quarta-feira, 18 de março de 2009

Sorvete de pistache

Numa dessas séries de TV americanas, passada na Califórnia, alguém aparece tomando sorvete de pistache, meu predileto. E ao invés de viajar até lá, deixo a cabeça fazer o percurso até Caxambu, balneário das águas onde passei praticamente todas as férias de minha infância e adolescência.

Não existia sorvete de pistache melhor do que o de lá. Tanto que nem me lembro do nome da sorveteria, que ficava na rua do C.R.A.C – Centro Recreativo Atlético Caxambuense - e do Hotel Marques. Mas me lembro que era frequentada por famílias e por jovens que estavam começando namoricos de verão. Os namoricos começavam à noite, na boate do Glória ou do Palace, e continuavam no dia seguinte, até que as férias terminassem. E mesmo que o Xodó fosse o point mais badalado da cidade, ninguém vendia um sorvete de pistache como a sorveteria da rua do C.R.A.C.

Minha geração não usava a expressão ‘ficar’. A gente até podia beijar na boca um dia só, ou dois, mas se chamava namoro, embora, no fundo, tudo me pareça hoje a mesma coisa. E em Caxambu as coisas sempre davam certo no terreno dos namoros. Pelo menos para mim.

Quantos beijos eu dei com a boca gelada de pistache! Não daqueles do tipo “desentupidor de pia”, mas beijos gostosos, sem pressa, que prometiam de dia o que cumpririam à noite. Ou não. Naqueles dias, eu acreditava que tudo podia durar para sempre. Pelo menos até o próximo verão.

Mas mesmo quando eu estava sozinha, não podia faltar o sorvete de pistache. O creme verde claro vinha na casquinha, que eu também comia no final. E enquanto ia comendo, via o movimento dos carros, charretes, cavalos e bicicletas. Caxambu tinha tudo isso.

Minha mãe nasceu na região, em Baependi, e minha tia morava em Caxambu, o que me permitia ser diferente dos outros. Eu não era veranista; era a filha da minha mãe, a sobrinha do fulano, a prima da sicrana. Andava pelas ruas a qualquer hora; e conhecia todo o mundo.

Quando voltava para Brasília, enchia a boca para as amigas e contava que tinha ido à boate todas as noites, o que provocava inveja e despeito na maioria delas que, ainda menores, como eu, não podiam entrar em casas noturnas. Demorei um bocado para falar a verdade e explicar que, em Caxambu, as boates eram familiares e que, na maioria das vezes, os pais e tios estavam por perto, sentados em mesas próximas ou vigiando da porta. A do Palace mesmo foi criada para que a filha dos donos do hotel pudesse se divertir ‘em casa’.

Se minhas primas e eu nos aproximávamos de alguém que não servia, em questão de minutos aparecia meu padrinho para nos fazer companhia, alertado pelos garçons, ou por algum policial à paisana amigo dele que sempre estava no meio da molecada. Boate era isso. Caxambu era isso.

E a gente ia dormir às 2 da manhã no máximo, porque depois disso "não era horário de moça". Pela manhã, piscina do parque, passeio a cavalo. E, à tarde... sorvete de pistache!

E pensar que tanta lembrança começou na Califórnia, hein?

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