domingo, 5 de abril de 2009

Gente grande... jamais

Autora Convidada
Olívia Maia

Certo dia, num dia qualquer, desejei ser gente grande. Eu era, ainda, bem pequenininha quando tudo aconteceu.
Peguei o primeiro batom que encontrei. Era vermelho, encarnado. O deslizar nos lábios já me fez sentir um pouco maior. Lábios das mulheres “grandes” são assim – bem vermelhos, bem encarnados, com os dentes sempre à mostra.
Escolhi uma roupa, a mais extravagante aos meus olhos: blusa rendada, muitos babados. Saia estampada de flores miúdas. Achei que combinava com um par de brincos dourados. Senti que fiquei um pouco maior.
Joguei os cabelos para um lado e para o outro, fazendo com que ficassem bem armados... Sensuais... Como dizem as mulheres. Não me esqueci de fazer umas “pintinhas” charmosas ao lado dos lábios.
Escolhi os sapatos – de veludo, altos, bicos finos, com lacinhos de strass. Senti que fiquei ainda maior, literalmente maior.
Saí a caminhar. Procurei percorrer o caminho traçado, caminho de gente grande. Logo escorreguei e caí. Imediatamente, duas lágrimas escorreram pelo meu rosto. Levantei e me recompus. Gente grande é assim – não cai e não chora – se eu quisesse realmente ser gente grande, ainda teria muito que aprender. Lembrei! Tenho que andar firme e apressada – gente grande é assim, tá sempre apressada.
Quando tentei nova investida, meus pés diminuíram naqueles imensos sapatos. Percebi que um dos lacinhos tinha se desprendido e ficado no meio do caminho. Pensei em voltar para pegá-lo, mas lembrei – gente grande deixa coisas importantes para trás. Continuei a caminhada.
Mal resolvi o impasse de deixar ou resgatar o lacinho, tropecei um pé no outro. Não mais duas lágrimas jorraram dos meus olhos... Eram várias. Senti que estavam pesadas. Uma escorreu até minha boca. Tive vontade de prová-la; lembrei – gente grande não tem tempo de provar lágrimas. Meus joelhos doíam. Minha cintura já não tinha o requebrado inicial. Mulher grande se requebra pra lá e pra cá.
Estou inteira. Não caio. Não junto laços, não provo lágrimas. E num esforço enorme, caminhei, rodei, dancei, balancei os cabelos, requebrei as ‘cadeiras’, juntei os lacinhos e colei-os pacientemente ao sapato. Parei frente ao espelho da sala.
Que figura horrível. Lembrei-me da amiga de academia da minha mãe. Aqueles olhos puxados parecendo olhos de vidro. As bochechas parecendo dois tomates inchados e vermelhos. E a boca... a minha boca estava igualzinha à dela, uma mistura de coração com flor murcha.
O batom começara a desbotar, a sumir. E com ele o meu desejo de ser gente grande.
(novembro/2005)

2 comentários:

  1. Tancredo Maia Filho6/4/09 20:55

    Cinthia, conheço a Olívia desde quando ela ainda não era gente grande e desde então tenho a maior admiração por ela e não é só porque ela é minha irmã. Cada dia seus textos estão melhores principalemnte agora que está apaixonada. Gostei de seu blog e, além do mais você ser prima das meninas do 306 do Bloco E, onde morei com meu tio Mário nos idos de 60.

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  2. você tomou a resolução de manter o seu lado criança e não se render totalmente à "adultificação", vc levou essa resolução bem à serio! é admiriável a sua alegria, a sua jovialidade... o seu espírito inquieto.

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