domingo, 8 de fevereiro de 2009

Sem Colheita


Internet - Google Imagens

Uns nascem para semear, outros fazem melhor a colheita. Fui preparada inteiramente para a apanhadura.
Mas de tal forma foi meu treinamento que aprendi a separar das plantas boas as machucadas, as destruídas, as parasitas. Para isso recebi dois cestos iguais, mas o das plantas podres sempre pesou o dobro.
Vali-me do instinto para distinguir as frutas maduras das verdes. Mas confesso que, durante os exercícios de preparação, colhi muitas vezes tanto de umas quanto de outras. De qualquer forma, ainda não era pra valer.
Minha primeira lição foi que a colheita não tem hora. Para me provar essa verdade fatigante, meu mestre me acordou muitas noites e madrugadas. Ora um vinhedo em chamas, de onde eu precisava arrancar as uvas chamuscadas para salvar as boas, ora uma geada fustigante que exigia com urgência a arrancada do café murcho e escuro, antes que o tenro sofresse o mesmo mal. Não era muito justa a divisão das tarefas, porque enquanto alguns homens cobriam as plantas com plásticos, ou criavam fumaças quentes que impediam a geada, o meu trabalho era recolher despojos.
Mas, como disse, o colhimento é a graduação que me coube. E, diga-se de passagem, me graduei com louvor.
Hoje é o primeiro dia do pra valer, e minha primeira tarefa está marcada para daqui a pouco. Tenho outras, logo a seguir, que vão acontecer no mesmo ritmo ao qual me acostumei nas simulações.
Não estou ansiosa, porque não é de meu temperamento. Mas certa inquietação começa a tomar conta de mim. São apenas alguns pensamentos mal formados, mas é como se minhas algumas idéias minhas conversassem com outras, confrontando-se.
- Por que fazer sempre o mesmo?
- Rotina, pura rotina...
- Por que colher, colher, colher e nunca plantar, proteger, recuperar?
- Porque sua mão é pesada e na ceifa não é preciso ter delicadezas.
- Por que os outros vão poder descansar e eu nunca vou poder parar?
- As ervas daninhas, os parasitas, as geadas e a seca são rápidos na destruição.
- Mas por que com tanta trabalheira a minha paga vai ser menor que a dos semeadores?
- Eles dão, você tira...
Cansei de ter e não ter razão nesta conversa tola! Eu não quero colher e pronto, está decidido!
Resta-me apenas uma coisa indigesta a resolver: se conto para o Mestre, ou deixo que Ele descubra sozinho, que ninguém nunca vai morrer...

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