domingo, 5 de abril de 2009

Lembranças de Cheiros

Autora Convidada
Olívia Maia

Estou em dúvida se o que tenho para relatar é com H. Não sei bem se é uma estória ou história. Mas deixemos a semântica de lado. Se for estória ou história, alguns leitores irão identificar, outros não... O que certamente não fará muita diferença.
Sinto o cheiro de óleo de peroba e lembro-me do Natal. Perguntará alguém: Natal? O que tem a ver peroba com Natal? Não seria cheiro de peru, galinha, pato, marreco, porco? - indagarão outros. Explico.
A casa em que nasci era de madeira e avarandada. Situava-se na Avenida Brasil, perto da Praça do Quartel, onde em um coreto a banda de música, composta pelos homens da tropa da Guarda Territorial do Acre, tocava aos domingos após a missa.
Na semana que antecedia o Natal minha mãe começava os preparativos para o grande dia. E o início era a limpeza da casa. Sim, mas todas as casas são limpas e arrumadas, principalmente para festejos. O que tem de diferente? É que as outras ou não tinham “perna manca” ou não eram enceradas com óleo de peroba como a minha.
Minha casa, como muitas outras da rua, tinha uns travejamentos de peças de madeiras, que nunca entendi muito bem por que eram chamadas de “perna manca” (não sei se a escrita da palavra é junta ou separada, com hífen ou sem hífen... Agora recorro à desculpa de que ainda não assimilei a mudança ortográfica).
E lá estava minha mãe, com um balde de água, limpando tudo... E depois vinha a parte que mais me chamava a atenção. Ela pacientemente pegava um pano e ficava lustrando as ripas, travejamentos ou perna manca com óleo de peroba. Passava várias e várias camadas, até que o brilho aparecesse.
Na véspera do Natal, enquanto ela incrementava e adiantava a ceia assando peru, leitão e bolos, intercalava os afazeres com mais uma mãozinha de óleo de peroba.
Chegava o grande dia. Os encostos das cadeiras vestidos com paninhos de linho, impecavelmente passados na goma. A toalha de mesa, guardada durante todo o ano apenas para aquela ocasião. Tudo pronto. Sentávamos à mesa, meus pais, eu e meus cinco irmãos. Olhos arregalados esperando as guloseimas. De repente, a entrada triunfal da sua majestade o Peru, decorado com jambos, carambolas, cajás e... Ah! O cheiro de peroba no ar. Era Natal. Papai Noel vinha nos visitar e certamente ele adorava cheiro de óleo de peroba.
Fecho os olhos, depois de quase cinqüenta anos, e sinto a lembrança do cheiro... peroba... emoção... cheiro... peroba... saudade...

Um comentário:

  1. é maravilhoso ...já que todo mundo tem lembranças fortes relativas a cheiros, vi um natal tão diferente do meu, tão rico, tão interessante. Nunca imaginaria espontaneamente um peru de natal decorado com jambos, carambolas e cajás! Conhecendo um pouco do seu natal, me senti tão condicionada a viver a cultura do "outro", consumindo frutas secas, nozes e avelãs, tão tipicamente não-tropicais

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