domingo, 5 de abril de 2009

Não quero minha alma embrutecida


Autora Convidada

Olívia Maia
é escritora e uma acreana poderosa. Faz tempo que eu não via alguém que consegue amar tanto o seu torrão natal. Quando fala do Acre, ela se transporta e deixa em nós uma vontade de conhecer rios, de comer peixe, de colher mais as riquezas deste Brasil tão grande.
É, como eu disse, uma mulher poderosa. Consegue ser mãe, avó, irmã, amante...e tudo isso sem descuidar da alegria. Conversar com ela é sentir de perto o que é a vontade pela vida. E ela dança, e recita, e escreve, e curte o Carnaval, e ainda tem tempo para distribuir palavras gentis ao seu redor.
Eu a conheci no 1º Desafio de Escritores do Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados. Depois, encontrei com ela em saraus, num chope amigo, nas aulas de Marco Antunes. Seu estilo é carinhoso, generoso. Ela fala das coisas simples, dos sentimentos mais bonitos, das lembranças de todos nós.
Olívia é um achado, acreditem!

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Acordei como se estivesse saindo de um sonho. Meu corpo encaixado ao dele, côncavo como se fora uma pérola sendo guardada e protegida. Pele com pele. Pele com amor. Nada nos separando – nem uma roupa, nem um lençol, nem um pensamento. Abri os olhos e senti uma mão delicada roçando mansamente meu corpo, e uma voz que murmurava em meu ouvido – "Minha poesia, quanta delicadeza existe em ti".
Despertei olhando em seus olhos. Despertei para o mundo... Despertei para o amor... Despertei para a ânsia de viver cada minuto como se fosse o último. Despertei para o meu desejo de manter a sensibilidade que move minha vida e meu coração. Que me mantém com uma “casca fininha”.
Isso me fez lembrar uma ocasião em que líamos, no grupo de literatura da Câmara dos Deputados, a crônica da Marina Colassanti – Eu Sei, mas, não devia.
- O que você achou dessa crônica? - perguntou-me alguém.

Algumas frases ainda ecoavam em meus ouvidos: “Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia... A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer... A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele... Se acostuma para evitar ferida, sangramentos...” Disfarcei o susto de ter que responder a uma pergunta para a qual não tinha resposta.
- Não costumo achar muita coisa quando me sinto “chacoalhada” - respondi sob o olhar incrédulo de alguns que aguardavam uma resposta à altura do grupo.

E continuei:
- Essa crônica consegue me chacoalhar da cabeça aos pés... A gente acostuma... A gente acostuma... A gente acostuma... A gente acostuma. Faz-me contato com o meu medo de me acostumar. De engrossar “minha casca”, minha pele.
Não, não acordei embrutecida nem “acostumada”. Algo mudara naquela doce realidade que me parecia um sonho. Acordei com um sentimento profundo de gratidão ante uma acolhida poética e delicada. Gratidão por estar partilhando meu corpo e meu amor com um homem que sabe sussurrar palavras que mantêm a “maciez da pele do meu Eu mulher”. Gratidão pela oportunidade de ter lido aquele texto que tanto me chacoalhou.

(novembro/2008)

2 comentários:

  1. Patricia Coube6/4/09 12:03

    Querida Olívia,

    Estão lindas as crônicas, agora eu é que fiquei chacoalhada com tanta beleza, delicadeza, paixão.... Lindo D+.
    Beijo grande
    Pati Coube

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  2. amei mesmo. me identifiquei com o tom melancólico .... Às vezes tenho um estalo assim tb, alguma coisa q me tira do transe do dia-a-dia, pelo menos uns tempos, e começo a perceber cada folha das copas das árvores, e não só a massa verde sobre os troncos.

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