domingo, 19 de abril de 2009

Brasília em dias de Altamont



Autor Convidado


Gabriel Marinho é brasiliense, ariano e tem 19 anos. Estudante de jornalismo, adquiriu o gosto pela leitura ainda pequeno e, hoje, já contabiliza dezenas de livros lidos. Clarice Lispector, Machado de Assis, George Orwell, Aldous Huxley, Mario Vargas Llosa, Truman Capote, Isabel Allende e Gabriel Garcia Marques são os seus escritores preferidos.

Descobriu que gostava de escrever quando cursava o ensino médio, produzindo textos para o jornalzinho do colégio. A maturidade das redações, aliada à riqueza do seu vocabulário e a uma grande habilidade com as palavras chamaram a atenção dos professores, que o incentivaram a escrever cada vez mais, tornando-se um hábito a redação de crônicas e a composição de romances.

Gabriel tem dois romances escritos e atualmente está trabalhando no terceiro. O primeiro deles, O mundo depois do fim, foi aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura – FAC da Secretaria de Cultura do Distrito Federal e será lançado em breve.

Só isto já faria de Gabriel o jovem único que ele é. Mas preciso dizer ainda da intensidade do seu olhar, da atenção que presta ao mundo ao seu redor, da paciência que tem com os mais velhos, da sua percepção imparcial dos perfis humanos e da sensibilidade que cultiva como verdadeiro homem que é, adiante do seu tempo. Sem que ele saiba ainda, as angústias que sente neste mundo tão pobre de compreensão estão pavimentando o seu caminho até um futuro de realizações ilimitadas.

Gabriel é uma pérola.

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Brasília em dias de Altamont


Nunca vi um músico que não tenha uma recordação boa ou ruim de um dos incontáveis shows de sua carreira. Como fã, tive o privilégio (ou não, depende do ponto de vista do leitor) de testemunhar um desses momentos.

Com 12 anos, o interesse pelo bom e velho rock’n’roll me levou a uma busca aprofundada sobre fatos e ocorrências históricas na trajetória dos baluartes dessa vertente musical. Na época, não existia internet. No colégio, nossa principal fonte de pesquisa era a boa e velha enciclopédia Barsa e para os fãs do estilo que tinham um inglês fluente eram as revistas Melody Maker e New Musical Express, que eu comprava em uma banca de revistas na 103 sul. Cresci lendo páginas e páginas dos últimos fatos e acontecimentos no meio da música.

Uma matéria em especial me instigou. Falava de um festival em um autódromo abandonado na cidade de Altamont Springs, nos Estados Unidos. Nele, a gangue de motociclistas Hell´s Angels foi contratada para cuidar da segurança. Em troca de uns trocados e muita cerveja, a trupe de homens barbados e troncudos promoveu uma exibição de violência gratuita e desnecessária antes, durante e depois do evento. Fiquei abismado. Tive a oportunidade de assistir ao documentário alguns anos depois. Presenciei imagens em movimento de toda a selvageria. Durante o show dos Rolling Stones, Mick Jagger interrompia as músicas e as conversas com a platéia apenas para dar bronca nos funcionários temporários, que não ouviam seu apelo e prosseguiam com a barbárie. Saldo final: quatro mortos.

Nunca esperei, em momento algum, ir para um show e encontrar algo parecido com o que li em pouco mais de duas páginas e meia. Mas aconteceu, bem quando eu não esperava.

Morei em Brasília de 1987 a 1998. Saí de uma cidade já desenvolvida para um lugar desconhecido – principalmente em sua arquitetura. Até hoje, quando visito parentes e amigos que ainda residem lá, percebo que, mesmo crescendo, a capital federal continua preservando um ar interiorano. A falta do que fazer, na época, era muito maior. Era – aliás, ainda é – costume passar horas conversando embaixo dos blocos, andar entre as quadras e frequentar clubes.
Foi quando um grupo de amigos da “Colina” (grupo de prédios residenciais próximo à Universidade de Brasília) encontrou uma maneira de quebrar o clima modorrento e seco do planalto central: fazer música. A semente plantada resultou em vários frutos e Brasília se transformou na capital do rock. Uma das bandas, em especial, atingiu um status invejável e amealhou um séquito fervoroso de fãs: Legião Urbana. Não que os demais sejam inferiores, mas a horda de Renato Russo e seus apóstolos conseguiu exemplificar perfeitamente em forma de música o sentimento de ser jovem crescendo em um país confuso, porém adorável, que é o nosso Brasil.

