quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Pequenas e inconfessáveis vinganças

Vejo na novela das oito a moça desprezada que, ao avistar o namorado com outra, esvazia os pneus do carro dele. Agachada para se esconder das pessoas, ela coloca um palito na válvula e escuta pacientemente o fiiiiiii do ar saindo.

Coisa feia e mau exemplo são coisas que só me ocorrem dizer agora, já a mulher adulta que sou. Mas para ser bem sincera, a cena me provoca gargalhadas.

Anos atrás, quando eu ainda estava na casa dos 20, tive uma amiga muito brava que fazia isso com os namorados que a traíam. Janete era aparentemente tímida, meiga e frágil. Aparentemente. Gaúcha, tinha o cabelinho nas ventas e nunca levava desaforo para casa.

Pois acontece que ela começou a namorar um rapaz de nome Heitor, bonzinho, apaixonado e simpático, desses que não fazem mal a ninguém. Não fazia mal, mas era “galinha” como ele só. Vivia saindo com uma ex-namorada para acertar ponteiros do passado, ou com uma e outra amiga da faculdade, e escondia isso de Janete.

A coisa evoluiu e ficaram noivos, de colocar aliança no dedo e tudo. Ela, acreditando que Heitor era um boi pastando; ele, confiante de que Janete era uma dama. Só que chegou a noite em que ele se disse cansado demais para sair, tinha bebido com os amigos de dia, estava indisposto etc. Ela, doce, meiga e frágil, me ligou na mesma hora e combinamos de sair para a balada (naquela época se dizia “para badalar”).

Fomos a um barzinho, conversamos, tomamos uns chopes e decidimos que era hora de ir embora para casa. O carro de Janete descia uma rua para me levar em casa quando, subitamente, ela enfiou o pé no freio com tanta força que quase me fez bater a cabeça no vidro. Só deu tempo de escutar a sua voz fina gritando: “cachorro!”. Virei para o lado e lá estava o manso e bom Heitor, aos beijos e abraços com uma moça numa mesa bem no fundo de um bar superlotado. Antes que eu pudesse lhe pedir que esperasse, Janete parou em fila dupla e saltou do carro, decidida. Seus 1,75, que já não eram poucos, espicharam ainda mais. Ela se voltou de costas apenas para tirar da bolsa o batom e retocar os lábios. Depois, ergueu bem a cabeça e, ajeitando os cabelos compridos e loiros, seguiu bar adentro como se fosse um furacão.

Quando tive tempo de alcançá-la, ela já estava na frente dos dois, mostrando ao mundo que era tudo, menos tímida. O aparvalhado escutava, enquanto mantinha os olhos fixos no chão, e a moça com quem ele estava escapou estrategicamente para o banheiro. Menos de um minuto depois de ter dito o que queria e de ter colocado dentro do copo de chope de Heitor a aliança de noivado, Janete deu meia-volta, me pegou pelo braço e saímos do bar.

Na rua, me entregou a chave do carro e me pediu que esperasse por ela, porque ainda tinha “uma coisinha pra fazer’. Foi então que eu a vi descer uns quatro ou cinco carros na fila das vagas e sentar-se calmamente no asfalto ao lado do pneu dianteiro esquerdo do carro de Heitor. Enfiou o palito na válvula e esperou pacientemente até poder fazer o mesmo nos outros três pneus.

Quando Janete entrou no carro, sorridente e afogueada, perguntei a ela se tinha achado bonito o que tinha feito. Ela então me respondeu, fingindo tristeza: ”Não. Não achei não. Na verdade eu queria ter esvaziado o estepe também!".

Um grupo de três garotas que descia a rua dava gargalhadas e fazia o sinal de positivo para ela e, do outro lado da calçada, uma voz feminina gritou: “Valeu! Bem-feito para o galinha. Você acabou com o resto da noite dele!”.

Daquele dia em diante, Janete passou a repetir o ritual para cada namorado que a traísse.

Hoje, 20 anos depois, percebo que o mundo continua o mesmo: homens galinhas, mulheres traídas, pneus esvaziados. E me permito achar graça nessas pequenas e inconfessáveis vinganças.

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