sábado, 14 de fevereiro de 2009

O menino sem pai e o anjo da guarda


Internet - Google Imagens


Bruno tateou a guarda da poltrona gorda com os dedos compridos. Colocou ali a toalha de banho que tinha acabado de usar, mesmo sabendo que a mãe ia dar uma bronca. Em seguida, se arrumou para o almoço e deu um toque no relógio digital que a avó tinha lhe dado de presente, escutando a máquina informar: “Onze horas e quarenta e sete minutos”.
Como tinha tempo, foi até a cama e jogou-se de costas sobre o colchão macio.
- Aiiiii!
- Quem está aí? – Bruno levantou-se de um pulo.
- Eu!
Enquanto buscava a bengala para se defender daquela voz, voltou a perguntar:
- Quem é você? O que é que você está fazendo no meu quarto? Você é bandido?
- Eu, bandido? Que nada! Eu sou Ariel, o seu Anjo da Guarda. Estava aqui, bem refestelado na sua cama, tirando uma soneca, até você me esmagar com esse mortal de costas!
- Anj....o quê?! Mãããe, mããããnhêê! – Bruno desandou a berrar, apavorado - Saia daqui, seu bandido, seu doido! A minha mãe vai acabar com você!
- Sua mãe não está ouvindo, está debaixo do chuveiro.
- Eu vou chamar o meu pai!
- Mentiroso! Você não tem pai. Seu pai morreu há quatro anos.
- Co... como é que você sabe disso? Andou investigando a minha vida, é? E mentiroso é você, viu? Anjo da guarda! Essa é boa!
Ariel se sentiu ofendido:
- Você não acredita em mim, logo em mim que vivo protegendo você, seu ingrato?
Bruno ensaiou uma fuga tentando alcançar a porta com a ponta da bengala, mas, no meio da tentativa, sentiu o puxão do outro, à meia-força. Puxa para cá, puxa para lá, trombaram-se e despencaram no chão. O garoto, sem um arranhão, sentiu sob si umas penas macias e cheirosas, como se um grande ganso o estivesse aparando. Arrepiado, perguntou:
- Que penas são essas?
- As minhas. Ou melhor, o que resta delas depois de cuidar de você por dez anos.
- Você é um anjo mesmo?! Um anjo anjo?
- Lá vamos nós outra vez! Sou. Sou um anjo. O seu Anjo da Guarda. Oficialmente.
- Anjos não existem, Deus não existe, o céu é só um lugar onde estão as estrelas, os....
- Quem lhe disse isso?! – interrompeu Ariel, desconcertado.
- Minha mãe – respondeu o menino, desafiador.
- Ó Pai, tudo menos isso!Eu fico tão aborrecido quando o Senhor me põe a confrontar as mães! É tão complicado! – pensou alto Ariel, dirigindo-se novamente ao garoto.
- Sua mãe está confusa.
- Não está não! Ela me contou que Deus só existe na imaginação das pessoas. Ela disse que Deus foi inventado porque as pessoas precisam achar que tem alguém cuidando delas, mas que isso é bobagem porque quem cuida da gente é quem está perto da gente, todo dia, é quem a gente pode ver ou ouvir, entendeu? E eu nunca vi nem ouvi Deus! Pronto, é isso!
- Senhor Deus, tão pequeno e com um discurso tão inflamado! – suspirou Ariel - Você se lembra quando foi que a sua mãe lhe disse essas coisas?
- Não lembro...espera um pouco...Quando o papai morreu, a mamãe ficou muito triste, principalmente porque a gente teve que se mudar para a casa da vovó, mas ela vivia repetindo “Deus, me ajude, por favor!". Não consigo lembrar quando foi que ela parou de pedir... Mas você não é ‘o’ Anjo da Guarda? O sabe-tudo? Lembre aí!
- Eu vou ajudar você a lembrar. Um dia, pouco tempo depois de o seu pai morrer, você tentou pular o muro da casa da sua avó para fugir para a rua, tropeçou num dos pontaletes de metal cimentados lá no alto, caiu e bateu a cabeça. Quando acordou, não enxergava mais nada. Foi aí que a sua mãe brigou com Deus – falou Ariel entristecido.
- Foi minha culpa?! – perguntou o menino, agoniado.
- Não! Não foi culpa de ninguém. Mas a sua mãe entrou em desespero. E do desespero foi para a raiva, e da raiva para a solidão. E pensou que se Deus existisse não teria deixado tanta coisa ruim acontecer.
Bruno recordou-se da primeira noite em casa, após a volta do hospital. Enquanto rezava pedindo para enxergar novamente, sua mãe entrou no quarto e lhe contou aquelas coisas sobre Deus não existir. Não se importou. O importante era que ela estava ali, com ele.
- E não deixava acontecer mesmo! Por isso é que eu sou igual à minha mãe: não acredito em Deus e só acredito em quem eu posso ouvir ou tocar!
- Quer dizer que você nunca pensa no seu pai?
- Como? Claro que penso!
- Não pensa. Ele deixou de existir. Você não acredita mais nele.
- Acredito sim! Eu lembro dele, ele existiu de verdade!
- Para mim, tudo bem... Mas como é que você faz para convencer as pessoas que nunca viram, ouviram nem tocaram o seu pai de que ele realmente existiu?
- Tem um monte de fotos dele, viu! A minha mãe pode provar que ele existiu, a minha avó também!
- Ué, mas e se as pessoas não quiserem acreditar na sua mãe, em você, na sua avó? Elas nunca viram o seu pai, só ouviram falar, só conhecem de fotografias...Podem dizer por aí que ele nunca existiu!
Bruno sentiu as lágrimas magoadas escorrendo dos olhos até a ponta do nariz. Lembrou que o pai se divertia com ele dizendo que as gotas só param na ponta dos narizes grandes. A recordação lhe pôs um sorriso de saudade na boca.
- Ariel, você está falando sobre o meu pai ou sobre Deus?
- Sobre os dois, Bruno. Eu estou falando da existência do que não se pode ver, ouvir, tocar.
Depois de um tempo pensativo, o garoto disse:
- Eu acho que talvez seja melhor eu conversar de novo com a minha mãe. Você podia ir comigo.
- Não posso. Só posso falar com você. Mas existe uma coisa que vai ajudar...
E, dizendo isso, Ariel soprou no ouvido do menino umas palavras finais.
Entrando pouco depois na cozinha, Bruno dirigiu-se à mulher que terminava de pôr a mesa de almoço:
- Mamãe, nós precisamos conversar de novo sobre Deus.
- Bruno, o que é isso assim tão de repente? Nós já tivemos essa conversa há muito tempo, meu filho! – questionou ela, sobrancelhas arqueadas.
- Vamos conversar outra vez – pediu o menino suavemente, abraçando a cintura da mãe.
E antes que fosse ela a romper o silêncio, Bruno falou:
- Eu estava com o meu anjo da guarda lá no quarto. Ele me pediu que eu dissesse para você não tentar me interromper antes de eu dizer primeiro que você está muito bonita hoje com essa saia de flores e essa blusa azul que o papai lhe deu de aniversário.

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