domingo, 1 de março de 2009

Ressaca de Carnaval em Brasília

A semana do Carnaval se encerra, graças a Deus, e somente hoje, domingo, me sinto mais animada para o que começa amanhã: o ano propriamente dito. Estou de ressaca. Nenhuma que contenha teor alcoólico, nem estômago embrulhando, ou sequer entorpecimento. Estou de ressaca de uma semana inteira de inatividade.

Não que eu ache o Carnaval uma porcaria, ou uma perda de tempo. Eu já pulei muitos carnavais - sem perder um baile ou desfile - e sei que o que sinto agora é apenas um cansaço natural em relação àquilo que já tive demais.

Mas ouço minha filha, tão jovem, dizer que “Carnaval bom é em Salvador” (ao qual ela nunca foi), ou “em cidades pequenas, como Diamantina”, onde ela passou o Carnaval do ano passado. E isso me incomoda.

De imediato, penso que talvez seja Brasília a causa do desânimo da mocinha, mas logo em seguida me arrependo dessa reflexão leviana. A coisa vai bem além.

Numa tentativa de conversa, pergunto a ela se hoje não se usam mais fantasias. “Fantasia não tem nada a ver, mãe”, me responde como se eu fosse um dinossauro. Mas antes que eu lhe pergunte o que é o Carnaval sem fantasia, me lembro que aos 19 anos quase tudo é “mico”.

Lembro também que minha filha nasceu aqui, em Brasília, nesta cidade administrativa que ainda está longe de ter o seu perfil cultural firmado. Sem Carnaval, sem Bumba meu Boi, sem Cavalhada, sem Oktoberfest, sem São João.

Brasília tem sossego, espaço, oportunidades e um céu de tirar o fôlego. Mas cultura própria? Ainda não. Mentira, dirão os que pensam que estou falando mal de Brasília. Não, não é mentira. Amo tanto esta cidade que me sinto infinitamente triste com as realidades que ainda não fomos capazes de solidificar aqui. Cultura é uma delas.

Produzimos ótimos nomes para o celeiro musical e teatral brasileiro, mas todos vão embora tão logo a TV do plim-plim os reconheça e consuma. Voltam apenas para um show, um espetáculo, ou para ver a família. Brasília traz cultura (elitizada e cara), consome cultura (elitizada e cara), mas quase não produz e quase não reproduz cultura para gente jovem.

Minha menina mesmo prefere um Carnaval em Salvador, porque “não tem perigo dentro das cordas do bloco”, ou em Diamantina, onde “todo o mundo se conhece”. Pobre Salvador, sem Igreja do Bonfim, sem Elevador Lacerda, sem a riqueza colonial do Pelô! Triste Diamantina, onde Juscelino Kubitschek e Chica da Silva são simples personagens de filme ou seriado de TV.

Preciso correr contra o tempo que só me alertou agora.

Preciso ensinar à minha filha que Carnaval é mais que cordas seguras, rostos conhecidos, beijo, amasso e fantasia.

Carnaval é cultura. Viajar é cultura. Brasil é cultura.

Sem isso, Brasília não terá uma chance.

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