domingo, 8 de fevereiro de 2009

Pessoas têm coisas

Gosto de pinçar nas pessoas qualquer coisa. Qualquer coisa que deixe em mim um pedaço, que me pague um pedágio. Não importa se uma frase diferente, tensa, engraçada. Sou atraída por um cabelo interessante que combina com o rosto, um olho aflito que conta problemas, um morder de boca que fala de ansiedade.

Capturam a minha atenção sobrancelhas preocupadas, olhos sacanas, irônicos, doloridos, inexpressividades preocupantes. Ora percebo mãos que se apertam decidindo pensamentos, ora o ajeitar de óculos que disfarça a insegurança. Registro o que me atrai.

Não precisam ser amigas as pessoas de quem pinço coisas. Às vezes, vasculho as antagônicas, as ameaçadoras, as indiferentes. Registro nelas uma altivez desmedida, um fremir de nariz quase despercebido, uma 'sonsice', um recado velado, um jeito engenhoso de colocar a voz para obter, convencer, deturpar, arrasar, ou mesmo erguer.

E, assim, venho acumulando pertences. De A, a timidez mal resolvida, de B a arrogância mal disfarçada, de Z a existência mal-amada.

Pessoas têm coisas. E essas coisas me interessam. Porque é delas que minha vida vive. Além de mim mesma, é claro, que já sou cheia de coisas.

É do que me apodero nas pessoas, do que eu arrecado com elas que construo couraças, preferências, estratégias, felicidade. Para isso, é claro, separo tais coisas uma a uma, comparo, associo similaridades, classifico, armazeno.

E quando alguma coisa me fere, dura o tempo de acabar. Abro um arquivo, dois ou três da memória ou da alma, localizo, identifico, percebo, compreendo. Pronto, desaperta-se de novo o sentimento.

Nem sempre concordo, nem sempre me sinto feliz, mas relevo. Todos somos, afinal, histórias e motivos. Diferentes, parecidos, próximos, distantes.

Somos pessoas que têm coisas.

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