domingo, 8 de fevereiro de 2009

O Transportador

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Por profissão me foi dada a travessia. Quando pirralho, fazia o transporte de pequenas coisas. Levava os ovos para a vó preparar seus quitutes, depois equilibrava doces e salgados num carrinho de mão e ia entregar as guloseimas fresquinhas no armazém da cidade. Ia num pé, voltava noutro, trazendo farinha, arroz, feijão e batata, aconchegados no mesmo carrinho rangedor.
Nessa época, também ajudava o pai a entregar latões de leite na feirinha, me encarregava de fazer chegar a merenda dos manos no pastinho, levava o milho das galinhas antes que elas se unissem num cocoricó histérico, e buscava os remédios da vó toda semana. Quando as pernas dela melhoravam das dores, dava pra aviar a receita só por quinzena, mas eu não me importava com a andança e nem sabia ainda que essa lida constante era ensinamento para as viagens de mais tarde.
Logo que me aprumei um pouco mais, lá pelos 14 anos, passei a entregar bilhetes dos manos e de gente mais velha para as mocinhas das redondezas. Às vezes, transportava as palavras na boca ou na cabeça, jorrando os versos e os recadinhos com a ajuda da voz imberbe e da memória. De vez em quando, se a frase era de fazer corar, ou se era para desmanchar compromisso, a entrega era dentro do ouvido. Nesses casos, ficava por minha conta transportar de volta os tapas, os olhares furiosos e os choramingos.
Assim atravessei os anos verdes e, adulto, dei ao ir e vir uma serventia de maior monta: me firmei na profissão de transportador de existências.
Um transportador de existências não carrega móveis, nem malas, nem quaisquer objetos. Só o vivente e seu quinhão de problemas, alegrias, emoções, ou mesmo a falta delas. Saúde e doença; sonho e pesadelo; ganho e perda. Animais são permitidos. A morte, também. No entanto, para que o transportador não seja enganado sobre carga tão funesta, é imperioso à ceifadora descrever-se antecipadamente: se de corpos, se de almas. A conversa precisa se dar durante a travessia, para orientar não o vivente, mas o transportador.
No começo, eu lotava com famílias inteiras a carroça que o pai me deixou. Mas a confusão tumultuava a viagem. Alhos e bugalhos misturados, sacudindo aqui e acolá? Briga! O sonho da moça que buscava a capital, a tristeza da outra que se fazia acompanhar pela desonra, a imaginação sem freio das crianças, o lamento do velho, o desengano do desempregado, a luxúria do amante. Tudo engalfinhado num chãozinho de carroça!
A coisa ficou mesmo feia quando um moribundo e uma prenha se encontraram. A ceifadora de corpos que viajava com ele resolveu disputar importância com a parição que acompanhava a moça.
− O transportador vai rumar primeiro para o meu destino! Eu preciso entregar o velho ao seu repouso final! - decidiu a ceifadora.
− Uma ova que vai! Tem mais pressa o chegar do que o ir-se! - replicou a parição.
E a baderna só cessou quando a mulher gemeu tão alto que ao meu susto se somaram o júbilo da parição e a rendição da ceifadora: a iminência do parto tinha decidido a querela!
Depois desse apuro, passei a transportar uma existência por vez. Apesar de o tempo encurtar com a decisão, não era mais possível permitir que certos destinos se cruzassem. Carregar um a um era mais justo e mais prudente.
Da carroça passei para uma motoneta usada. Desastre! As pilhas de resmungos e de suspiros e de gargalhadas iam penduradas nas laterais do banco do passageiro, batendo no pneu recauchutado e vaticinando um acidente que, felizmente, nunca ocorreu porque a lentidão da maquineta impedia grandes riscos. Tentei ainda um barco, mas o rio e a travessia pertenciam à ceifadora de corpos, e não me apetecia pelejar por território tão sagrado, ainda mais com quem!
O veículo me chegou via fatalidade, por meio de um viajante cujas pernas doentes e arroxeadas me lembraram as pernas da vó no instante em que bati os olhos nelas. No hospital, quando parei para despejar suas dores, gemidos e febres, pensei que nunca mais o veria. Mas, dias depois, recebi de presente do sujeito nada mais nada menos que uma caminhonete confortável, com o seguinte bilhete:
“Minhas pernas se foram, mas eu sobrevivi. Segundo os médicos, porque o transportador me conduziu a tempo. Em agradecimento, envio minha caminhonete, à qual chamo de ‘veículo’. É sua agora, porque para mim não tem mais uso”.
Não me fiz de rogado. O veículo era grande, cabia de um tudo. Eu não ia mais precisar carregar só a metade da bagagem dos viventes, nem me aborrecer convencendo-os a deixar para trás um meio fardo. Deitar fora as piores emoções, como medos e angústias, e subir a bordo as mais frugais ou divertidas nem sempre era visto com bons olhos pelo proprietário da existência, por demais acostumado à companhia dos martírios.
Mas mesmo grande, o veículo enfrentou seus percalços. Certa feita, acomodei uma mulher recém-separada que fugia da própria sina. Suas memórias, a dor da separação, a depressão aplacada por pílulas, o coração partido e um cachorrinho irritado − que insistia em ficar nos pés da dona – não eram nada se comparados aos mais de cinco mil relatos de um diário escrito durante os 15 anos de casamento. Acomodar lembranças feitas de letras é um deus nos acuda para qualquer transportador de existências!
Vez ou outra, era apenas uma carta ou um bilhete que me faziam companhia na estrada. Eu tinha que abrir e ler antes de fazer a entrega. Esse combinado me recordava os dias de menino em que eu levava recados cochichados e trazia de volta os tapas das moças coradas. Apanhei um bocado ao longo dos anos.
O ofício me desgostou de verdade em duas transportações: os viventes eram meu pai e minha mãe, se retirando deste mundo. Nessas duas despedidas retardei a entrega. Contudo, não me cabia impedir as viagens, somente cumprir, sem burlas, o transporte.
Uma lição, no entanto, aprendi cedo, ainda nas primeiras travessias. Com dó de um jovem a quem a ceifadora de corpos acompanhava, decidi reconduzi-lo para casa. Subi os olhos até o espelho retrovisor para preparar o retorno. Foi quando, estarrecido, vi que a estrada atrás de mim tinha sumido, dando lugar a um deserto de crateras e troncos retorcidos! E quanto mais eu prosseguia, tendo à frente um pavimento firme e preservado, mais meus olhos encontravam um rastro de destruição em tudo o que ficava para trás.
Percebi, depois de poucas vezes, que só acontecia de a estrada apodrecer quando a única bagagem do vivente era uma das ceifadoras, a de corpos ou a de almas.
Hoje, não me procurou passageiro. Tenho só uma encomenda, um recado a entregar. A claridade me faz companhia e o caminho está vazio. Enquanto prossigo, abro a folha dobrada sobre o banco ao lado. No papel desmesurado, um imperativo irreplicável sela o meu destino: “Transporta-te!”.
Meus olhos buscam apressadamente e sem nenhuma esperança o espelho interno. No reflexo retrovertido, cumprimentam-me a estrada desolada e a ceifadora que veio por mim.
Mas qual delas veio... qual delas?!

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