quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A Viagem (primeiro arcano de um tarô pessoal) - Marco Antunes


Autor Convidado

Marco Antunes é professor de Literatura, escritor e ator. É Coordenador do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados, onde ministra diversos cursos e oficinas, e organiza saraus temáticos muito concorridos, onde literatura e música se associam.

Na Rádio Senado, conduz semanalmente o programa Prosa e Verso e é idealizador dos sites Literatura de Câmara e Literaturas e Língua Portuguesa (veja nos Links).

Realiza, anualmente, o Desafio de Escritores da Câmara dos Deputados, aberto ao público em geral.

O autor tem diversos contos escritos e a partir de telas do artista brasiliense Lelo escreveu a obra “A Romaria”, composta de 51 sonetos em três capítulos -
http://aromaria.sites.uol.com.br/

Sua obra poética será integrada por 22 Arcanos de um Tarô Pessoal, dos quais cinco já são conhecidos.

Este é o Primeiro Arcano.
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Este é um tempo de passagem,
de vasilhames descartáveis,
de assentos temporários,
de instantâneos de paisagem,
de sensações fugazes,
de breves estações
e de homens passageiros.
Este é um tempo
de dormentes paralelos
e entroncamentos de caminhos,
do trilho de ferro
em diálogo com as curvas
embora reto.
Tempo de viagem
e do destino que vem nos buscar nos braços.
Este é um tempo
de passagem.
Tempo de habitar o trajeto,
por sobre vagas esperanças
no destino ao fim dos trilhos,
fundadas em abstrato bilhete de papel
adquirido em algum transcendental guichê
para aquém das memórias desta longa estrada.
A dizer toda a verdade não sabemos aonde vamos,
nem por quê...
Fazer o desconhecido percurso é a viagem e a esperança em seu invisível propósito,
o motivo pelo qual seguimos passageiros,
confiando num maquinista que nunca vimos
e na existência perene da estradaque não se pode conferir.
Este é um tempo só tempo
na essencialidade da passagem,
sem a circunstância desnecessária
de ponteiros e dígitos para a delação
e contagem do metro vencido de seu curso
sobre os infinitos dormentes estendidos
pelos insondáveis relevos do nada.
Este é um tempo de vasilhames descartáveis,
e de almas embaladas para viagem.
Tempo de fast food,
de satisfação e enjôo
tempo de acumular dejetos...
A garrafa de água mineral,
este corpo e seus desejos,
o trem que nos transporta,
o planeta que percorremos
e o universo que se expande...
Todos um dia amontoados
inexoravelmente
na vala comum do lixo da viagem.
Nossos corpos, continentes provisórios,
sem posição e descanso,
sofrem a monotonia do sacolejar sem fim,
ansiosos por um leito macio e perfumado...
sempre ao fim, sempre além desta viagem.
Este é um tempo
de assentos temporários
e bate-papos ligeiros
ao companheirismo do acaso
Não nos escolhemos a nós:
calhamos neste trânsito lado a lado
e nada nos une além da viagem.
Outros nos gostaríamos
que não esses importunos que somos,
por isso toleramo-nos com má vontade e desprezo:
cheira mal a pele estrangeira do vizinho,
fala muito e alto essa matrona da frente,
é antipático e pedante o rapaz de trás...
Tomara todos cheguem logo aos seus destinos!
Viajamos cada qual sua solidão
falando línguas diversas e intraduzíveis
(ainda que operadas sob os mesmos signos).
Quando nos tocamos é com repulsa
e muda censura pela indesejável presença mútua.
Dormimos, fingimos dormir ou fechamos os olhos
à procura de um sonho que transcenda este vagão.
Este é um tempo
de instantâneos de paisagens
na velocidade externa das coisas
de impossível fixação ou memória!
Vejo cidades, casas, janelas, homens
gado, pastos, montanhas, cordilheiras...
e tudo inexoravelmente passa depois que passo.
Sonho ficar em tudo o que vejo
na falsa paz que têm as coisas
quando não nos detemos nelas.
Sonho que cada estação é meu destino
e desembarco para sempre em toda gare
assumindo entusiasmado suas hipóteses,
mas o trem parte sempre e eu, com ele.
Aos poucos, cada paisagem
vai ficando como todas as paisagens
e o tédio de ver o já visto reveste tudo...
Sinto-me exausto e não quero ficar em mais nada.
Quero ser, então, apenas mais um que vai no comboio,
que não deixa rastros na paisagem,
que apenas passa veloz e desfigurado na janela de um trem.
Este é um tempo
de sensações fugazes...
Assim, como amar e ser amado
se tudo é viagem e todos passageiros?
Seria preciso redefinir o amor e o amante
Ou achar ,entre tantos e tantos que passam , e sempre passam,
alguém que ficasse depois de rasgada a passagem.
Este é um tempo
de breves estações!
Viver honestamente a viagem
e apreciar seu percurso sem dominá-lo,
ter fé na chegada para além de todas as curvas,
dividir feliz o espaço estreito do corredor,
confiar nesse desconhecido ao lado a ponto de amá-lo,
viajar sem presságios nos braços de ferro do destino e dormir...
sem sonhos,
sem medo,
sem hesitar nos cruzamentos,
sem pressa de chegar...
Ah! impossível equilíbrio!
Paz inviável no sacolejar infinito
Em que a regra é descarrilar!

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