domingo, 5 de abril de 2009

A Mercadora de sorrisos




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Eu moro naquela casa de esquina, aquela com portão branco e janelas cor de framboesa. Moro ali faz tantos anos que já não consigo me lembrar com certeza se nasci na casa ou se me mudei para lá bem pequena. Antes, éramos meu pai, minha mãe, meus três irmãos e eu. Mas os ventos da vida foram espalhando cada filho para longe e quando meus pais fecharam os olhos apenas eu decidi ficar na casa. Nunca me casei. Nem perdi tempo me perguntando se deixei de me unir a alguém por falta de vontade ou pela falta de tempo que a profissão impõe.
Sou uma Mercadora de Sorrisos e vivo para entregar ou devolver a cada ser vivente o sorriso que precisa ou deseja, que perdeu ou nunca teve.
A coisa é simples. Vamos supor que você tenha perdido, ao longo da vida, o sorriso confiante que tinha nos lábios 15, 20 anos atrás. Ou mesmo que você seja ainda jovem, até mesmo criança, mas jamais tenha tido a posse de um sorriso, nem um pequeno, de meia-boca. Então, você me procura, nós negociamos e eu lhe forneço um sorriso.
Quanto cobro? Bem, aí a coisa é um pouco diferente. Eu não cobro em dinheiro. Para uma Mercadora de Sorrisos o pagamento se dá em combinados. Isso mesmo, combinados. De cada pessoa a quem entrego o sorriso almejado, recebo, em troca, um combinado.
Existem outros mercadores por aí, se você quiser procurar. Mas afirmo, de saída, que estou entre os melhores.
Sobre o meu ofício é preciso dizer que é difícil, porque sorrir é mais que gesto e intenção. É preciso ter entranhas, compaixão, amor-próprio para poder sorrir. Humor e emoção são necessários também, em doses certas, para não virar destempero.
Por isso mesmo é que alguns, pensando em me enganar, contam histórias, fazem tratos que depois não cumprem. Resultado: em vez de sorrisos, o que lhes resta são esgares grotescos, aberrações que assustam e afastam as pessoas.
Um bom sorriso é feito de atração, senão não conta.
Logo de início, tive uma rebeldia que custei a largar. “Se são feitos para encantar pessoas, para que tantos tipos diferentes de sorrisos?” - me perguntava. Decidi, então, por conta própria, que o justo seria entregar apenas sorrisos alegres. Pensei que comigo a coisa ia ser assim... Mas não existe nada que os anos não ensinem a enxergar.
Pouco depois dos 40 anos, conheci Maria Lívia. Ela me procurou numa manhã incomum de segunda-feira, quando a beleza do céu e o cheiro entranhado do mar que bordejava a rua atrás de minha casa lembravam mais um feriado que um dia de trabalho. Quando Maria Lívia bateu o pequeno sino ao lado do portão, uma comichão me alertou para o inusitado.
No percurso entre a porta de casa e a visitante, divisei uma moça bonita, sem vaidades, simples. Olhos: tristes. Boca: triste. Mãos: impressionantemente tristes. Era uma moça triste. Eu estava acostumada aos infelizes, aos desafortunados, aos abandonados e a todas as formas de sofrimento de que era capaz um ser humano, mas nunca tinha me deparado com aquela tristeza pura, sem alarde, em sua forma calada e envergonhada de assentar-se numa vida. A tristeza sem proporções de Maria Lívia me atingiu sem permitir proteção.
− Bom dia. A senhora é a mercadora?
− Sou.
− Meu nome é Maria Lívia e eu vim aqui para negociar um sorriso.
Pensei comigo que, talvez, precisasse mais de um.
− Vamos entrando.
Olhando o seu jeito de andar, não percebi insegurança ou remorso por estar ali. Estranhamente, não era dessas criaturas debilitadas pela vida. Tinha viço no olhar, força nas mãos e no semblante melancólico.
− Que tipo de sorriso deseja?
− Um sorriso triste.
− ... Lamento...só negocio sorrisos alegres.
− Por quê?
− Porque acredito que os sorrisos foram feitos para atrair coisas boas.
− Essa é a regra? - perguntou ela com firmeza.
Finalmente, uma confrontação! Não, essa não era nem é a regra. Não me é permitido escolher pelas pessoas. Meu ofício é negociar. Simplesmente.
− Que tal um sorriso radiante? - contrapus levianamente, sem responder à sua pergunta.
Em silêncio, Maria Lívia me fez ver que esperava mais de mim.
− Como o seu jeito é comedido, que tal um sorriso educado? - insisti.
Levantando-se com calma, disse, enquanto se dirigia à porta:
− Desculpe. Disseram que a senhora era a melhor. Até logo.
Um desafio, realmente. Eu me esquivava de gente assim há muito tempo, ora induzindo o solicitante a outro tipo de pedido, ora despachando o interessado sem atendimento. Mas Maria Lívia não era dessas que eu pudesse descartar, manipular, persuadir.
− Sente-se. Eu tenho o que você deseja - disse eu, seca.
Olhamos uma para a outra como dois bichos que se assuntam e, enquanto eu quebrava a minha própria regra, ela voltava ao sofá com altivez.
− Antes do combinado, umas perguntas - arrisquei.
− Faça.
− Por que um sorriso triste? Por que afastar as pessoas ao invés de trazê-las a você?
− Quem lhe disse isso?
Além de me desafiar, também me questionava! Permanecemos as duas em argumentação por mais alguns instantes, até que Maria Lívia disse uma coisa que me chamou a atenção.
− Existem lugares onde um sorriso radiante é uma afronta.
− Onde?
− Onde a morte passeia todos os dias para levar alguém embora.
− Onde? - insisti.
− Num hospital, em meio a doentes terminais. Lá, um sorriso de felicidade pode ser uma afronta, um jeito de lembrar a cada moribundo a vida que não pode mais ter. Ao contrário, um sorriso triste consola, é cúmplice; uma forma respeitosa de acompanhar o inevitável.
Maria Lívia era médica. Tratava pacientes terminais. Uma mulher forte, segura, triste. Foi depois dela que mudei.
Conheci, semanas depois, o muçulmano Ghassan, que ansiava por um sorriso frio, que lhe desse forças para enfrentar um ambiente de trabalho xenofóbico. E, depois, Gisela, que implorava um sorriso mecânico para enfrentar 10 horas por dia atrás do balcão de uma loja de subúrbio. Xavier queria um sorriso educado para ser aceito por todos. Aparecida me chegou pedindo um sorriso irônico para esconder o medo que tinha do mundo. De todos os pedidos, o mais leve foi o da jovem Ruth, cujo único desejo era um sorriso malicioso que lhe permitisse atrair os olhares dos rapazes de sua idade.
Todos retornaram em algum momento para trocar seus sorrisos por outros melhores. Só Maria Lívia nunca mais voltou. Mas tenho certeza de que nos veremos novamente.
Combinamos que ela cuidará de mim quando chegar o meu tempo de partir. Cuidará de mim com seu sorriso respeitoso e triste.

Um comentário:

  1. Lindo demais! Eu viajo longe nas suas linhas.
    Parabéns, minha amiga. Vc é muito boa nisso!

    Patrícia Goulart

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