sábado, 27 de junho de 2009

O diploma de jornalismo


Fotos: Google Imagens




O Supremo Tribunal Federal extinguiu a obrigatoriedade de diploma para a profissão de jornalistas. Como sou Relações Públicas, há mais de 30 anos, tenho acompanhado com interesse as reações provocadas pela medida.

Colegas de profissão, mais afoitos, talvez embalados pelo desprezo que alguns colegas jornalistas sentem por nós e por todos os profissionais de outras áreas da comunicação, chegaram a expressar opiniões como “bem-feito”, ou “há,há, agora eu quero ver esse pessoal tirar o rei da barriga!”.

Antagonismos à parte − que ocorrem normalmente entre áreas pertencentes ao um mesmo campo de saber, como é o caso, por exemplo, da engenharia e da medicina − seria melhor pensar mais e refletir muito antes de sair por aí dizendo disparates.

Nenhum retrocesso é bom. É desserviço. Nenhuma atitude suprema (desculpem o trocadilho pobre) é isenta de tendências. No Brasil, os Poderes não dão ponto sem nó, como dizia minha mãe.

Há anos, os colegas jornalistas incomodam as elites do poder político e econômico. Incomodam porque denunciam, porque investigam, porque não dão sossego, porque dão voz aos sem voz.

Ingênua? Eu? Não, não sou. Conheço as matérias apressadas que contêm julgamentos antes mesmo de ouvir as fontes. Conheço os jornalistas que olham para as instituições apenas com a sanha de destruí-las, levianamente, por causa de seus representantes. Conheço os que torcem as verdades, os que só publicam a parte do trecho ou da declaração que lhes convém, ou que convém às linhas editoriais de seus jornais, TVs, rádios, revistas, blogs e sei lá mais que mídias.

Como disse, são mais de 30 anos convivendo com profissionais da comunicação; de toda ela. Conheço vícios, lamúrias, vaidades e verdades de todos eles. Mais corretamente dizendo: de todos nós. E ainda assim acredito que nada, nada justifique desqualificar diplomas conseguidos com muito esforço e estudo. Sejam eles de que área forem.

Mas a coisa agora é um pouco pior. Talvez estejamos presenciando o fim de mais uma era democrática.

Eu mesma conheci outra dessas eras, na época dos militares, quando aprendi que governos de exceção, ditaduras calam a imprensa pelo tacão da bota. Forçam o silêncio ou a clandestinidade pela violência e impedem todas as iniciativas. E, na falta de conseguirem assassinar as idéias, destroem os ânimos e deprimem os indivíduos.

Mas o que dizer dos governos (ditos) democráticos, de pensamento livre, que, na ausência da truculência, estão tentando calar a imprensa pela desmoralização, pelo pouco caso? Decidem, por meio da lei, que qualquer um que saiba escrever pode ser jornalista, porque é desse jeito que acreditam ser possível ‘neutralizar’ a imprensa e é dessa forma que tentam “ter privacidade” em seus cargos públicos.

O que me admira são esses profissionais de Relações Públicas que aplaudem a arma apontada para a própria cabeça.

Alguns, mais conscientes, já começaram a falar que “agora é o fim do diploma para RP também”. É verdade. Isso deverá acontecer na sequência. E passaremos a disputar mercado com as recepcionistas de boates e de saunas, com as promoters de festas, com as pessoas que não sentaram, como nós, nos bancos universitários.

Bobagem? Tradicionalismo? Então, você é desses que não se importam em fazer uma cirurgia com um médico sem diploma, ou que moram numa casa construída por um engenheiro sem diploma? Corajoso, hein?

No meio disso tudo, o que eu queria era poder perguntar a um juiz do Supremo se lá, na mais alta corte, gente sem diploma senta e decide naqueles bancos solenes...

Um comentário:

  1. Pois é, Cinthia, fico pensando no que devo responder quando me perguntarem: você é formada em que?

    Beijão,

    Patrícia Goulart

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