sábado, 7 de março de 2009

Vício de amor

Foto: rascunho de "O Guardador de Rebanhos" (trecho de poema) - Fernando Pessoa sob o heterônimo de Alberto Caeiro - Documento disponível no portal da Biblioteca Nacional de Portugal-BNP na Internet — http://purl.pt/1000. - BNP Esp. E3/145

Pelas palavras me transporto a um lugar onde ninguém me toca. E quando dedos e cabeça são tomados pela comichão das palavras, a alma nunca se recusa à entrega.

Esqueço os compromissos de sábado, como a ida ao salão para escova e unhas. Adio a compra de roupas que preciso para o trabalho e o supermercado que (ainda bem!) fica aberto a noite toda.

A coisa do escrever é vício sem sequelas. Se marcas ficam, são como pequenas mordidas de amor: intensas, aprazíveis. E nesse vício mergulho sem pressa com as horas.

Hoje, porém, estou mais para pensar sobre o escrever.

Terça-feira última, foi o lançamento do recém-amigo Roberto Klotz, Pepino e farofa, que terminei de ler ontem à noite. Aconselho as despretensiosas crônicas para quem gostar de dar risadas e para quem precisa saber que a leveza de uma vida otimista pode ser conquista pelo exercício da vontade.

No barzinho onde foi o lançamento, me sento à mesa com amigos. Entre eles, a poetisa Isolda Marinho; seu filho, o intenso jovem Gabriel, que já vai para o seu segundo livro; Olívia, uma acreana bairrista, doce e verdadeira; e três escritoras que foram juradas do último Desafio de Escritores do qual tomei parte: Alexandra Rodrigues(1), Liana Ferreira, e Luci Afonso(2) – que gentilmente incluiu em seu blog um link para o meu.

Entre vinhos, chopes e pepino com farofa, Alexandra dispara uma pergunta em sua voz harmoniosa e educada: “Como é o seu processo de criação?”.

Explico uma coisa aqui, outra ali, mas ainda não acerto no que ela quer saber. Até que, finalmente, lhe digo que costumo colocar o celular ao meu lado na cama, à noite, e se alguma ideia ou fragmento me vem à cabeça, antes de dormir, gravo tudo lá e transporto para o papel no dia seguinte. Esqueço de dizer que, às vezes, no meio da rua, busco com avidez uma agenda ou um pedaço de papel qualquer que me permita anotar pensamentos. Em outras ocasiões, corro para o computador e escrevo logo o que me vem à cabeça, deixando para arrumar mais tarde o emaranhado de palavras ou itens.

Mas uma coisa é certa: já não consigo viver sem fazer cócegas no papel.

É um vício de amor.
(1) Alexandra Rodrigues é autora de "O Nome das Coisas" e "Minha Avó botou um Ovo" - Thesaurus.
(2) Luci Afonso é autora de "Velhota, eu?" - Thesaurus.

2 comentários:

  1. sim, cada um te seu processo. o engraçado é que para a maioria, a criação é dolorosa, sendo que fazemos algo por prazer.
    no final, é igual sexo selvagem. hehehe. dá uma dorzinha, mas a recompensa é enorme.

    beijocas

    ResponderExcluir
  2. Olivia Maia24/3/09 12:39

    Ha ha! Achei! mais um lugarzinho gostoso para vim visitar. Legal menina, o Blog (os escritos nem vou falar ... sou tiete de carteirinha). Acreana bairrista, é? deixa que vou te levar a passear nas florestas frondosas, comer peixes assados na beira dos rios, tomar banho (de preferência pelada) nas águas escuras dos igarapés... rssss... beijos

    ResponderExcluir