quarta-feira, 18 de março de 2009

O tapete que nos aguarda

Nos melhores filmes de Dom Corleone, a vingança sempre foi o maior e o pior combustível que os mafiosos usavam em suas matanças insensíveis. Se um atacava o "empreendimento" do outro, esse outro mandava arrasar o negócio do desafeto. E quando o filho de alguém morria do lado de cá, a ‘"amília" se unia para derrubar também um filho do outro lado.

Além da vingança — dirigida mais aos parentes de sangue —, suborno e corrupção envolviam juízes e políticos como alvos prioritários, para que, uma vez cativos nas mãos dos gângsteres, devessem favores especiais a esta ou àquela geração de mafiosos.

Isso era a máfia. Ou pelo menos a máfia dos filmes, onde os telespectadores se dividiam entre fechar os olhos nas cenas mais sangrentas e os ouvidos na hora dos sons violentos das armas, e até torciam por um ou outro mocinho que ainda restasse em meio ao caos.

Neste ponto do meu pobre folhetim, volto à realidade. E olho para a cúpula côncava e branca do Senado Federal.

Leio, no noticiário de hoje, que após o ataque à filha de um, foi atacada agora a filha do outro. Um está no poder. O outro queria o poder. Um espreita. O outro ataca.

Por um momento, a nação se sente tentada a acreditar que, finalmente, verá moralidade. A quantidade de roupa suja que se lava, a demissão de 131 diretores, de uma só canetada, tudo leva a crer que o Senado Federal voltará a ser aquela Câmara Alta de grande decência e respeito que o País chegou a conhecer em outros tempos, quando ser um Senador da República era sinônimo de inteligência e dignidade.

A Fundação Getúlio Vargas, ilibada em sua reputação, será chamada para reestruturar a Casa e colocar nos cargos agora vagos os servidores que o merecerem por talento e preparo.

Você acredita? Eu não.

Acredito na Fundação Getúlio Vargas. Acredito nos servidores que gastam dinheiro, tempo e neurônios estudando para melhorar os seus currículos, ou que executam as suas tarefas corretamente, na ilusão de que uma Gestão de Pessoas ou uma Gestão por Competências justa vá conduzi-los, enfim, ao lugar que merecem. Acredito nos que sabem trabalhar em grupo pelo bem maior. E acredito que gente decente não tem medo de fundação nenhuma.

Mas é só nisso que acredito.

Talvez eu tentasse um pouco mais de crença se essa onda toda tivesse começado em algum fiapo de moralidade, ou numa dignidade resgatada, ou numa honradez revelada. Mas começou por vingança. Como faziam os mafiosos dos filmes de Dom Corleone.

E não importa se é a compra de uma casa de milhões, ou se é um celular corporativo que vai passear no México. Minha mãe me ensinou que um lápis ou uma cédula, igualmente, não me pertencem se não forem meus. E me ensinou também que não dá para varrer o pó para debaixo do tapete. Continua a ser lixo.

Deus nos livre do tapete que nos aguarda!

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