terça-feira, 16 de junho de 2009

Miséria urbana


Já faz tempo que eu encontrei, pela primeira vez, olhos de medo. Não eram olhos vazios, muito pelo contrário, eram repletos de tudo, de nada, mas sempre, sempre, repletos de angústia.
Ano após ano, classifiquei os medos como válidos ou fúteis. Um marido violento, um pai despótico: medo válido. Uma luz acesa para dormir, um mal estar para falar em público: medo fútil. Só depois de apanhar bastante da vida, e de ser pega de surpresa por uma síndrome de pânico que me fez parar o carro no meio de uma avenida, impossibilitada pelos meus nervos de dirigir sequer mais 100 metros, é que compreendi a idiotice do que vinha definindo há tanto tempo.
Percebi, então, que medo é latifundiário; é senhor que toma as terras da alma. Um jovem que se angustia às vésperas da prova, uma mãe que vê a madrugada virar dia sem ouvir na fechadura a chave do filho que saiu com os amigos, uma mocinha que chora seus complexos do braço gordo ou do rosto espinhento...todos têm medo. E medo é dor.
Faz só um dia que me encontrei com a dor dos outros.
Conheço os lavadores de carro que trabalham na comercial da minha quadra há mais de 10 anos. Eram moleques de 10, 11 anos quando começaram a “pastorear” os carros no comércio local. Costumavam, no fim de semana, tocar o interfone do meu prédio para pedir comida, quando o troco das gorjetas não dava para o mutirão de marmitas que eram divididas entra a patota.
Minha mãe era viva e acrescentava ao prato de comida dado um ou dois conselhos. Pra mim, não adiantavam de nada. Depois que ela morreu, os meninos sumiram e, um dia, encontrando com dois deles, perguntei o porquê. “Ah, tia, tem mais graça não depois que a vó morreu!”. Descobri naquele instante que os conselhos de uma velha senhora com mais de 80 anos alimentavam tanto os corpos franzinos quanto o pão de cada dia.
Dois sábados atrás dei pela falta de um dos moleques. Achei que era impressão minha. Não era.
Um deles deu pra mexer com droga; droga pesada. Era o mais sorridente, o que carregava as sacolas da gente, o que mais recebia gorjetas pra gastar com a droga, droga pesada. A polícia desceu na área, sumiu com o menino um dia inteiro. Quando voltou, estava tão arrebentado que os comerciantes o levaram para o hospital.
Ontem, me encontrei com ele, de volta ao bando dos lavadores. Não diz coisa com coisa, não reconhece as pessoas, pirou. Falei com ele pra ver se de mim ele lembrava. Nem sinal. Do nada, solta gritos sem motivo. “Repara não, tia. É que os home bateram muito na cabeça dele pra ele entregar o nome do traficante. Ficou doidão”, me disse um outro.
Tem dezessete anos. Era o mais sorridente. Agora, grita e alucina. Maluco, aos dezessete anos.
O traficante ninguém sabe ainda quem é.

Um comentário:

  1. Olívia Maia19/6/09 16:23

    Affeee! segurei a respiração..."fratura exposta". Abraços menina

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