sexta-feira, 8 de maio de 2009

Reconhecendo milagres

Google Imagens


Vejo na chamada para o Fantástico a cena de um andaime em São Paulo, subitamente jogado pra lá e pra cá por uma ventania assassina. No entanto, os dois homens que estavam em cima dele, milagrosamente, sobreviveram.

Automaticamente me veem à cabeça algumas datas e acontecimentos impressionantes: 10 sobreviventes no acidente aéreo de Orly, em 1973, dentre 134 passageiros; o executivo que se atrasou para entrar no World Trade Center, em 2001, porque ficou preso no trânsito e, por isso, sobreviveu; o bebê de Maceió, neste 2009, que foi arrastado do lado de fora do carro por 500m numa cadeirinha, e que só teve uns arranhões.

Milagres impressionam muito. Impressionam crentes e céticos, mesmo que eles digam que é besteira. E quando a gente ouve ou vê um milagre tão popular, um milagre tão padrão plim-plim lá vem aquela sensação de que podia acontecer com a gente. Não podia?

Ah, se eu achasse um bilhete premiado perdido na rua! Ah, se um parente distante que eu nem soubesse que existia morresse e deixasse para mim uma grande herança! Ah, se eu acordasse amanhã sem apetite e conseguisse emagrecer 40 quilos em dois meses!

Bom, mas esses são apenas os milagres do “Ah!”. Existem também os milagres do “Ai”, que são os mais doloridos, os mais sérios. Ai meu Deus, arranque de mim esta doença incurável! Ai me Deus, resolve todas as minhas dívidas!

Não acontece. A gente continua pobre, gordo, cheio de reumatismo, asma, contas pra pagar. E começa a achar que milagre é igual a prêmio de revista: todo o mundo lê que existe, mas ninguém conhece quem recebeu.

Porque não são milagres o carro que a gente comprou pra não andar de ônibus, o aluguel que a gente pode pagar, a faculdade do filho que, todo mês, religiosamente, recebe o nosso cheque, as férias que a gente não deixa de ter, mesmo na falta de grana pra ir até o Nordeste ou para o exterior.

Não são milagres o curso de línguas que a gente faz, a cervejinha que a gente consegue sentar e tomar com os amigos duas vezes por semana, a discussão livre e acalorada sobre o Mengão ou o São Paulo, a missa ou o culto que a gente frequenta porque escolheu - sem ter que matar o vizinho porque a escolha dele é diferente.

Não são milagres o cabeleireiro de toda semana, a churrascaria de domingo, a TV de plasma na sala, a comida na mesa todo dia. Aliás, todo dia não! Três vezes ao dia, no mínimo...e variada!

Não são milagres as mulheres que estudam, os conselhos que as defendem de apanhar dos machos que se dizem homens, as 45% que sustentam, sozinhas, suas famílias, as que usam a barriga de fora e pintam o rosto, sem nenhuma punição ou preconceito.

Não são milagres as flores que a gente tem variadas, as frutas que a gente tem variadas, os pratos típicos que a gente tem variados, a cor da pele e dos cabelos que a gente tem variados, e lindos!

Não são?!

Pra você, isso é apenas o peso do dia a dia? Pra você, se não der manchete de TV, não tem graça?


Então, meu amigo, minha amiga...você não está mesmo pronto para reconhecer um milagre...

E nem merece!

Um comentário:

  1. Pois é, Cínthia... Ainda há mais... Às vezes, por nosso olhar acostumado, pressa ou arrogância não percebemos que pequenas ações como enxergar, ouvir, caminhar, saborear uma fruta, dar um abraço, levantar um vaso, cantar, fazer uma conta de cabeça, escrever um verso são operações extremamente complexas e representam milagres sublimes da natureza (ou de Deus, como preferirem) e que não deveríamos jamais ignorar ou deixar de valorizar.
    Adorei seu texto! Mais uma vez!
    Beijos carinhosos, Ju.

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