domingo, 2 de agosto de 2009

No carnaval


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Foi assim que se conheceram, no carnaval. Ele saiu para comprar leite e pão, rezando para ter tempo de voltar pra casa antes do bloco de foliões passar. Odiava carnaval! Tinha pavor de gente bêbada, suada, exibida. Item por item.
Mas não deu tempo. Quando saiu da padaria, sacola de papel reciclado na mão, que trazia de casa por se recusar a agredir o meio ambiente, deu de cara com o bloco. Engolido em meio à multidão sem rosto, tentou abrir caminho à base do “por favor” e do “dá licença”. Não deram. Irritado com o imprevisto, se enfezou e saiu forçando a passagem. Cotovelada aqui, pernada acolá, derrubou a sacola no chão, que foi imediatamente pisoteada pelos foliões. Vermelho de raiva, bufando mesmo, pensou em voltar à padaria, mas voltar também não era possível. O jeito ia ser pedir uma pizza por telefone, que ia demorar uma infinidade para chegar. Tudo porque era carnaval!
Dance, ouviu uma voz de mulher lhe dizer ao ouvido. Não se virou logo de cara, sentindo um pouco mais o arrepio que aquela boca sussurrante tinha causado nele todo. Enquanto se excitava com a voz, não ligava para as pisadas e os empurrões da massa eufórica. Dance para poder sair daqui. Senão você vai embora com a gente, prosseguiu a voz.
Virando-se, viu uma mulher comum, de estatura média, cabelos castanhos compridos e lisos. Hoje em dia, com essas pranchas, todas elas têm cabelo liso, se pegou pensando. Sentiu a mão dela, macia, na sua, puxando-o para fora da turba. A mão dela dançava. Ela toda também.
Foi assim que se conheceram, no carnaval. Ela saiu para se acabar de pular no bloco, pedindo a Deus que o mundo não acabasse antes do fim da batucada. Adorava carnaval. Amava andar por entre aquela gente descontraída, feliz por poder botar para fora as tristezas, o cansaço, o dia a dia sempre igual. Uma gente que se mostrava sem pudores, sem medo dos julgamentos apressados.
Quando o bloco passou em frente à padaria, viu um sujeito lindo saindo lá de dentro, sacola de papel reciclado na mão, cara de bravo, tentando andar onde todos dançavam. Acompanhou o bonitão tentando chegar junto dele para dar um “oi”. Mas tomou as cotoveladas e empurrões que ele distribuía a torto e a direito e viu que o jeito era fazer alguma coisa urgente.
Então, derrubou no chão a sacola de pão e leite do sujeito lindo.

Um comentário:

  1. Anônimo4/8/09 16:22

    E pensar que boa parte dos grandes e ardentes amores começam assim... do nada, dos esbarrões, da casualidade.

    Lindo texto. Beijos, amiga.

    Patrícia Goulart

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