Desde 1985, ano do lançamento do primeiro registro, uma mítica em torno da banda foi criada. A Legião era querida em sua cidade natal tanto quanto os Beatles em Liverpool e o fanatismo em torno de Renato chegava a ser tão doentio a ponto de guardarem uma guimba de cigarro em um saco plástico, dizendo que o próprio tinha fumado.

Em 1988, a Legião estava no auge; já tinha três álbuns gravados e lotava ginásios País afora. Depois de um ano e meio de ausência, os filhos pródigos retornam ao seu lar para um único show no estádio Mané Garrincha. Todos – sem exceção – não paravam de falar nessa apresentação, seja nas escolas, faculdades e escritórios. Comprei o meu ingresso com duas semanas de antecedência pelo singelo preço de 500 cruzados, para ficar na pista, e fiquei contando os dias para o que, futuramente, seria conhecido como “show do caos”.

Esse dia chegou, era 18 de junho. Fui ao estádio em um ônibus fretado pelos meus colegas do colégio Objetivo. Dentro dele, uma festa regada a muito vinho barato e embalada por uma fita cassete do álbum Dois dava indícios de que o show seria tão excitante quanto. Apenas dava.

Chegando ao local, já se podiam observar as faíscas da confusão, que mais tarde seria transformada em um incêndio. Em contraste com o luminoso do ginásio Nilson Nelson – que dizia “Bem-vindos de volta a Brasília, jovens da Legião Urbana” -, adolescentes exaltados eram repreendidos pela polícia das mais variadas maneiras. A falta de organização era visível na única entrada/saída para a pista, onde os agentes da lei tentavam formar uma fila de mais de 30.000 pessoas na base da intimidação – seja exibindo seus cassetetes ou jogando seus cavalos contra o público. Fui um dos primeiros a passar pela catraca, desgrudando-me do meu grupo, e corri em busca de um local onde assistiria ao show em um bom ângulo. Nesse quesito, saí melhor do que esperava, pois fiquei colado à grade, em frente ao pedestal do microfone de Renato. Todos que passavam pelas roletas faziam à mesma coisa: corriam loucamente em direção ao “altar” para ver o sacerdote da “Religião Urbana” o mais perto possível.

Reencontrei-me com a minha esposa – na época, melhor amiga – meia hora depois do horário programado para o início do show. Seu cabelo cheirava a cerveja e suava em bicas. Ela me contou que chegou até onde eu estava na base do empurra-empurra e que a organização tinha liberado as catracas. Quem tinha ingresso, entrava; quem não tinha, também...

Uma hora se passou e as luzes do estádio permaneciam acesas. Em todos os cantos, pipocavam brigas entre a platéia e a segurança; copos de cerveja vazios eram arremessados em direção ao palco e um coquetel molotov estourou a uns 20 metros de distância de onde eu estava, provocando mais confusão.

Enfim, as luzes foram se apagando progressivamente, o que surtiu um êxtase coletivo. Fui esmagado contra a grade, na mesma hora em que a massa de seguranças a empurrava contra meu peito e milhares de copos plásticos eram atirados – alguns deles me atingiram. Grande parte da multidão clamava pelo nome da banda, enquanto uma pequena parcela ao meu lado brigava entre si pelo espaço.
Dado Villa-Lobos sobe com o palco ainda às escuras e tira algumas notas de sua guitarra, provocando mais histeria, mas nada comparado a quando a estrela principal apareceu, banhada pelo clarão de um spot acima de sua cabeça, vestindo um suéter verde em cima de uma camisa social branca e calça de cetim preta, barba espessa e óculos de armação fina, nos desejando boa noite.

