domingo, 8 de fevereiro de 2009

Uma história comum

Internet - Google Imagem





Esse frio úmido está comendo os meus ossos! Preciso consertar logo o aquecedor para parar de usar tanto a lareira... Mas que bobagem estou dizendo? Quando a memória alcança o presente, pensar bobagens nos distrai da inquietação. É como um mar em calmaria. E, no entanto, as calmarias sempre antecipam os temporais.
− O senhor quer que eu acenda a lareira agora? - me pergunta a mocinha de uniforme.
− Não, agora não! - respondo impaciente pela interrupção dos devaneios.
Às 5 horas tenho um encontro com Angélica. Vamos tentar uma partilha amigável de bens, mas, com certeza, haverá ferimentos de batalha. Na verdade, o que eu quero mesmo é vê-la. Sempre me encanta absorver a figura sensual de Angélica. É discreta, mas insinuante, cabelos lisos, escovados, olhos sem máscaras. A boca rosada se deve mais ao hábito de morder os lábios do que a qualquer carmim.
Quando a vi pela primeira vez, ela não reparou em mim, e minha virilidade acostumada ao reconhecimento ressentiu-se. O par de olhos risonhos estava entretido com outra coisa, outra pessoa: um transeunte, uma vitrine, não importa. Eu cruzava a rua quando me deparei com ela, parada na calçada oposta.
− Está perdida? Posso ajudar?
Que idiotice essa abordagem adolescente! Um ato impensado, sem propósito.
− Não, obrigada.
Desnecessário ser despachado assim!
− Mas eu gostaria de tomar um café e estou na dúvida sobre qual deles é o melhor. Você sugere algum em especial? - disse ela, casual.
Relaxei o maxilar travado instantes atrás pelo embaraço e me virei para avaliar a fileira de mesas espalhadas aqui e ali nos vários cafés daquela rua.
− O Café Suisse - respondi sem pensar.
− É bom mesmo?
− Ótimo. O schümli deles é perfeito. Servem também os italianos, o irlandês, o escocês...
Schümli? - a risada combinava com a boca, e aquela boca ria de mim! − Eles servem também o Affogato, o Chanoniz, o Imperial?
Então era isso, ela debochava de mim sem nenhuma reserva. Melhor partir antes que o desastre fosse completo!
Mas não aconteceu assim.
Acabamos nos sentando para um café e consumimos horas de boa conversa. Nos dias e meses que se seguiram, nossos caminhos foram se entrelaçando ao longo de jantares, vinhos, filmes, livros e carinhos.
Não sei depois de quanto tempo fomos morar juntos. As mulheres têm esse dom de guardar datas. Eu, por exemplo, conto apenas com uma boa agenda. Não foi difícil sequer me acostumar com Angélica. Se, pela manhã, as roupas dela estavam espalhadas no banheiro ou no closet, à noite não restava vestígio de nada. Se o cheiro de chocolate do meu cachimbo impregnava o ambiente, era eu quem corria a abrir as janelas da saleta para renovar o ar. Hoje, um almoço de massas leves, regado a um bom Chianti. Amanhã, uma carne rubra incandescente, cortejada por um Bourgogne relaxante.
Angélica pecava apenas por manifestar os sintomas das mulheres que amam: estava sempre em busca de beijos românticos e seu corpo não se saciava somente com o puro prazer, mas exigia palavras, diálogos, humores adequados.
Os homens não se aproximam muito do amor; são atraídos quase sempre pelos atributos da carne. Depois, às vezes, se encantam um pouco mais além. E se a coisa vai mais adiante ainda − e este "se" e o "adiante" preferem manter-se em distância prudente! − só então se permitem gostar. Amor é descuido.
Eu não queria prescindir de Angélica. Ela fazia parte da minha vida, eu estava acostumado com ela, gostava dela. Então, para fugir à possibilidade de descuidar-me, como ela, passei a concentrar meus dias em hábitos antigos.
− A que horas você chega hoje?
− Não me espere. Hoje é dia do pôquer com o pessoal.
Tinha também os drinques com o pessoal do escritório.
− Vai chegar tarde?
− Não sei ainda, melhor você dormir - e tarde era sempre a opção da noitada.
