sexta-feira, 3 de julho de 2009

O Oitavo Dia

Foto: Google Imagens

E no Princípio era o Verbo...
Vamos convir que o Gênesis é solene e faz pensar. Imagine a Inexistência, o Nada e a rebeldia de Deus, cansado de tanta solidão e decidido a fazer surgir todas as coisas pelo poder da Palavra. Cria, então, céu e terra, luz e escuridão, água, planta, animal e homem. E Ele lá tem os seus motivos para criar o homem por último.
Depois de tanto esforço, descansa no tal Sétimo Dia, e é aí, creio eu, que meio cansado de tantas obras, dorme no ponto e permite o livre arbítrio. Tenho certeza de que foi assim o início da nossa gloriosa Evolução.
E aqui estamos eu, um ser evoluído, e esta incumbência de mostrar aos homens de todos os tempos como foi que todos os tempos aconteceram.
Parece fácil, a princípio, falar do Paleolítico ou da Idade Média; posso recorrer a umas pinturas rupestres ou à Santa Inquisição, porque tudo está em algum ponto no registro dos livros ou no boca a boca da História.
O que eu acho difícil é fugir da tentação de amontoar linhas do tempo no varal, como se fossem roupas separadas por cor, textura ou serventia. Prefiro me permitir misturar tudo, desordenadamente, e descobrir os efeitos de chacoalhar o tempo numa centrífuga gigante.
Imagino a expressão do homem peludo que dorme na caverna repleta de desenhos, ao lado de uma fêmea quase tão barbuda quanto ele, ao acordar numa praia ensolarada, agarrado às costelas de uma mocinha depilada e de biquíni.
Penso na sensação do cavaleiro que adormece no lombo do seu puro sangue inglês, exausto da batalha, e desperta ao volante de uma Ferrari estalando de nova. Fecho os olhos e vejo tribos inteiras se lançando ao chão em saudações aos supersônicos que cruzam as alturas: Ó deus Mirage que ordena ao vento e comanda os céus!
Ouça Judas Iscariotes discutir com o serviço secreto de Sua Majestade que o pagamento dos 30 mil euros tinha sido acertado em moedas. Vejo o sorriso feliz de Cristóvão Colombo ao acordar − depois do sumiço da Pinta e do afundamento da Santa Maria − e encontrar no cais, esperando por ele, Mole e St. Mary, que do alto de seus dois andares com cabines luxuosas oprimem a sobrevivente Niña.
Preciso ver Cleópatra salva pelo soro antiofídico do Butantã e consolando-se com próteses de silicone de 350 ml. Quero rir de Shakespeare que se deita para uma noite de amor nos braços de Lady Viola e desperta no sexo selvagem da heroína virtual Lara Croft.
Só não desejo estar lá quando o mundo for dormir sob o efeito de uma intensa luz que brilha e amanhecer como no Princípio: na Inexistência, no Nada.
Mas como no Princípio era o Verbo, Deus, num impulso, criará pelo Verbo o Oitavo Dia. E dirá:

Faça-se a Clonagem de todas as coisas e também do homem.
Segunda edição não sujeita à Evolução.

Nenhum comentário:

Postar um comentário