- Tudo em cima? Nós vamos nos divertir? Legal! – disse Renato, entre gritos da platéia.

Terminada a frase, a banda solta os primeiros acordes da faixa título do último álbum, fazendo todos – inclusive eu – pularem com as mãos ao alto, já emendando o tradicional É a porra do Brasil quando Renato cantava o refrão. Depois de brincar com seus teclados – colocados na extremidade esquerda do palco – a intensidade da música diminuiu o “semideus” voltou para o pedestal, apenas para iniciar mais um de seus monólogos:

- Nós estamos no céu! – Renato leva as mãos ao alto e a platéia vibra – Lá também há meras formalidades. Os anjinhos que vêm para a terra recebem um cartãozinho dizendo o lugar aonde eles vão descer. O primeiro anjinho recebe o seu cartão e fala: “Beleza, vou para o México”. O segundo anjinho recebe o seu e diz: “Tá legal, vou para a Tchecoslováquia”. De repente, deus percebe um anjinho chorando, sentado em um canto. Deus chega para esse anjinho, pergunta o que está acontecendo e ele responde: “Pro Brasil não! Pro Brasil não!”.

Novamente, todos vibraram e a música prosseguiu, com Renato emendando “quem quer manter a ordem/ quem quer criar desordem” e “deitado eternamente em berço esplendido, só que o berço esplêndido é feito de plástico barato” na letra, com sua empolgação típica.
Renato reaparece empunhando um violão. A próxima canção teve uma dedicatória especial:

- Essa aqui é para todas as meninas que ficam no telefone até tarde e a mãe reclama: “Tá pensando que isso aqui é Telebrasília, minha filha? Saia do telefone!”. “Mas mãe, eu estou falando com o Robertinho!”

Tratava-se de Eu sei. Depois dessa, nunca mais a ouvi da mesma maneira. Bons tempos em que eu e minha esposa passávamos horas fofocando, para o desespero dos nossos pais – que tinham que arcar com uma conta astronômica no final do mês.
A música seguinte, Quase sem querer, foi dedicada ao Apollo e ao pessoal da 308 norte. O clima de festa no palco não era totalmente correspondido na platéia. As brigas entre o público e a segurança persistiam e objetos continuavam a ser atirados contra os artistas – não atingindo nenhum.

Ao termino da música, Renato tira o suéter e pergunta:

- Quem é que usa drogas aqui?

Quase todos falaram “eu”; levantaram a mão ou apontaram para o próprio peito. Ao perceber a comoção, foi irônico:

- Esse show esta sendo filmado pela polícia federal. Quem levantou o dedo vai dançar!

Iniciou-se Conexão Amazônica, uma das mais intensas do ultimo disco. Sua levada tribal fez meu coração palpitar em ritmo de bate-estaca, principalmente quando cantava “Yeah, Yeah, Yeah”. Como de costume, Renato fazia sua dança idiossincrática entre as partes instrumentais. Novamente, o ritmo da música diminui, dando a entender que mais um monólogo seria dito. Ouvimos uma história vivenciada por ele:

- Aqui em Brasília, eu conheci uma galera que se chamava “clube da criança junkie”. Eles começaram cedo, com 13 anos estavam cheirando cola! Com 14, continuavam a cheirar cola. Eles também cheiravam benzina, limpa tipo e loló. Com 15, descobriram a maconha. Com 16, começaram a beber pesado. Com 17, cheiraram a primeira fileira. Com 18, tomaram ácido!

As três ultimas frases foram cantaroladas, enquanto Dado tocava no intervalo entre uma e outra. “E o que aconteceu com eles?”, perguntava. Eis a resposta:

- Com 19, metade deles teve o primeiro colapso nervoso! – mais uma vez, a platéia urra. Renato prossegue com a história – Um morreu, dois pararam, três passaram no vestibular e se casaram... Mas teve um que não morreu! Ele ficou assim, ó.

