domingo, 8 de fevereiro de 2009

Santa Catarina


A gente se impressiona com a tragédia em Santa Catarina. E se impressiona por vários motivos. Porque a natureza está brava com o Brasil, porque a gente não está acostumado a ouvir falar de tragédias tão sérias no sul do País, porque a gente parece que toma um susto maior quando a coisa é com o nosso próprio sangue e língua, porque o Brasil é um lugar abençoado por Deus, sem terremotos, sem vendavais, sem tsunâmis.

Ou pelo menos era, até os tremores de terra que andam acontecendo aqui e ali, o destelhamento de casas que o vento provoca nessa ou naquela cidade. E até Santa Catarina acontecer.

Nós somos um povo sem cultura de mortes trágicas, em massa. Matamos no trânsito das cidades e das estradas, matamos crianças que ainda não nasceram, matamos velhos por falta de afeto e de cuidados, matamos nas mesas de cirurgia por falta de prática e de fiscalização. Também matamos muito mesmo nas favelas, nas overdoses de pó, de bebida, de solidão e de mediocridade. Matamos por causa da política, por causa do latido do cachorro do vizinho, por causa da traição que nos atinge e por causa da honra.

E apesar de tudo isso não estamos acostumados a morrer das intempéries.

Se fosse um outro estado, a gente diria: "Descaso das autoridades". Porque a culpa é dos outros, nunca nossa que não tomamos vergonha na cara para votar direito, para fiscalizar direito, para exigir direitos, os nossos.

Mas foi em Santa Catarina.

Até agora, com sinceridade, por mais que eu tivesse sentido os olhos marejarem a cada reportagem, eu ainda não tinha sentido a dor do outro, aquela tão difícil de chamar a atenção porque só parece maltratar o outro. E quando essa tal de dor do outro acontece, a gente manda comida, remédio, cobertor e dinheiro, mas se esquece de mandar afeto.

Hoje, alguém me enviou por e-mail três fotos da tragédia, apenas três. E de repente eu me engasguei com o tira-gosto que comia sem pressa, para comemorar que o sábado chegou. Sábado é dia de dormir muito, de beber cerveja gelada e de não receber visitas. Por isso eu comemoro.

Mas este sábado não.

Quando me invadiu pelos olhos aquela casa branca destruída, esmigalhada como um protótipo, um brinquedo pisado, eu subitamente me senti triste, de uma tristeza tão desconhecida que me acabrunhou. Uma tristeza de empatia. Uma tristeza de pensar em como vai ser depois que a água baixar, depois que as pessoas não tiverem mais a urgência de ajudar para distrair o sofrimento.

Bem ou mal, as pessoas vão enterrar seus mortos, reconstruir suas propriedade, ou ir morar com parentes. Vão tomar empréstimos, improvisar, receber caridade. As crianças vão esquecer, os padres vão exortar à oração, as autoridades vão fazer alguma coisas.
O brasileiro tem isso de não deixar cair a peteca.

Mas e as memórias, onde foram morar? As fotos da mãe, do casamento, as certidões, os livros de estudo. Para onde foram subtraídos os segredos das paredes, a vizinhança conhecida, as gargalhadas de domingo, as flores conhecidas de cada primavera? Em que águas foram embora os sonhos, a crença, a aceitação, a esperança? Em que lamas estão enterrados os amores, os símbolos, as histórias? Em que entulhos se escondeu a dignidade dos que estão ainda desaparecidos, ou dos que precisam prosseguir vivendo?

Santa Catarina, enfim, me atingiu com a força das suas águas.

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