domingo, 7 de junho de 2009


Uma Casa de Poesia
Crônica vencedora do concurso Cora Coralina 2009

Alexandra Rodrigues
Brasília


Disseram-me que era uma Casa poeticamente construída, das fundações ao telhado. O convite para visitá-la foi trazido pela brisa que folheava as páginas dos livros nela gestados em tempos antigos. Tempos de vida simples de cidade goiana do interior onde a vida circula, há mais de 200 anos, pelas calçadas estreitas de pedra e mistério. Casas iluminadas de branco por um sol limpo que raia o contorno das nuvens, janelas pintadas de fortes azuis, verdes e marrons.
Tinham-me dito que essa Casa da antiga Vila Boa exalava o odor da doceira que pacientemente apurava a palavra em tacho de cobre. E que eu não precisaria procurá-la. Ela é que me chamaria, do outro lado da ponte, na esquina da manhã. E assim foi. Reconheci a Casa de longe, emoldurada de azuis antigos que envolviam as janelas do tempo. Fui chegando perto, dividida entre o desejo de adentrá-la e o receio de manchar de prosa o recanto da Poetisa.
Vamos entrando – sussurrou a voz acolhedora da imagem feminina que se desprendia da cortina da entrada (uma espécie de sudário poético, despido de dores), levemente embalada pela brisa que corria dentro da casa. Na parede, o poema escrito por Cora no regresso à Casa da sua infância, após longos anos em São Paulo. É uma viúva que retorna à sua matriz, filhos criados, poesia encravada no ventre, em adiantado estado de gestação.
Não, eu não quero ser turista nessa Casa-museu, quero mesmo é penetrar o sentimento resguardado nas paredes desses cômodos simples, reler escritos antigos, de um tempo em que a mão e o papel se tocavam com o pudor de noivos. Um em particular, redigido com íntima caligrafia, mobiliza minha atenção. É um texto muito sentido, escrito pela poetisa em homenagem ao pai, pendurado junto à fotografia de um senhor de barba branca, majestosamente sentado em um cadeirão. E morto. (Era costume fotografar o patriarca falecido, coisa de uma época em que a morte não tinha tanta pressa de deixar a casa da vida).
No quarto de Cora Coralina, peço licença para pisar o chão do tempo. Meu olhar se encontra com os vestidos velhinhos, discretamente pendurados em cabides, perto da cama, que dorme tranquilamente na solidez da madeira. Que vontade de abraçar aquelas roupas simples que resguardaram uma solidão companheira, que sentiram as forças poéticas brotarem à superfície da pele e escorrerem até aquelas mãos fortes! Mãos que aprenderam a datilografar aos setenta anos para poderem registrar os poemas que haveriam de partir de Goiás até às mãos de Drummond e do mundo.
Chegamos à cozinha, de janela aberta para os verdes fortes da serra. Eu queria mesmo era sentar-me longamente diante do fogão a lenha, perto da mulher que mexia a panela dos doces para apurar a calda da poesia. Exalar os odores que se desprendiam da lenha que queimava na alma daquela doceira da palavra. E aquecer-me com as achas desse fogo.
No porão da casa, o encontro com as memórias de Maria Grampinho, a quem Cora abrigava todas as noites para dormir. Mulher andarilha que percorria as ruas, recolhendo vestígios e sobras de uma cidade. A enorme sacola de Maria Grampinho – assim chamada por causa dos grampos que enfeitavam a parca vaidade de seus cabelos – dorme agora na eternidade da casa, assinalando uma época em que moradora de rua tinha acolhimento certo em casa de poetisa, para repousar das andanças do dia.
Quase saindo da Casa, sou enfeitiçada por um prato redondo, repleto de cacos de pratos antigos. Os cacos descansam sobre o aparador, conversando com uma época. Relembram um costume da infância de Cora, quando as crianças eram castigadas, tendo que usar um colar feito de cacos do prato que haviam quebrado - experiência que ela viveu na pele e imortalizou em poema.
Recolho singelos fragmentos da Casa de Cora Coralina, que agora ostento com vaidade no colar da memória. E despeço-me docemente dessa Casa de Poesia, eternizada na alma do Tempo.

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