segunda-feira, 20 de julho de 2009

O velório


Google Imagens

Eu não tinha nada que fazer ali. Meu roteiro de férias para Cozumel não tinha dado certo, em parte porque eu não queria viajar sozinha e em parte... pelo mesmo motivo.
Foi quando Pedro me convidou para ir com ele visitar os pais, na fazenda, com a promessa de que depois passaríamos três dias vadiando em algum lugar bonito. Pedro é um bom amigo. Desses que você pode chamar no meio da noite com a cara amassada e vestindo uma camisola anticlímax. Ele chega lá e nem se importa se foi pesadelo, mal de amor ou dor de dentes. Por isso mesmo não tinha como dizer não a ele.
Chegamos à fazenda de tardinha e o sol de fim de dia ainda me permitiu vislumbrar a beleza das plantações. Eu ainda estava em meio ao abraço quente de um banho quando ouvi a voz de Pedro à porta.
− Marina! Marina, posso entrar?
− Um minutinho - gritei, para só depois me lembrar que a casa toda devia ter escutado.
Arranquei meu corpo feliz das garras daquela água boa e escorreguei dentro do roupão de banho.
− Meu tio morreu, Marina. Acabamos de receber a notícia. É o irmão mais novo da minha mãe.
− Coitado! Morreu de quê?
− Coração. Ainda não sei exatamente como. Mas eu vim te avisar que o velório vai ser aqui; é tradição da família porque aqui era a casa dos meus avós. Outra coisa, velório no interior é diferente. Se veste logo e vem comigo.
Eu não tinha nada que fazer ali. Não tinha roupa de velório. Não tinha parentes no velório. Não tinha cara de velório, nem vontade de estar num velório. Mas tinha o Pedro, e a mãe do Pedro, que era irmã do morto. E tinha o morto, que afinal de contas era quem menos queria estar ali.
Calça preta, blusa preta, bota preta. Pelo menos a jaqueta era felpuda e cor de tijolo. Um batonzinho leve, cor de boca. E um lápis preto que foi inventado para encarar a noite depois de uns anos e de algumas rugas. Brinco básico eu não tinha; porque não tenho mesmo. Tudo meu é grande: argolas, penduricalhos, pastilhas. Escolhi o menor, por assim dizer.
Quando desci as escadas o corpo ainda não tinha chegado, mas Pedro me pediu ajuda para arrumar as coisas. E eu entrei na maior cozinha que já tinha visto. Era uma sala com balcões, onde um enxame de mulheres preparava comida, arrumava copos. Se não fosse a certeza do velório, eu diria que uma festa longa e boa ia começar.
Não havia um só homem na casa. Pedro me chamou num canto e perguntou se eu podia organizar as mesinhas de apoio na sala e na varanda, checar se as janelas estavam abertas, se as lâmpadas estavam funcionando. Duas mocinhas com cara de parentes me foram apresentadas, e Pedro pediu a elas que me dissessem o que fazer. Depois meu deu “tchau”. Tchau? Alto lá! Que história é essa de me transformar em promotora de eventos fúnebres e depois sair porta à fora? Tradição de família, disse ele. Só os homens buscam o corpo, enquanto as mulheres ficam na casa, preparando tudo e esperando os convidados.
Eu não queria ficar lá com as mulheres. Nem queria mandar em ninguém ou organizar velório. De repente, me peguei pensando que Cozumel teria sido bem melhor, mesmo sozinha! Eu não tinha nada que fazer ali. Mas rapidamente apareceram coisas. “Você pode ver quantos copos tem no aparador?”. “Manda as meninas colocarem as cadeiras pertinho das janelas”. “Você já viu se os pãezinhos para o patê estão na cesta?”.
Em meio a essa profusão de vozes, o corpo chegou.
Homens cercavam o caixão em silêncio respeitoso, empregados misturados aos patrões com igual gala. O homem devia ser grande, tendo em vista a quantidade de gente em volta. E devia ser querido.
Pedro me segurou pelo braço e fez questão de ser um dos primeiros a ver o tio. Eu não tinha nada que fazer ali, mas apreciei o rosto calmo e bondoso que encontrei entre almofadas e flores. E me lembro de pensar que a vida dele tinha sido simples e forte como as daqueles outros homens que se ocupavam da terra. Tio José devia ter uns 65 anos. Podia ter vivido um tanto mais.
Pedro foi procurar a mãe e eu fui circular entre os desconhecidos presentes. Quanta gente! Quantos sussurros! “Ela veio... Muito atrevimento... Onde é que este mundo vai parar?”.
Na sala, num canto afastado do tio inerte, uma mulher ainda jovem, loira, com cerca de 40 anos, apertava duas crianças graúdas contra o corpo. De quando em quando, ia ao caixão e chorava silenciosamente, voltando ao canto da sala para sentar-se com as crianças.
Voltei à cozinha para fugir dos rumores. Foi quando me deparei com uma senhora que não tinha visto ainda. Seria impossível dizer com precisão a sua idade, mas passava dos 60. Vestida de preto, como eu, terço em riste. Eu tinha certeza de que ela ainda não tinha ido à sala, mas não dava sinais de que iria sair dali para ver o morto. Apenas chorava e repetia: “Meu querido, meu querido”.
Com o aumento dos sussurros, que agora eram comentários ácidos e abertos, procurei respostas com Pedro. Uma esposa, uma amante, reunidas no velório. Opa! Tio José era um Casanova! Tinha filhos com uma e outra. Casa montada com uma e outra. Sexo com uma e outra. Deixava herança para uma e outra – menos mal. Mas uma e outra estavam ali. Que confusão!
Voltei à sala e busquei os olhos da loira. Repassei o meu desprezo impiedoso àquela intrusa oportunista. Em seguida, busquei a viúva, pronta a compadecer-me dela no fundo da cozinha, tomada por soluços humilhados. Aproximei-me da senhora de preto de terço em riste e disse: “Ele não gostaria de vê-la aqui. Vamos para a sala, vamos”.
E a boca que momentos antes tremia com o choro abriu-se para mim em compreensivo sorriso: “Obrigada, mas eu não creio que a esposa dele queira me ver por lá”.
Eu não tinha mais nada que fazer ali.

Nenhum comentário:

Postar um comentário