quarta-feira, 20 de maio de 2009

Amigos fortes, amigos frágeis

Tenho amigos que aguentam o tranco das coisas tristes. Aguentam cenas, fotos, textos pesados, desses que ou molham os olhos, ou entalam a goela por uma semana inteira.

São amigos emocionais. Talvez, melhor dizendo, que se permitem sensibilidade.

Choramos juntos (mesmo que à distância, por meio dos computadores que enviam e recebem nossos e-mails engajados) pelos esqueléticos meninos da África, pelas crianças desvirtuadas por pedófilos desgraçados, pelos rostos enrugados e inexpressivos que perambulam invisíveis pelas grandes cidades, pelos pais e mães de bebês que mal nasceram e já possuem sobre si uma sentença de morte por doença ou fome. Por gente que perde tudo nas enchentes, por celerados que corrompem a si mesmos e ao povo, e até mesmo por cachorros abandonados e ursos mutilados na China.

Esses são os meus amigos que aguentam o tranco das coisas tristes.

Tenho também amigos que não aguentam nada. Para quem só posso enviar poesias e contos de final feliz, porque não têm estômago, nem humor, nem resistência para ler ou digerir tragédias.

São amigos encastelados, que preferem se esconder dos sentimentos em jardins onde as flores nunca murcham, em notícias à superfície da vida, em encontros divertidos onde os temas são a casa - elegante -, os filhos - perfeitos -, o marido - imprescindível. Não há, nesse grupo de amigos, nenhum que beba demais para driblar a solidão, que fume para ocupar os pensamentos, que faça dívidas para se obrigar a estar vivo para poder pagá-las, que faça sexo casual. Nenhum que dê vexame.

Mas não abro mão de nenhum deles. Nem dos realistas que choram e se consomem com as misérias do mundo, e que erram, e que explodem. Nem dos que fogem das tristezas e se escondem na perfeição para se defender da dor, do medo, da incerteza e das certezas.

Meus amigos fortes vomitam sensações, protestos, solidariedade. Meus amigos frágeis impedem a si mesmos de se partirem em pedaços.

Com os fortes conspiro, na crença estóica de que o sofrer é necessário para impedir que o ignorar prevaleça. Aos frágeis me entrego como estímulo aos que um dia se decidam a ver.

E se a comunhão com uns me satisfaz a consciência, a união com os outros me ensina a beleza do humano embrionário, sempre em desencontro.

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