Renato simula uma convulsão, balançando o tronco, a cabeça e os braços nervosamente enquanto gemia ao microfone. Quando estava prestes a dizer que esse sujeito não pode vir ao show, um maluco surgiu da penumbra atrás do palco, atravessou-o rapidamente e montou nas costas de Renato, agarrando-o pelo pescoço. Marcelo e Dado observaram a cena assustados, enquanto o agredido tentava se livrar do agressor com golpes de microfone. Cinco seguranças invadiram o palco e retiraram o elemento a força, levando-o para a mesma extremidade de onde tinha saído. O invasor recebeu um gesto de escárnio da estrela principal, que ainda falou em tom zombeteiro:

- Eu disse que Brasília era uma cidade estranha.

A “normalidade” do show foi retomada. Prosseguiu cantando três músicas incidentais - entre elas, (I can´t get no) Satisfaction, dos Rolling Stones – e comentou o quão legal era observar as pessoas no gargalo “se matando”.

Renato disse que a próxima música falava sobre a escola. Tratava-se de O Reggae, do primeiro álbum. Fez um breve comentário sobre um fato recente:

- Aquele carinha que subiu aqui no palco devia ter algum problema no colégio.

A Dança e Daniel na cova dos leões mantiveram a animação nas alturas. Essa euforia, somada aos litros de substâncias etílicas consumidas resultaram em mais brigas e empurrões. Olhando para o “sacerdote”, percebi que ele sabia que algo não estava certo, mas fingia ignorar. Isto é, até chegar a música mais conturbada da noite: Ainda é cedo.

O ritmo lento da mesma não acalmou os ânimos. Renato cantou a primeira parte e voltou a brincar com os seus teclados, até notar algo que lhe incomodou. Viu uma confusão do meu lado esquerdo da platéia. Parou imediatamente com o que fazia, tirou o microfone do pedestal, atravessou as caixas de retorno e, com o dedo em riste, reclamou:

- Para agora, solta ele! Solta ele! Solta!Tu levas um microfone na cabeça, mermão, solta ele! Não tem que dar porrada não! Que história é essa de mão na cara?

Apenas quem estava lá perto sabia do que ele estava reclamando. Subindo na grade, pude ver o porquê: assim como em Altamont, a segurança abusava da violência contra uma pessoa.

- Mão na cara é sacanagem! Tem que segurar numa boa, mas eu te vi dando a mão na cara! Sacanagem! – continuou.

Todos vibraram com as últimas falas de uma maneira incomum, mostrando um aparente estranhamento. Ele deu meia volta e, irritado, desabafou:

- É por isso que a gente só vem aqui de ano e meio em ano e meio. Não dá para se divertir!

Com duas frases, Renato mexeu violentamente com o brio de uma audiência mais do que agitada. Logo ele, que sempre admirei por ter o dom de usar as palavras certas nas horas certas.

A música prosseguiu mas, a partir daí, o show não seria o mesmo. Os ânimos esfriaram quase totalmente. Muitos falavam mal. “Quem ele pensa que é?”, indagava uma garota ao meu lado. O ex-trovador solitário continuou sussurrando ao microfone, crente que, após o sermão, as coisas se desenrolariam sem empecilhos. Ledo engano. Um infeliz joga uma bomba do tipo “cabeção” no palco, que explode ao lado de Renato. Mais uma vez, ele foi taxativo:

- Da próxima vez que isso acontecer, as luzes acendem e nós vamos embora. Aqui tem segurança o suficiente para meter porrada em todo mundo, entenderam?

A música é encerrada abruptamente. Pensei ser essa a gota que faria o copo transbordar. Mais irritado que antes, Renato toma uma decisão polêmica:

- Só por causa disso, nós vamos pular as três próximas músicas.

“O quê?”, “Que isso?”, “Que porra é essa?”, foram as palavras que surgiram na platéia depois dessa fala. Um grupo de meninas soltou um estridente e prolongado “não!”. Claro que, se eu fosse o artista, detestaria que jogassem coisas em mim enquanto estivesse tocando, principalmente uma bomba! Mas eu nunca pensaria em decepcionar a todos por causa de um ou dois idiotas. Renato, que Deus o tenha, não compreendia muito bem o valor dessa frase. Anos depois, na cidade de Santos, o próprio passaria mais de uma hora deitado no palco por causa de uma lata de cerveja atirada em Bonfá – esse show, por sinal, seria o último da história da banda.

