domingo, 8 de fevereiro de 2009

Quae Sera Tamen



Tiradentes Supliciado - Pedro Américo - Museu Mariano Procópio


Nada mais adianta! Sou a ovelha tosca neste altar que os curiosos observam com a piedosa crueldade da insensatez.

Nos tolos existe grandeza apenas quando a morte empresta. Antes ser o borra-botas da tropa que o valente entregue em sacrifício! Nenhum ideal resta agora, nem os que nasceram de todos os tipos de interesse, durante esses anos conspirados - e que se macularam como joio e trigo no ventre do nosso movimento! – nem os trazidos, e ouvidos, e sentidos de além-mar. Irônica liberdade pela qual se anseia e luta com as vísceras, com as palavras, com o destemor dos insanos!

Não vejo mesmo rostos familiares. Por certo não esperava aqui os valentes conjurados que ontem mesmo escaparam de sentença tão vil e derradeira como a morte, porque sei que a eles restará para sempre a certeza de que a derradeira partida é ainda menos dolorosa do que o respirar em desgraça a cada nova manhã. Esperava algumas faces amigas, homens de convicção que me secundaram os dias e que ainda não caíram com a aniquilação do movimento. Nem eles. O medo é a única morte que não podemos vencer.

Somos agora eu, meu carrasco e a devastação das últimas esperanças. Não deveria ser assim! Nesse momento de maior solidão eu, tão calcinado pelos percalços, já deveria ter domado o burro chucro que nos governa a todos desde o ventre materno, essa comichão que o Divino nos entrega pelo nome de alma.

Quem sou eu afinal? Um plantador de esperanças descabidas? Um sonhador que a História lembrará como fraco, incauto, inconseqüente, sacripanta? Ao menos nesta hora preciso voltar-me às respostas fiéis que devo outorgar à minha eternidade!

Enquanto tem início a degradação da morte pública, tenho tempo para mim; mas não quero esses instantes de perdão ou resgate! Pressinto que meus olhos, minhas entranhas carecem da direção do futuro. É mais que hora de arrancar a venda, antes que a morte me colha em meio ao inacabado! Terminarei a trajetória em mim mesmo!

Espirais forasteiras acordaram em mim as idéias libertárias que ora me guiam os pés para a forca. Acalentei os sonhos de razão que nasceram no Velho Mundo. Fui testemunha incólume da independência obtida de uma guerra entre irmãos. Vi nascerem das mãos do homem as máquinas que arrancaram dele a dignidade do trabalho operário.
Eu vi nações que se fizeram grandes ao pelejar pelo povo, mas que agora destroem outros povos como lobos ensandecidos: guerreiam, conquistam, espoliam, crescem pelo tacão da bota que fincam no dorso dos enfraquecidos! E a despeito de tantas percepções desconcertantes, a hora desta terra Brasil era esta!

Que fossem contemplados os meros defensores do próprio quintal! Que recebessem seu quinhão os homens de pouco valor e grande ambição! Que se fizesse a revolta pelos motivos certos, incertos, confusos, mas que a liberdade viesse como virtude para uns, prêmio para outros, desde que estivesse aqui, agora, comigo, em lugar deste patíbulo torpe!

Quem virá por este país? Naus portuguesas, já tão cansadas da conquista? Soberanos bocejantes em busca do sexo de mucamas? Quem, afinal, irá nortear este povo à independência da colônia? Como haverá legitimidade na voz portuguesa que irá bradar independência ou morte, se hoje a minha voz de joão-ninguém será calada, minha família execrada, minha casa de cidadão destruída? Quem conferiu a Portugal essa honraria que o futuro trará? Que liberdade é essa que nasce vigiada pelo zelo do verdugo?!?

Vejo, mais do que sinto, as sensações que me tumultuam o espírito. Enxergo uma nação sem princípios, viciada no ato de ceder, corrompida pela fome de convicções. Um povo crente, punido pelo imediatismo do presente. Sangradouros desajustados que nunca mais viram nascentes. Esses rostos me esperam num porvir que não terei, e não posso mais retirá-los de lá! Tenho certeza de que tentei utopia.

Os rostos que perscruto são inocentes. Prefiro os olhares sarcásticos, os gestos ignóbeis: eles pertencem aos que fazem da proteção de suas próprias vidas a prioridade nascida na torpeza do egoísmo. A eles, a salvação em meio ao caos. Mas esses rostos desprovidos de malícia falam de dias violentos, de submissão e flagelos. São gado. Que lástima!

Eu mesmo quis fazê-los rebanho. E confesso que, mesmo detentor das melhores causas, ainda assim fiz uso do vilão que hoje irá partir deste meu peito! Não sei de quantas pretensões o homem vem dotado, mas eu, por certo, fui conspurcado pelos sonhos de irmandade e liberdade. Por isso o dó que me consome ao ver que não há rumo!

A fome virá para esses rostos pálidos. Acima de tudo, a fome de decência. E a fome do saber, e a fome de afeto, e a fome de verdade. E quedarão todos sem o alimento usurpado pelos velhacos.

Haverá mazelas do corpo e da alma. Feridas sem o consolo da cicatriz. Um povo doente de medo, de identidade.

Haverá uma ética sufocada, sobrevivendo da respiração de poucos. Haverá fatias sociais determinadas pela prata, pela cor da tez, pelas alcovas que escolherão. Escravidão do homem pelo homem. Ditaduras.

Haverá coturnos alienantes, trapaceiros que confundirão e corromperão a massa, para torná-la ignorante e cúmplice de desmandos. Tantos engenhos, tanta rapidez do homem em prolongar e melhorar a vida...e tão pouca plenitude! Um fim de mundo sem fim...
No entanto, o ideal da liberdade permanece no meu corpo moribundo. É uma chama perpétua que me aquece a morte! Posso me entregar então, confiante, aos tempos...Estarei torcendo do éter pelos visionários, pelos atrevidos, pelos de caráter.

O Lampadosa é uma amplitude singela. Meu carrasco consegue até presentear-me com a placidez que os inanimados emprestam aos sacrifícios mais cruentos. Ele já vem. Tem pressa de lavar-se da culpa nas tabernas e nas carnes de boas moças. Arremato os acertos.

Mártir, não intento ser. Somos todos. Seria injusto com a turba que atravessará os séculos. Revejo, portanto, o que me iniciou a fieira de lamúrias e apreensões...Ainda há o que me reste então! A angústia clarividente do porvir é minha última amante.

Não há mais tempo. A corda da libertação é o que menos preciso temer. Serei partido em membros, para aplacar pela sanha da carnificina o medo dos que se sentem aviltados pela minha crença. E cada pedaço de mim alimentará uma inquietude. De homens e de bestas.

Mas por fim, altaneira, repousará minha cabeça no castigo mais doce: Vila Rica!

Então, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo* farei a liberdade, ainda que tardia.
__________________________________________________
*Há versões de historiadores de que a bandeira do Estado de Minas Gerais, criada no mesmo período, representa, por meio de seu triângulo, a Trindade Santa: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário