segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

São João dos Perdões


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O município de São João dos Perdões é uma pérola incrustada numa serra magnífica. Tudo no lugar tem qualidade, da água cristalina que jorra até mesmo das bicas no centro da cidade, ao frescor dos alimentos servidos diariamente na mesa farta dos pouco mais que 20 mil sãojoanenses. No verão, o calor e as chuvas tropicais equilibram o cheiro do ar, tornando agradável viver ou passear ali. E quando vem o frio, as baixas temperaturas encontram seus adeptos.
Localizado perto das quedas d'água que circundam o município, o Convento Santo Tomás de Aquino, mais conhecido como Convento da Serra, é um ponto turístico diferente em São João dos Perdões. Pertencente à ordem dos dominicanos, a construção contrasta com a audaciosa modernidade desses frades pensadores. Na visão paradisíaca da missão que escolheram para si, a opção pelos pobres é a única tradução de uma sociedade com justiça.
Nada de milagres no local, apenas fé e atitude. As pessoas acorrem ao convento, vindas de perto ou de longe, para buscar entre os frades um pouco do que o mundo lhes nega: sabedoria e paz. Na entrada principal, logo que o visitante sai do sol para a sombra do pátio interno, uma placa singela:

São Domingos
Durante o dia falava de Deus aos homens. À noite, em oração, falava dos homens a Deus.

