordo, a quem vai pertencer a alma em julgamento. Desgastados pelo tempo que já dura a confusão, solicitam que um novo juiz seja designado para o caso. Em face da gravidade da situação, o Arcanjo Miguel pede vênia ao Senhor pela ousadia, mas convoca a Virgem Maria para presidir a corte ensandecida.
Maria chega, acompanhada do Arcanjo Gabriel e de um coro de anjos, e senta-se em frente à alma em julgamento para ouvir a sua história. Mas ao final, cerra os olhos e diz:
− Este caso pede a interferência direta de Deus. Eu apenas posso interceder por essa alma junto ao Pai.
− Fora de questão, minha senhora! Céu e inferno não podem fechar as portas da eternidade enquanto houver uma alma sem julgamento, mas retirar o Senhor Deus do seu trono é blasfêmia inaceitável!
No entanto, a hesitação se dissipa frente a uma nova ameaça:
− Satanás transpôs os portões do limbo e dirige-se para esta sala! - entra gritando um querubim descomposto.
Como?! Satanás em degeneração e trevas sobe do inferno para reivindicar uma alma do limbo? Que personagem é essa que merece como acusadores não apenas um mero demônio ou um diabo qualquer, mas o próprio senhor do Reino das Trevas?
− Precisamos avisar o meu filho - repete Maria.
− Pode deixar, senhora, eu falo com Ele - prontifica-se o Arcanjo da Anunciação e da Revelação.
Miguel e Gabriel fazem menção de retirar-se, mas esbarram no Todo−Poderoso que já está dentro da sala.
− O Senhor já está aqui, Pai? - diz o Arcanjo Gabriel.
− Onisciente e Onipresente, Gabriel...
− Perdão, Senhor. Nada mais é do que o impacto da presença de Belzebu que me desnorteia os dogmas. Ele é mesmo o mestre das confusões!
− Pois que isso se dê apenas lá, no seu subsolo medonho! Aqui, espero que pelo menos vocês, meus anjos da luz, sejam poupados da sua influência!
E, dizendo isso, posta-se à frente da alma-ré, em atitude compassiva e atenciosa.
− Eu sei quem você é, homem. Só não entendo o porquê da discussão. Você pertence a ele - e Deus aponta para Satanás, sentado ao fundo da sala com expressão de enfado.
− Alto lá, Senhor, alto lá! - interrompe o homem sem a menor deferência à autoridade suprema. − Isso aqui é um tribunal ou não é? Se é, eu tenho amplo direito de defesa, certo?
− E por que é então que você acaba de recusar São Benedito? - esbraveja o Senhor.
− Ora bolas! Se o meu caso é único, eu só posso me defender diante do Juiz Supremo. Além do mais, que coisa politicamente correta é esta, meu Deus? Mandar um advogado negro, só porque eu sou negro?
A essa altura, o rebuliço dentro e fora da sala é intenso. Horrorizados com tamanha falta de respeito, anjos e santos se perguntam quem é aquele homem. São Benedito é quem responde:
− Esse é o homem que digitou a sequência, entendem? O segundo homem!
Então, pertence a ele o dedo da destruição! Quanta arrogância, quanta soberba pensar que o Pai em pessoa irá julgá-lo! Não se trata de um crime contra a humanidade, mas de um crime contra toda a criação!
Altivo, sem mostrar remorsos, o homem recebe de Deus um aviso:
− Não tentarás o Senhor teu Deus!
− Não, longe de mim tentar o Senhor! É o Senhor quem tenta a humanidade há séculos, hein, Pai Eterno?
Deus petrifica-se.
− Deixou um punhado de criaturas mimadas e egoístas terem dinheiro e poder, enquanto entregou a um monte de homens fome, ignorância, violência. Molestadores de crianças recebendo perdão eclesial, e mendigos abarrotando as cadeias por causa do roubo de comida. Bom, pelo menos no caso das drogas o Senhor foi mais equilibrado... Consumo geral! Dinheiro fácil, exploração sexual, filho matando pai, crianças assassinadas. Quem foi que tentou quem, Senhor Deus?
O silêncio permanece sepulcral.
− “Não matarás”. Essa frase também é sua, não é Senhor?
Deus aquiesce.
− Caim foi uma piada de mau gosto, então? Ora, Senhor, tenho certeza de que nós todos contamos nas Escrituras e nos livros de História o número de guerras a que o mundo assistiu desde o início dos tempos!
− Direto ao ponto, homem - interrompe Deus.
− Eu fui apenas o homem que digitou a sequência final. Nunca feri uma criança, nunca discuti com um idoso, nunca soneguei impostos. Fui bom filho, bom pai, bom cristão. E cumpri as minhas ordens, Senhor.
− Ordens de aniquilar a Criação!
− Se não fosse eu, era outro. Só uma questão de tempo e comando, Senhor. Um militar cumpre as ordens que recebe sem questionar, assim como Miguel e Gabriel cumprem as que o Senhor lhes dá. Vamos ser justos, Pai Eterno, já que por aqui também o livre arbítrio é visto como insubordinação!
− O homem é criação do meu amor divino. Eu o dotei de pensamentos, palavras e atos. E, principalmente, do poder de decidir o seu destino diante do bem e do mal - diz Deus, exausto.
− Foi a mesma coisa com Lúcifer, não foi, Senhor?
Transfigurado, Deus eleva os olhos ao infinito. E nem o príncipe das trevas se atreve a interferir nesse momento divino.
Então, com a voz amena, o Altíssimo se dirige a Lúcifer:
− Nossos destinos se separam aqui, não é mesmo?
− É verdade, Deus. De hoje em diante, cada qual com a sua turma, cada qual com a sua eternidade.
− Algum problema para você se eu ficar com ele? - pergunta o Senhor, apontando o réu.
− O quê?! Mas ele é meu, Criador! Um pecador nato! Só o que fez até agora foi ofender a Sua divindade, blasfemar contra os Seus mandamentos e se desculpar usando um truque de palavras muito bem engendrado para confundir o Senhor!
− Por isso mesmo é que eu não posso expulsá-lo do Paraíso.
− Como assim?! – espanta-se o Anjo Caído.
− Eu não posso cometer o mesmo erro duas vezes!

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