terça-feira, 30 de junho de 2009

Língua? Que língua?



Ilustração: Google Imagens


Língua? Que língua? De qual língua vocês esperam que eu fale? Da que me encanta os ouvidos quando bem falada, da que me empresta as palavras para eu jorrá-las em versos?
Essa língua não me encanta mais! Verdade! Criei desilusão dos fonemas escondidos, dos sujeitos sem predicados, dos acentos que partiram ao sabor dos sábios. Não, dessa língua eu abri mão mesmo! Não posso deixá-la a vocês em herança, porque não me pertence. Eu a recebi, também, doada.
Mas se vocês me permitirem eu os convido a conhecer outra língua. Essa outra, descobri por acaso, enquanto andava por aí à toa. Por acaso foi só o nosso encontro; a adoção foi por vontade mesmo.
Aconteceu assim. Eu me esbarrava nela em todo canto, de norte a sul, como se fosse assim da vontade da vida que a gente se conhecesse mais a fundo. Primeiro, foi um sincopado tônico, seguido de um cantarolar preguiçoso e de um anasalado ácido repleto de vogais salientes. Depois, me encontrei de namoro com Ochs, Uais, Viches e Bahs, caí de amores pelos encantos importados dos agudos que substituíam circunspectos circunflexos, e acabei na cama com um dialeto esquisito que repetia um mantra emocionado: “Eita, eita, eita, eita”. E o que mais resta depois da cama do que nos apresentarmos?
- Prazer, eu sou ...
- Psiu! Tu não vai me dizer teu nome, vai? Deixe de bestagem!
E foram tantos acentos novos, tantas corruptelas engraçadas, tantos verbos despejados de seus tempos e separados das pessoas às quais antes pertenciam que, ao final de um mês, eu decidi: me mudei de malas vazias para o mundo.
Foi mais difícil do que pensei, confesso. Demorei a entender que era eu o estranho, que era eu a minoria, que era eu o pária. Até que a verdade me deflorasse por inteiro, eu me diverti na ignorância de corrigir pessoas, de ensinar conjugações, de acreditar que eu estava ali para reformar pessoas, palavras e atos.
A língua, aquela que lhes doei ainda no primeiro ou no segundo parágrafo, passou a me perseguir dia e noite, implorando para voltar. Queria recomeçar comigo uma vida a dois, sem nada que atrapalhasse nossos planos de um futuro de cultura e esplendor. Aquele grude inesperado teve efeito contrário: abri a porta e lhe pedi que não voltasse mais.
- Você vai se arrepender! Quem é você para pensar que pode viver sem mim?
Eu lhes pergunto, então: de que serve uma casa vazia se não for para dar festas? Convidei, para aquela mesma noite, uns brasileiros bem engraçados para me fazer companhia. Sem flexões, sem pausas, sem pontuações. Não tiveram tempo de conhecer a língua, aquela que eu mandei embora esbravejando. Graças a Deus!
Mas quase me esqueço que os convidei a andar comigo pela folha branca para lhes apresentar outra língua. Uma que recebe abraços calientes dos hermanos que a rodeiam, assediando-lhe a beleza. Uma que se faz cada vez mais nova e reformada em meio ao Velho Mundo.
Pois que fiquem vocês aí com essa qualquer a quem só chamam “língua”. A minha, a que lhes apresento agora, tem nome e sobrenome, como cabe às senhoras de respeito.
Senhores, tenho a honra de lhes apresentar a Língua Brasileira.

Um comentário:

  1. Genial! Que venham os Uais e Vixes. Não tenhamos medos dos Bah, Tri, e tchês. Vamos abrir de vez a porta e ouvir a nossa música, construida por todos os nossos falares.
    Que texto mais gostoso!

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