Renato, ao ver a reação da platéia, pede cumplicidade:

- Então vocês falem para quem está jogando coisas para dar uma geral. Se ele estiver do seu lado, dê um esporro. Eu não tenho nada a ver com isso. Quem foi o babaca que tacou? Quem tava do lado viu! Por isso, dê esporro!

Todos ficaram mais agitados. Ele olha fixamente para o lugar onde eu estava e fala como se estivesse dirigindo a uma só pessoa:

- Qual é? Não quer atingir a maioridade não? Vai ficar sempre nessa merda? Nós já estamos com a vida feita! Estamos numa boa! Trabalhamos duro e conseguimos chegar aqui! Agora, quem fica tacando bombinha em Legião Urbana, mermão, dança! Você quer estar muito sozinho!

O público ficou dividido. Muitos apoiaram a sua postura, outros repudiavam, mas praticamente todos estavam incertos quanto ao futuro desse show. Renato ainda zomba:

- Eu sei qual é a desse cara, os amigos deles riem nas costas dele! E ele vive batendo punheta sozinho em casa porque não consegue mulher! E o que é que ele faz? Vem tacar coisa em show! Que pobreza!

Faroeste Caboclo, a música seguinte, não embalou como se esperava. As desventuras de João de Santo Cristo não foram cantadas por todos que sabiam as mais de 100 estrofes de cor e salteado. A divisão persistia. Uns ignoravam o que Renato tinha falado, outros continuavam sentidos. Eu estava num paradoxo. Cantava tudo junto, sim, mas alimentava uma raiva imensa daquele homem.

Tempo perdido foi anunciada de forma seca, assim como foi sua execução e o ânimo da platéia. A música seguinte, Será, foi apresentada em um tom melancólico:

- Agora vamos tocar uma música muito importante para nós. Ela diz muito sobre o que acreditamos. Ela fala também sobre o que acontece hoje em dia. De repente paramos e vemos que tem certas coisas sobre as quais não adianta fazer absolutamente nada, entenderam?! Se o barco está afundando, vamos todos afundar juntos! Sinto muito, mas esta é para todos nós.

Era impressão minha ou ele estava nos dando uma indireta sobre o que viria a seguir?

Após essa música, os quatro músicos deixam o palco, que fica às escuras. Todos pensaram ser a hora do “bis”. Muitos voltaram a clamar pela banda, mas os gritos não duraram muito. As confusões, persistentes durante todo o espetáculo, triplicaram após o último banho de água fria da noite: as luzes voltaram a se acender, ou seja, o show tinha acabado.

Não satisfeito, o público perdeu a lucidez. Uma vaia ecoou em uníssono; bombas explodiam de todas as partes; garrafas e copos eram atirados de todos os lados. Pedi para que um segurança deixasse eu e minha esposa passarmos para o outro lado. Graças a Deus, ele permitiu. De lá, acompanhamos o tumulto: policiais abusavam da violência contra os “desagregadores da ordem”, enquanto grupos de pessoas corriam sem rumo, se desviando dos artefatos perigosos que não paravam de chover. E a banda, será que eles sabiam de tudo isso? Ou estavam ignorando e partindo de volta para as suas “vidas feitas” no Rio de Janeiro como se nada tivesse acontecido?

Tive coragem de deixar o local apenas meia hora depois. Do lado de fora do estádio, a confusão continuava, embora em uma intensidade menor. Um agrupamento de ambulâncias dava atendimento aos feridos. Encontrei o ônibus que nos levou já cheio, com parte da lataria amassada e alguns vidros quebrados. Fui um dos últimos a entrar. A exaltação agora era contra a banda. A fita cassete de Dois, que embalara a viagem de ida, foi pisoteada e jogada pela janela do veículo em movimento; outro amigo meu, que levava consigo um vinil do primeiro disco, partiu-o ao meio. Todos firmaram um pacto: ficar pelo menos dez anos sem ouvir Legião Urbana. Eu e a grande maioria aguentamos pouco mais de quatro semanas, até por que percebemos que Renato não estava totalmente equivocado ao adotar aquela postura.