Em casa, programas de televisão, música, livros. As mesmas perguntas; as mesmas respostas. Então, aconteceu aquela noite de terça-feira em que o jogo da semana foi desmarcado. Que tédio! Ir para casa seria o mais lógico, mas quebrar rotinas seria um perigo impertinente. Uma vez aberta a exceção, Angélica poderia se achar no direito de me pedir para não ir outras noites, ou quem sabe iniciar aquelas lamúrias que as mulheres exercitam com maestria. Sentei-me num bar de calçada, meio perdido.
− Um Glenffidich, por favor, em copo longo. Pode trazer a garrafa e um balde de gelo. Uma água sem gás também.
Ambiente e bebida não combinavam nem um pouco, mas o garçom me pareceu feliz com o pedido. Alguns casais caminhavam rua acima, ou rua abaixo, sem pressa. A agitação do local era pouca, mas havia harmonia naqueles rostos.
Reconheci Angélica pelos cabelos lisos. Ou teria sido pelas mordidas nos lábios que há tanto tempo eu não via? Não houve sobressalto em vê-la ali. Na verdade, eu nunca tinha me questionado onde estaria Angélica nas minhas noites de jogatina. Nem nunca perguntei a ela. Eu apenas me senti... desapontado, como se o controle das coisas me escapasse um tanto. Não me inquietou ao menos olhar para o homem que se sentava à sua frente, do outro lado da rua, naquele restaurante à meia-luz. Só me senti curioso. E foi assim até que as mãos daquele homem se apossaram das dela; e as mãos de Angélica permaneceram nas dele, aconchegadas.
Depois de muito tempo me levantei daquela mesa. A névoa dos meus olhos fazia da embriaguez a única companheira da noite, e foi ela que carregou para casa o que restava da minha lucidez. Havia agora dois homens dentro de mim, e ambos me corrompiam: um queria ferir; o outro, chorar.
Tudo me pareceu tão longe até em casa. E se Angélica ainda não estivesse lá? Há quanto tempo os dois estavam tendo um caso? “Vagabunda”, pensei. Vou sacudir aquele corpo devasso e gritar nos seus ouvidos palavras infames!
A porta do quarto estava entreaberta e eu senti o perfume de Angélica no nosso banheiro. Ela estava lá, refletida no espelho, limpando o rosto como fazia todas as noites. Álcool, ciúme e estupidez se combinaram em violência e eu cravei as mãos nos seus ombros.
− Quem era aquele homem? Diga logo, vagabunda!
Esperei que ela negasse. Desejei mesmo que negasse. Eu quis vê-la tremer, esperei que me pedisse perdão, que tivesse medo de mim, que chorasse em meus braços! Mas não aconteceu assim.
− Aquele é um homem que me ama - respondeu, insensível.
"E eu por acaso não te amo?", quis gritar a minha boca perplexa. Mas minha voz se acabrunhou subitamente diante de mim mesmo. De que amor eu falaria a ela? Do amor descuidado que não me permitia saber como tê-la ao meu lado? Do desprezo que eu sentia pelas suas emoções? Dos dias de solidão que lhe imputei conscientemente?
Não houve gritos, choros, discussões, acusações. Apenas um desespero intenso que me envolveu em angústia, medo e solidão. E antes que eu pudesse recompor palavras, uma boca rosada me disse:
− Eu vou embora hoje mesmo. Não vou mais voltar. Depois a gente conversa sobre o que for preciso.
Enquanto eu ardia por dentro em sensações desencontradas, ela se foi assim, em três frases. Adormeci pensando em absurdos, consumido por imagens de uma fêmea que se contorcia em dar prazer a outro homem, e ria da minha dor.
Faltam 20 minutos para o nosso encontro. Tenho pouco tempo, portanto, para repassar o que quero dizer. Quero lhe provar que faço qualquer coisa por ela. Quero convencê-la de que é possível cultivar o sentimento. Quero que não me deixe, que não me deixe nunca!
Então, vejo-a entrar. E ao fitar aqueles olhos sem máscaras percebo que nada ali se trata do que eu quero. Nenhum passado a resgatar naqueles olhos vazios. Ela já partiu de mim faz muito tempo.
O frio e a umidade estão entranhados nos meus ossos. Preciso voltar e acender a lareira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário