domingo, 12 de abril de 2009

Sem mais solidões


Meu estômago está embrulhando de novo. É isso toda dia. Quando chego à porta do hospital, lá vem essa náusea ininterrupta. Eu preciso aprender a me controlar melhor, ou Maria Clara ainda vai perceber o esforço que faço para vir vê-la todos os dias e encontrar seus olhos mortiços.
Faz tanto tempo que havia luz nesses olhos. As mãos de Maria Clara eram macias e mornas, como as mãos de mamãe. A sua voz me fazia virar para ouvi-la até mesmo quando falava banalidades. E os vários sorrisos que me entregava sem nenhum custo afastavam de mim os temores de criança e, mais tarde, as inseguranças juvenis. Hoje, ela se reduz a uma sombra trêmula, pálida, a um som de poucos decibéis.
- Bom dia – falo baixinho para não assustá-la.
Nenhuma resposta. Melhor deixá-la entregue um pouco mais ao mundo sem dor do sono. Eu mesma preciso descansar um pouco. Não que eu esteja reclamando desse ir e vir, mas o estômago continua me avisando que não suporta conviver com o quase espectro de Maria Clara. A minha entrada diária no hospital não disputa horário com nenhum outro visitante. Ninguém mais vem aqui respirar a tristeza de um corpo que definha. Hoje, estou um pouco cansada da correria entre casa, trabalho e hospital, e nem mesmo este sofá tão duro vai me impedir de um cochilo.
O peão entrou na roda, ó peão, o peão entrou na roda...
- Maria Regina, ô Maria Regina, cadê você? – escuto uma voz inconfundível.
Mamãe está aqui, me chamando. Como é que ela fez para voltar? Será que Deus permite esse passeio fortuito das almas?
- Ela já vai, mamãe – responde, em meu lugar, Maria Clara.
Mas o que é isso? Maria Clara está tão viçosa, tão jovem. Como é que eu não me lembro dela assim? Quando foi que ela se recuperou daquela doença maldita?
- Eu chamei a sua irmã. Onde é que ela está? O almoço já está na mesa e ela não pode se atrasar para o colégio! – ralha minha mãe.
- Ela já vai. Só um minutinho, mamãe! Eu chamo pra senhora. Maria Regina! Maria Regina!
- O que foi? O que foi, Maria Clara?
-Você estava sonhando?
Não estou mais. Olhando essa criatura cheia de tubos e remédios, enfraquecida no leito, meu sonho fica grotesco.
- Você estava chamando a mamãe, Maria Regina.
- Estava? Engraçado. Eu não me lembro com o que é que estava sonhando – minto para não emocioná-la com as minhas lembranças.
Maria Clara merece essa redoma de proteção que dediquei a ela depois da doença. Preciso poupá-la, em nome das renúncias que ela me entregou. Em criança, sempre me defendeu das broncas, das palmadas. Comia escondido os legumes que sobravam do meu prato, consertava as pernas e braços das bonecas que eu arrancava toda hora, e me contava histórias de reis e princesas na hora de dormir.
Nós fomos uma família de três. Meu pai morreu cedo demais, de uma aorta entupida, e minha mãe se viu sozinha com uma menina de 10 anos e um bebê temporão. A diferença de idade entre nós só serviu para fazer Maria Clara refém da minha pequena tirania. Enquanto mamãe trabalhava fora até a lua aparecer, ela me levava e me buscava no colégio, orientava a mulher contratada para fazer os serviços de casa e ainda achava ânimo para transformar o restante do meu dia num conto de fadas. Só bem depois nos anos eu pude perceber que mamãe permitiu à minha vida o que roubou da de Maria Clara: felicidade. Mas nunca houve uma queixa. Só aquele sorriso magnífico me esperando ao fim de cada peraltice, ao fim de cada erro.
A solidão, no entanto, não poupou nenhuma de nós. Mamãe vincou cedo o rosto amargo, transformou-se em fruto ácido e desistiu da vida por volta dos meus 15 anos. Maria Clara abnegou qualquer prazer e prosseguiu sendo a minha mãe-menina. E eu me tornei uma mulher abastecida de egoísmo inumano, me lambuzando nos festins de sexo e embriaguez que conduziram as minhas ânsias a redondezas inultrapassáveis. Se a solidão de mamãe foi por desgosto, e a da Maria Clara por renúncia, a minha, por certo, foi por castigo. A solitude se encanta pelas almas desregradas.
Minhia irmã é o único alento que o universo ainda me concede. Sou fruto dela e a ela sempre posso retornar depois de cada tropeço, de cada culpa, como se voltasse ao ventre de Deus.
- Maria Regina? – escuto a voz terna e baixa me chamando de novo.
- O que é, minha irmã?
- Você não está escutando – ela me olha, tentando adivinhar o que me levou para tão longe.
- Desculpe, você quer alguma coisa?
- Vida, eu quero vida. Será que eu vou viver, Maria Regina, será? – soluça ela.
- Calma, calma! – é só o que consigo responder, surpresa com o rompante dessa mulher que não conheço mais.
Olho, estarrecida, minha irmã se descontrolar num pranto profundo. Primeiro, apenas soluços, depois, um lamento maior, doído, e agora esses gritos horríveis, esses punhos cerrados e esses olhos, esses olhos que me pedem palavras, que me pedem notícias, que me pedem respostas. Ela me desentoca do esconderijo de fragilidade que me conveio aos anos e me cobra, inexorável, a sua vida!
Desorientada, recorro aos meus braços sem jeito para me achegar a ela. Meu abraço não a acalma de imediato. Só depois de uns minutos inexatos é que Maria Clara solta um suspiro de exaustão e se aquieta. Nós duas sabemos que o jorro desse sangradouro era esperado. Mês após mês, entre consultas, telefonemas e expectativas, buscou-se um doador compatível. Eu nem para isso servi. Sou ainda a mesma parasita que sugou a sua vida, mas que não pode devolvê-la. A força de tantos nãos acabou minando a resistência de Maria Clara e nós nos perdemos juntas na frustração das tentativas. Então, percebo, pela primeira vez, um segredo que me esbofeteia: a força de Maria Clara está retida em minhas mãos, e o calor do meu corpo pode retardar a morte de se deitar sobre ela, como os meus acenos podem convidar um pouco de esperança a entrar neste quarto. Porque só eu, de nós duas, conheci felicidade.
Após esse dia, nos tornei mulheres de mais fé. A cada manhã, e também mais à noite, quando volto do trabalho e vou direto para o hospital, Maria Clara e eu nos concentramos em conversar coisas boas. É nossa obrigação dar risadas e dizer à leucemia que somos mais incansáveis do que ela. Se os olhos de uma vagueiam perdidos, os lábios da outra os chamam de volta com o mel de um comentário prazeroso.
Faz quase um mês que o transplante foi feito. E embora nenhum diagnóstico final tenha sido proferido, a melhora de Maria Clara é sentida por mim e pelos médicos. As células novas no seu sangue foram aconchegadas, aninhadas como tudo o mais em que ela toca. Todos os dias, ao ver que as cores da primavera voltaram ao rosto tão querido, eu não penso na cura que apenas se promete, mas nos Deus generoso que permite nos termos agora. Eu a devolvi a si mesma e encontrei a mim. Juntas, estamos aprendendo a cortejar a vida.

Um comentário:

  1. Nossa! Pensei que era eu a escrever este conto. É a minha história. Fiquei emocionada...

    Patrícia Goulart

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