terça-feira, 16 de junho de 2009

As meninas do viaduto


Nem sei quantas noites faz que o farol do meu carro bate nos mesmos corpos franzinos das meninas do viaduto. Há muitos anos faço sempre este caminho para casa, todas as noites.
Vou enxergando as silhuetas magras, quase franzinas, que se destacam na imundície da calçada. Sempre juntas, como pombas em bando, seriam meninas não fosse o sexo que já carregam rompido entre as perninhas mal-feitas. Uma come um pirulito toda noite, outra aninha uma boneca no colo. Duas menorzinhas vivem abraçadas mesmo com tempo quente.
Todo ano, percebo que algumas sumiram, algumas pintaram o cabelo, outras deixaram de sorrir. Já encontrei uma delas, moça feita, disputando com um travesti o ponto numa rua de comércio. Reconheci por um defeito no braço.
Observo o cafetão que não trabalha. Sentado na grama, ao lado de uma mulher adulta, vigia disfarçadamente as meninas e, quando a polícia passa, finge ser o pai de uma família necessitada. A polícia também finge.
Do sinal fechado eu fico vendo que, de tempos em tempos, uma das mais velhas vai lá e entrega ao homem um monte de notas miúdas. Depois volta para pastorear as outras. Descobri que essa menina mais velha é poupada dos programas. Só vai se o cliente exigir. Sua obrigação é fazer com que as menores trabalhem. Faz tempo que eu percebi que o pirulito serve para amansar o choro. A rebeldia é impedida com porrada mesmo. Briga de meninas de rua: quem dá bola?
Meu carro não desperta interesse. As unhas pintadas e os requebros caricatos se assanham somente para os homens. Qualquer um. Uns meses atrás, peguei um flagrante. Só deu pra ver a mão chamando da janela do carro, balançando a ponta de uma nota de R$10,00. A menina entrou no carro bem rápido e eu não tive tempo de ver mais nada.
Semana passada, parei pra conversar com elas. Fiquei com medo do cafetão, mas segui a regra: paguei adiantado com uma nota de R$20,00. Nas minhas contas, dava pra dois programas. Depois que o dinheiro trocou de mãos, ele nem se preocupou mais em saber o que eu queria.
A regra é simples: a pequena recebe, a maiorzinha recolhe. Daí a pequena entra no carro. É tudo num piscar de olhos. O sujeito fica parado, de faróis apagados, e ninguém que passe tem coragem ou interesse de olhar lá pra dentro.
De perto, elas são ainda mais novas. Meu carro ficou cheirando a álcool barato e a uma outra coisa que não identifiquei. Talvez thinner, talvez outro solvente.
Fui avisada: “Tu não pode me apertá com força, nem batê. Pode mexer aqui em cima, ó...mas em baixo tu só pode oiá. Se eu gritá o pai vem atrás de tu, viu?”.
Não tinha mais criança ali.
De repente, meu deu uma vergonha de alguém me ver parada com aquela menina no carro. Todo o mundo sabe o que fazem os carros que param e apagam os faróis.
— Vai ficá aí me espiano, é tia? Se não andá logo o tempo acaba.
Antes do tempo acabar, meu estômago embrulhou.
A maiorzinha chegou de novo perto do carro e eu estiquei a mão pra fora com outra nota de R$20,00. Não dava pra ir embora antes de saber se ainda tinha alguma coisa inviolada na menina.
Nada. Dela só arranquei que queria crescer pra trabalhar numa boate e dançar em cima de um queijo. De biquíni prateado e bota. Queria ganhar um dinheiro só pra ela.
As meninas não chegam nem perto dos R$10,00 reais de cada programa. Ganham balinhas, bonecas baratas e uma noite de sono tardia numa cama de barraco. Isso se não for a noite de o cafetão aparecer pra conferir a mercadoria.
Quando levantei a mão para afagar o cabelo da pequena me lembrei que qualquer gesto seria mal-interpretado como uma carícia sexual. Parei a mão no ar e comecei novamente a sentir ânsia. Não tem coisa que me deixe mais impotente do que uma criança corrompida.
— Tu não é cana que eu sei...Mas tu deve ser dessas muié que quer tirá a gente da rua, né?
Quem dera! Parei no ponto delas por curiosidade. Para fingir que me importo. Para ser diferente de quem passa e vai embora.
Depois disso, me afastei do viaduto das meninas por várias semanas. Mas acabei voltando, porque continua a ser o caminho mais curto até em casa. A cada vez que o sinal fica vermelho, o cafetão se levanta e fica me encarando até eu ir embora. Não sei por quê. Eu continuo inútil.

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