sábado, 6 de junho de 2009

228 pessoas. 228 famílias



É sempre tão fácil culpar o outro. Principalmente quando a questão envolve morte, dor, responsabilidades. A tragédia aérea ocorrida com o avião da Air France que saiu do Rio de Janeiro com destino a Paris está sendo mais uma demonstração de como se despreza o essencial pelo secundário.

Durante a semana, as informações desencontradas, próprias das buscas que ocorrem durante os acidentes, evidenciaram os dois pesos e duas medidas que envolvem qualquer acontecimento entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento.

A França, que num primeiro momento parecia aguardar as buscas brasileiras com moderação, tomou atitudes levianas em relação ao Brasil, nos últimos dias. Os franceses criticaram o ministro Jobim por dar declarações excluindo as hipóteses de explosão ou incêndio como causas do acidente. Concordo. Numa hora dessas, não foi uma declaração cautelosa. Mesmo sabendo que familiares aflitos não estão preocupados com cautela, mas com notícias; qualquer uma.

Jornalistas franceses criticaram a imprecisão das informações da Aeronáutica: "Primeiro, disseram que os elementos encontrados no mar eram do avião. Depois, disseram que não eram”, reclamaram correspondentes franceses. Concordo. Na falta de certeza, melhor não dizer nada. Mesmo sabendo que quando as autoridades não dizem nada a imprensa as acusa de omissão.

Agora vamos falar um pouco da França.

Logo no primeiro momento, a imprensa francesa levantou a hipótese de terrorismo. E nem o governo brasileiro, nem os jornalistas brasileiros criticaram os franceses dizendo que era uma possibilidade mínima, ou paranóica, ou imprecisa, ou descuidada, ou leviana.

Mais recentemente, para piorar, foi aberto um processo por homicídio culposo (sem intenção de matar) da França contra o Brasil, coisa da qual eu nunca tinha ouvido falar. E eu não vi nenhum brasileiro com poder de ir à mídia, ou da própria mídia, se sentir indignado ou ofendido com um absurdo desses. Uma reação leve e defensiva parece que foi esboçada pelos meios diplomáticos, mas sem maiores alardes.

Depois disso, 24 panes foram identificadas na aeronave e foi estabelecido que houve quebra do leme.

Anteontem, a TV France 2 divulgou, sem contestação da Air France, uma mensagem automática gerada pelo AirBus330 - vôo 447, informando a quebra do leme e outros 23 problemas estruturais, detectados nos quatro minutos finais de transmissão.

Hoje, nas manchetes brasileiras, a gente leu: “Franceses dizem que é cedo para descobrir motivos dos 24 sinais de pane de Airbus”.

Cedo?!

Nós, brasileiros, somos afoitos em nossas declarações. Sejam ministeriais, militares, jornalísticas ou pessoais. Somos afoitos. E por isso mesmo precisamos voltar atrás em muitas coisas que dizemos e fazemos.

Mas que os franceses também foram afoitos em abrir um processo de homicídio culposo contra o Brasil, ah, isso foram! Aeronave francesa, tripulação francesa, leme francês.
E o jogo de empurra-empurra das culpabilidades continua. Sabe-se lá por quanto tempo e em que níveis.

Enfim, nada disso importa. Nem as culpas, nem as responsabilidades, nem as impetuosidades, nem a tentativa de superioridade do maior sobre o menor.

Importam mesmo os 228 mortos e suas famílias destroçadas.

Por eles, e para eles, meus sentimentos.

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