quinta-feira, 30 de julho de 2009

Saltos Altos

Google Imagens


São 11 da noite. Eu não sei se pressinto ou se escuto ao longe, mas sei que os passos estão se aproximando novamente da minha porta.
Desde que me mudei para este prédio, escuto as pisadas de todos os moradores com nitidez. O chão de cerâmica dos corredores faz ressoar todos os sapatos aqui no meu andar, que é o último. O mais estranho dos passos é que a gente sempre imagina como é o corpo em cima das solas. Depois de um tempo, um esbarrão na entrada do prédio, um encontro na escada confirmam as nossas suspeitas, ou nos frustram. Mas quase sempre é batata! Existe uma intimidade até promíscua em reconhecer o outro pelos passos.
O edifício não é grande. São três andares com quatro apartamentos cada um, todos de um quarto só. Apartamentos para solteiros, embora eu tenha certeza de que em vários deles esteja morando mais de uma pessoa, principalmente crianças.
Reconhecer as crianças é mais fácil, porque menino não anda, corre. E grita. Vira tudo um escarcéu que mais parece briga, tropel. Mesmo assim, tem os que andam com um passinho miúdo e rápido, como a menina do primeiro andar que sobe aqui de vez em quando para brincar com o garotinho que mora duas portas depois da minha.
Tem minha vizinha da direita, que chega sempre tarde e sobe as escadas de salto alto, fazendo um estrondo que acorda meio mundo. Eu não sei como ela é, nem quantos anos ela tem, porque nunca a vi, mas escutei sua voz uma vez e me pareceu alguém entre os 25, 30 anos.
É divertido esse pretenso controle diário de idas e vindas, de subidas e descidas. Como meu horário de trabalho é variável, sei que passos pertencem às manhãs e que pisadas ecoam à tarde. Percepção feminina. Já as passadas da noite são quase sempre as mesmas: um estudante universitário que chega por volta de meia-noite; o senhor do 403 que bebe, cambaleia e faz “psiu” para si mesmo, tentando não acordar os vizinhos; visitantes ocasionais, parceiros de um sexo também ocasional, e que andam sempre na ponta dos pés, como se soubessem que suas passadas não pertencem ao ambiente; e, é claro, os visitantes habituais, já quase aceitos como moradores - namorados, noivos, amantes fixos.
Quando a gente conhece assim tão bem os passos, fica difícil não se preocupar com alguma coisa que ressoa diferente.
Não faz uma semana que dei para escutar esses pés impacientes que param à minha porta. São saltos de mulher, sem dúvida, mas parecem frouxos, perdidos. Ficam um pouco, depois se afastam. Não reconheço a direção e não identifico os passos que chegam sempre às 11 horas. Mais que isso, me inquieta o som desses saltos desconhecidos que vêm e vão com hora certa, parando por um tempo à minha porta.
Sondei se há moradoras novas no prédio. Não, ninguém se mudou - afirmou o porteiro intrometido. Minha segunda sondagem foi junto às solteiras, como eu, com quem acabei travando um tipo corriqueiro de amizade ao longo dos dois anos em que moro aqui. Alguma amiga dormindo em casa? Parente? Não, nenhuma delas tem visitas. Perguntando aqui, ali, chego a uma única certeza: não tenho a menor pista sobre os passos. Além disso, reclamar com o síndico sobre quem tem ou não as chaves do prédio é bobagem. Em lugar de gente solteira, tudo é cumplicidade.
Hoje tomei banho mais cedo e fiz um lanche leve. Ando tendo pesadelos quando como demais antes de dormir. Um filme talvez me traga o sono mais rápido. Mas o que isso? Droga, a luz acabou de apagar no prédio todo! O que será? Logo eu que detesto escuridão. Para completar, os passos estão aí fora, novamente. Ai que agonia! Com a falta de luz nem me lembrei de olhar as horas. Preciso fazer alguma coisa a respeito dessa inconveniente. Abro a porta de supetão e não há ninguém no corredor. Sobre o tapete de entrada, um par de sandálias pretas, elegantes, de saltos altos. Já chega! Amanhã pela manhã vou reclamar com o síndico dessa bagunça! Pelo visto, a visitante da noite acabou de ir embora. Que cara de pau! Bato a porta com força e vou direto para a cama.
São 5 horas e o despertador do celular está gritando. Na escuridão de ontem, só posso ter me distraído e programado errado o horário. Não vou conseguir dormir de novo e o resto do meu dia está arruinado. Mas...mas...não é o despertador, é a campainha da porta... O síndico pede desculpas pelo incômodo e me apresenta a um policial de bigode. Atrás deles, dois bombeiros compungidos. “Você tem visto a sua vizinha de porta?” Respondo que não. A moça não aparece no trabalho há quase uma semana e alguém deu queixa do sumiço dela. Eles me avisam, então, que vão fazer barulho porque é preciso arrombar a porta do apartamento dela.
Lá dentro, uma mulher de cabelos pretos está caída no chão da sala. Bombeiros e policiais comentam que deve estar morta há quase uma semana. Nos pés, um par de sandálias pretas, elegantes, de saltos altos.

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