terça-feira, 3 de março de 2009

Amor de impossibilidades

O melhor amor é o de impossibilidades.
Despudorado,
guloso,
egoísta,
inconivente.
É paixão o nome disso? Tem certeza?
Quem foi que lhe disse que tem bula o amor?
Que se danem as etiquetas!

Eu conjugo amor como me apraz;
você, como lhe ensinaram!
Eu amo desesperadamente.
Tu amas elegantemente.
Ele ama angustiadamente.
Nós? Ardentemente.
Vós, comportadamente.
Eles...bom...
Eles não são da nossa conta!

A gente combinou assim desde começo.
Difícil é lembrar quando foi o começo...
Foi quando a gente enganchou os olhos no meio da rua
e desapareceu com a cena?
Ou foi quando adivinhei,
antes de você,
o que a sua voz diria em meus ouvidos?
De qualquer forma,
combinamos que ninguém se metia no verbo do outro.
Nosso acordo foi só sobre o tempo: presente.

Comi um pedaço do seu lábio no primeiro beijo.
Você não decidia me beijar com a boca,
e o cheiro dos seus beijos reprimidos me pediu socorro.
Então, fui até lá provocar aquele medo todo,
mas aconteceu que a sua decisão se deu na mesma hora.
Beijo de sangue mordido.

Sexo na primeira ou na segunda vez?
Não sei.
Foi alguma vez.
Foi na boa vez.
Com cheiro de suor sem banho
e êxtases desencontrados,
na cama dura do seu apartamento.
Combinou com o colchão vagabundo o nosso sexo sem ensaio.
Minhas costas doeram uma semana.
Pensei em você uma semana.

Depois de uns dias, paramos de contar os dias.
A folhinha dizia apenas:
“Ocupados, vivendo”.
Nosso clímax se comprometeu em chegar junto,
mas não tinha obrigação de acontecer.
Banho, cama dura, brincadeiras idiotas,
frugalidades.

Sexo resolvido,
começou a sobrar tempo para a gente se amar.
Amar, conhecer, perguntar.
Eu? Trabalho muito.
Você? Viaja muito.
Eu não estou. Você já foi.
Eu entrego. Você recolhe.
Eu sei onde está. Você procura.
Nós...?
Nós amamos.
Simples assim.

Simples demais.

Uma escala de tom acima é o que somos agora.
“Eu trabalho muito! Você viaja todo mês!”.
Eu conheci a barganha.
Você se acertou com a mentira.

E estamos os dois aqui na sua cama dura.
Sendo três com a solidão que nos confronta.
Sendo um só com a solidão que nos rompe do outro.

Você viaja demais porque eu trabalho demais...
Eu trabalho demais porque você se ausenta demais...
Não é simples demais.
Nem é simples assim.

Estamos ausentes na sua cama dura,
longe do meu trabalho, das suas viagens.

Vamos fazer sexo.
E depois vamos fazer vazio.

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