No dia seguinte, passei em frente à 303 sul – quadra onde os familiares de Renato residiam – e lá vi as inscrições “Fora Legião” e “Legião, não volte mais” pichadas no muro de um posto de gasolina na entrada. Dias após, ele próprio declarou no programa Fantástico:

- Eu acredito que existe uma maldade muito grande por parte de certas pessoas do público que saem de casa e entram no estádio com bombas para atacar o artista. Tudo que fizemos foi nos defender e colocar a nossa opinião. Nós sempre colocamos o que nós pensamos. Subiram nas minhas costas tentaram me estrangular "Renato, você vai morrer". Foi horrível, gente. Vocês não imaginam o efeito psicológico de uma bomba no palco, você fica olhando pra aquele negócio brilhando sabendo que aquele troço vai explodir. As pessoas já saíram de casa pensando em agressão. Nós apenas colocamos a nossa opinião e eu não desminto nada do que eu falei.

Tempos depois, no Correio Braziliense, uma matéria na parte de cultura afirmava no título: “Legião Urbana não tocará mais em Brasília”. Nem me atrevi a ler o resto. Acreditava piamente ser apenas um descuido, um surto temporário por parte de Renato. Não era possível ficar eternamente magoado com aquele incidente! Um homem culto e inteligente como ele era superaria muito bem essa dificuldade.

Eu, crente que uma hora tudo isso passaria, esperei por uma nova oportunidade. Veio As Quatro Estações e... nada. Depois veio o V (cinco) e... novamente nada. Chegou O descobrimento do Brasil e, para variar, nada de Brasília! Então vieram o The Stonewall celebration concert, Equilíbrio distante (álbuns solo), A Tempestade (Legião) e... o baque de sua doença e a morte prematura, no dia 11 de outubro de 1996. E lá se foram minhas expectativas...

Assim como em Altamont, esse concerto transformou-se em um capítulo a parte da história da música. Podemos notar uma clara diferença na Legião antes e depois desse show polêmico. A partir do álbum As Quatro Estações (lançado no ano seguinte dessa apresentação), a sonoridade ficou mais refinada, por inúmeras vezes flertando com estilos que passam bem longe do rock moderno que consagrou a banda. As turnês deixaram de ser extensas, limitando-se aos grandes centros. As letras – com exceção de Perfeição - perderam o cunho político e Renato passou a investir basicamente em suas aflições, inseguranças e sentimentos como tema de suas músicas. A postura da banda nos shows também sofreu modificações. A saída do Negretti – por desavenças musicais – transformou-a em um trio; Renato passou a gravar o baixo no estúdio e, ao vivo, um músico contratado tocava escondido. A impressão que eu tenho é que, a partir desse período, o palco começou a ficar vago. O bom e velho sacerdote ainda preservava seus infalíveis dotes de frontman, mas, estranhamente, ele ficou um tanto quanto comedido, tanto nos gestos quanto nos discursos.

E Brasília? A cidade jamais voltou a receber mais de 50.000 pessoas para o show de uma única banda de rock; a segurança nos eventos duplicou e ela já não é mais tão agressiva quanto antigamente.

Pois é, hoje vejo meu filho de 12 anos babando aos pés das bandas que rolam na MTV. Coitado, nunca presenciou uma com potencial para se tornar porta voz de uma geração. Resta torcer para que essa fase passe rápido e que, um dia, possa compartilhar algo sobre os bons tempos que dificilmente vão voltar. Já o imagino falando: “Pai, você ficou sabendo daquele show da Legião em Brasília em que rolou o maior quebra-pau?”.

- Sim, filho, eu estive lá...

Um comentário:

  1. Olivia Maia21/4/09 22:12

    Moço: A Cíntia é tão genorosa nas palavras de apresentação do autor que começei a ler... sentindo - "Gabriel é uma pérola"... confesso que antes do término já sentia - Gabriel é puro OURO. Você não vai longe... você já está longe...Lindo texto... adorei...
    Abraço

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