quarta-feira, 24 de junho de 2009

Uma data como poucas


O Dia das Crianças é uma data implacável. Eu quase diria cruel, mas reservo esse adjetivo, em algumas de suas acepções, para as próprias crianças, aqueles seres que te chutam quando a mãe não vê, que limpam os dedos na sua parede recém-pintada, que debocham ou intimidam você com frases curtas e certeiras.
É implacável porque custa caro. É implacável porque é uma data, e as datas precisam acontecer nas datas. É implacável porque não há criatividade que aguente. E não pense que eu sou intolerante ou mal-humorada. Não mesmo! Sou realista. Comprar presentes para o Dia das Crianças é uma tarefa insana!
Imagine um sujeito com três filhos. Em seguida, lembre-se de que, de acordo como o Art. 2º da Lei Nº. 8.069, de 13 de julho de 1990, o chamado Estatuto da Criança e do Adolescente, “considera-se criança... a pessoa até doze anos de idade incompletos...". Agora, multiplique os tais três filhos por 12 (porque não existe isso de ‘incompletos’). Resultado, 36. Portanto, logo de cara, o sujeito sabe que está fadado a comprar três dúzias de presentes até que os filhos atinjam a adolescência, quando não existe mais o Dia das Crianças, mas existem roupas, tênis, festinhas. Mas isso, por ora, é outra história.
Eu mesma só tive uma filha. Mas errou quem pensa que fiquei no lucro. Quando eu era pequena, minha mãe me habituou a ganhar três presentes a cada data: aniversário, Natal, Dia das Crianças; um total de nove por ano. Um dos presentes era sempre mais caro, melhor; os outros dois, bobagenzinhas como um jogo de pega-varetas ou um diadema. Mas eram três. Caí na besteira de repetir a ideia com a minha filha, esquecida de que vivemos tempos de marcas e tecnologias pró-crianças e anti-pais. Resultado: celulares, joguinhos eletrônicos de mão, jogos para computadores, aparelhos de MP3.
O quê... Você é dos que pensam que não se deve dar esse tipo de presente às crianças? Tudo bem. Respeito a sua posição. Eu tentei ser igual a você, juro que tentei. Foi quando descobri que as crianças são cruéis, muito cruéis:
− Mãããe! Não era esta boneca! Eu queria uma daquelas que falam e fazem xixi! Esta aqui só sabe dar beijo e risada!
Puxa! Que filha mal-educada a minha, não? Se eu fosse dessas mães que se magoam fácil, teria chorado durante uma semana. Preferi guardar a boneca uma semana, até minha pequena descobrir que beijo e risada são bem melhores do que nada. Funcionou por uns tempos, até eu cometer o erro fatal de comprar um tênis que acendia a luzinha na sola, igualzinho ao anterior que tinha acabado de velho, uns meses atrás.
− Ah, não! Ah, não, mãâãnhê! Eu não sou mais bebê! Isso aí é coisa de criancinha!
Fosse só ela, eu tinha aguentado. Afinal, muitas vezes eu também acertei em cheio nos presentes. Mas... e os afilhados? Os quatro afilhados que a vida me deu?
Tem gente que nasce com vocação pra mãe. Eu nasci com um “Madrinha” pregado na testa, mais grudado que zap em jogo de truco. Batizei o primeiro afilhado quando eu tinha 15 anos. A segunda, com 17. O terceiro, com 21. Aí, dei uma descansada de anos, e lá veio o quarto, aos 40 anos. E a vida foi uma sucessão de frases, que coleciono.
− Madrinha, eu a-do-rei o macaquinho! Eu queria mesmo era um jogo, né? Mas, tudo bem!
− Dinda, você sabe que tudo o que você me dá eu gosto, mas da próxima vez pode ser brinquedo em vez de roupa?
− Ah, Dindinha, que pena, este brinquedo eu já tenho! Mamãe me deu no mês passado!
Vamos pular a parte em que eu via naqueles rostinhos sensíveis (eu continuo preferindo ‘cruéis’) uma mistura de raiva e descontentamento, ou aquela outra em que as mães obrigavam as criaturas a me agradecer sem a menor vontade.
Minha filha e os afilhados mais velhos já passaram do tempo de Dia das Crianças. O quarto e último, no entanto, ainda é criança e me obriga à data.
Ano passado, resolvi lhe dar um celular. Achei que ia causar uma impressão e tanto aos 10 anos dele. Dois dias antes do 12 de outubro, minha filha entrou em casa e avisou: “Nem pense em comprar celular. A mãe e o pai acabaram de me dizer que são contra, porque ele é muito novo”.
Nocaute no primeiro round. Nintendo, PlayStation? Já tem e já tem. PlaySstation II? Muito caro. Bicicleta? Tem, de não sei quantas marchas. Relógio à prova d’água para mergulho? Ganhou da avó no aniversário. Socorro! Que gente cheia de imaginação! A minha continuava levando jabs de esquerda e de direita.
Foi quando eu descobri que tinha uns jogos para computador − desses que custam mais de três dígitos embutidos numa caixinha inocente − que ele ainda não tinha. Corri e comprei dois lançamentos, ou, como disse a mocinha da loja: “São lançamentos novos, senhora”.
Quarenta e oito horas depois, entreguei, confiante, as duas caixas na mão do meu afilhado.
− Dinda! Como é que você adivinhou? Você comprou certinho o que eu tinha pedido de Dia das Crianças! Você e o papai.
Sobre o sofá, abertas antes das minhas, duas caixas idênticas, com nomes idênticos arreganhavam os dentes e riam de mim.
Desapontada, me consolei pensando que essas coisas acontecem. Até o Natal, dois meses depois, em que os pais pegaram triunfantes, no pé da árvore, uma embalagem quadrada e familiar, e a entregaram a ele. Dentro, um celular de último tipo.

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