Mas São João dos Perdões não foi sempre assim. Há uma década, o que mais se encontrava nas ruas da cidade eram vício e vergonha. E os desvalidos dessa miséria eram pais de família dormindo nos bares e adolescentes consumindo a fumaça da ilusão nos cantos das ruas.
A desgraça tinha nome e endereço: Haras Serra Bonita. O criadouro, pertencente a forasteiros sem rosto, instalou-se no município em 1994. Sua proximidade do convento era tamanha que os habitantes do lugar, depois de consumados os acontecimentos que culminaram em dias de sofrimento, costumavam dizer que aquela era “a serra de Deus e do diabo”.
No princípio houve euforia no município. A necessidade do pão de cada dia fez com que os desempregados corressem como lebres até as portas do empreendimento. Tratadores de animais, seguranças, cozinheiras, cada vaga era celebrada com lágrimas e olhos de gratidão.
Por essa época, Frei Antônio Vítolo, hoje com 84 anos, já era o frade mais conhecido do convento. Não era o prior, mas suas elucubrações quase visionárias, que deitava nas folhas de um caderno noite após noite, lhe granjearam respeito e admiração. Uma vez, repreendido pelo prior sobre as noites sem dormir, e alertado sobre os pecados da gula e do orgulho, Frei Antônio respondeu:
- A minha sofreguidão em escrever só é igual ao prazer que eu sinto, a cada manhã, em saber que o tinhoso anda perdendo feio a briga pelos sãojoanenses. Enquanto ele dorme encharcado de preguiça, eu permaneço firme na disputa pelas almas.
E foi assim que, numa dessas noites de insonolência, Frei Antônio viu suas mãos descontroladas cumprindo no papel o que a cabeça ditava: Às bestas, as regalias dos homens. Aos homens, a imundície das bestas.
Primeiro achou que era o demo lhe pregando peças. “Esse rabudo quer tomar conta de mim, mas eu não deixo”. E pôs-se a rezar. Mas aos poucos, aclarando as idéias, percebeu que não havia nenhuma presença do mal naquelas linhas. Então, o que era? Procurou o prior e, juntos, deram tratos à bola sem muito sucesso. Os dias foram reduzindo o impacto das palavras, que ficaram esquecidas no caderno pessoal de Frei Antônio.
O primeiro sintoma de que cidade tinha mudado foi a redução de fiéis às duas missas dominicais do convento. Questionados, os cidadãos fugiam da resposta, alegando estarem exaustos pelo trabalho excessivo.
Mas não era assim. Qualquer um que passasse bem tarde da noite pelas ruas do município podia notar que o movimento nos bares não tinha exaustão. São João dos Perdões deixou de ter uma boate só, aonde os jovens iam se divertir e namorar um pouco, e ganhou uma outra, mais escura, mais afastada do centro. O cheiro de maconha, antes ocasional, aparecia afrontoso em cada esquina. Aumentava a olhos vistos o consumo de álcool entre rapazes e moças, enquanto o índice de aprovação nas escolas despencava.
Frei Antônio e outros frades tentaram reverter os excessos, mas foram rechaçados pela comunidade.
- É o progresso, frei – diziam todos – O progresso é assim mesmo, tem um custo.
O frenesi durou dois anos, durante os quais o Convento da Serra passou a receber pouca gente da localidade. Tentando afastar as preocupações dos frades, Frei Antônio repetia, lúcido:
- O progresso deu pernas novas aos homens e eles desistiram de usar Deus como muleta.
- Ingratos – dizia o prior.
- Não, não são ingratos. Só têm pressa em caminhar. São homens. Precisam de oração tanto quanto de sustento, diversão e liberdade. Uma hora, encontram o equilíbrio disso tudo. – contemporizava ele.
Uma tarde, imprevisível que era, Frei Antônio armou-se de fôlego e caminhou até o haras. Na porta, dois carros com o nome do criadouro estampado em letras imensas anunciavam que a segurança do local era intensa.
- Bom dia, frei! – gritou de dentro do carro José Antunes, um menino que tinha visto nas fraldas.
- Bom dia, Zé.
- Passeando? - perguntou o rapaz
- Querendo conhecer o haras...posso?
José Antunes olhou o outro motorista e pediu um instante ao frade. Em seguida, conversou pelo rádio com alguém que lhe deu a autorização pedida:
- Entra aí, frei, eu vou levar o senhor até lá dentro.
- Eu posso ir andando...
- Desculpe, frei, mas o senhor sabe, eu estou cumprindo ordens.
Enquanto o carro seguia devagar pelo caminho interno, Frei Antônio se espantava com o asfalto que conduzia até a grande construção, onde baias e homens se misturavam indistintamente.
- Bom dia, padre, fazendo uma visita? - um homem jovem lhe esticou a mão.
- Bom dia, meu jovem, eu sou um frei, frei Antônio – apertou a mão do rapaz.
- Perdão, eu não entendo esses cargos de igreja! Eu sou Luís Monteiro, o veterinário chefe do haras e vou acompanhá-lo na visita.
Entraram no prédio principal, onde as éguas e os garanhões olhavam com empáfia o séquito de trabalhadores ao seu redor. Havia, ainda, mais surpresas: baias climatizadas, ração importada, água corrente passando numa canaleta em frente aos bichos. Mas a coisa mais impressionante era uma vagina artificial que imitava a anatomia de uma égua, pronta para colher o sêmen dos garanhões.
- Isto aqui, frei, é um recipiente resfriador – mostrou o veterinário - Dentro dele, o sêmen coletado do animal fica guardado a uma temperatura de 4º , até que possa seguir de avião para o lugar onde está a égua que vai ser inseminada. E ali atrás, como o senhor pode ver desta janela, temos uma pequena clínica para cuidar de partos e da saúde dos animais.
Frei Antônio saiu de lá acabrunhado. Água tratada, comida fresca, acomodações de luxo, médico particular e segurança. E tudo isso se destinava às bestas. Então, pela primeira vez, em meses, se lembrou das palavras que tinha escrito: Às bestas as regalias dos homens. Aos homens a imundície das bestas. Retornou ao convento pensando em como se daria a outra parte da sua predição.
Dias depois, o primeiro sãojoanense ficou doente. Febre alta, prostração, diarréia. Comeu coisa estragada, disseram os agentes do posto de saúde. Dr. Natalino, o médico da cidade, estava viajando e ninguém sabia onde localizá-lo. Mais dois casos e, dessa vez, os pacientes reclamavam também do estômago e de uma “confusão na cabeça”. Em seguida foram três crianças e mais dois adultos, até que não se podia mais chamar de andaço aquele caos. Porque uma criança morreu.
Dr. Natalino chegou um dia depois da morte da menina de dois anos, em tempo de acertar o diagnóstico: febre tifóide. A vigilância sanitária da capital, oficialmente comunicada, chegou a São João dos Perdões três dias depois, quando já havia muito mais gente internada no ambulatório da Santa Casa. Febre tifóide, com certeza. O prefeito decretou calamidade pública, as medidas sanitárias foram tomadas, mas restava uma incerteza: de onde tinha surgido a endemia?
Frei Antônio, que ajudava há dias as famílias mais carentes, foi o primeiro a levantar a suspeita:
- Dr. Natalino, o senhor percebeu que todos os doentes moram do mesmo lado da cidade?
- Como assim, frei Antônio?
- Não tem ninguém doente lá para os lados da Barroquinha, tem? Já para os lados do convento está todo o mundo baixando leito.
Não demorou muito tempo para que a saúde pública concluísse o laudo: dejetos de animais na água dos riachos, causando epidemia de febre tifóide. Fezes de animais...Às bestas, as regalias dos homens. Aos homens, a imundície das bestas.
O Serra Bonita é hoje só uma lembrança e um santuário ecológico foi assentado em seu lugar. Homens e bestas apaziguaram-se. Turistas buscam as belezas da serra, e ainda encontram tempo para longas conversas com Frei Antônio, lúcido como nunca. São João dos Perdões é um recanto incrustado numa serra magnífica.

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