quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O ladrão e a alma


O nome Francisco de Assis recebeu em homenagem ao santo. Virou Fininho por acaso, no seu primeiro assalto. Na hora da fuga, como era magro que nem vara foi o único a escapar, esgueirando-se por entre as barras de uma grade de ferro. Daquele dia em diante, o apelido pegou e o santo ficou enclausurado na certidão de nascimento.
A mãe, Dona Cidinha, cozinheira de grandes prendas, deu vida boa a Fininho, dentro do possível, porque queria que o menino virasse “um homem de bem”. Não virou. Firmou-se na vida como ladrão e especializou-se em furto a residências.
Fininho adorava a mãe, mas tinha medo dela. Mulher de bondade farta, virava uma fera com os malfeitos que chamava de “coisa do demo”. Quando pegava Fininho chegando muito tarde da farra, ou sentia nele o cheiro de pinga, obrigava o rapaz a ajoelhar-se em frente à imagem de Nossa Senhora das Graças e a rezar duas Ave-Marias em penitência.
O rapaz protestava, mas ela, irredutível, respondia:
— Reza logo, menino! Uma pelo pecado, outra pelo pecador.
Dona Cidinha jurava que depois das duas Ave-Marias no capricho a Santinha pedia a Deus para perdoar o delito. Por outro lado, se o pecador não se arrependia, e nem rezava, a Senhora pedia às almas do outro mundo para virem atormentá-lo sem sossego. Fininho rezava pelo pavor às almas.
Então, aconteceu o roubo à casa de dois andares.
Era ainda cedo quando Fininho encostou o veículo em frente ao jardim. Proprietário de férias, rua tranquila, tudo corria bem. Usava como fachada para os furtos um utilitário branco, com adesivo de floricultura, e nunca estacionava dentro das casas para não despertar suspeita. Além do mais, desde que Zé Gaguinho, seu primo, tinha se juntado ao negócio, as coisas estavam mais tranquilas, porque enquanto um vigiava, outro furtava.
Entrou facilmente na casa e foi direto para o andar de cima. Por experiência, sabia que começar por ali era sempre mais seguro. No primeiro quarto, um aparelho de TV e um de DVD. No segundo, apenas material de costura. Ansioso, abriu a porta do terceiro aposento, esperando encontrar ali alguma coisa que valesse mais a pena.
Na cama, uma mulher idosa parecia dormir. Fininho estancou, sem reação, ficando assim por alguns instantes. Mas alguma coisa ali não estava certa. Aproximando-se sem ruído, verificou e comprovou que a coitadinha não respirava. Morta, completamente morta!
Automaticamente, fez o sinal da cruz e rezou duas Ave-Marias. E já pensava em sair quando enxergou, sobre a cômoda, um colar de pérolas pequeno e uma aliança de ouro. Indeciso, voltou-se para a defunta e desculpou-se:
— A senhora me perdoe, mas isso aqui não vai mais lhe fazer nenhuma falta mesmo.
E agarrou as duas joias.
— Devolva! Isso não é seu! — advertiu uma voz tremida de mulher.
Fininho deu um pulo para trás, apavorado.
— Quem está aí? — perguntou, tirando a arma de brinquedo da cintura.
— Eu, ora bolas! — respondeu a voz.
— Eu quem? — insistiu ele, sentindo o pelo arrepiar nos braços.
— A pobre senhora de quem você está roubando as joias.
Fininho se apoiou na parede, sentindo-se desorientado e tonto. Mas, recuperando-se um pouco do susto, imaginou que aquilo era alguma brincadeira de Zé Gaguinho para pôr medo nele. No auge da raiva, ligou para o primo, reclamando, mas o rapaz, colérico, respondeu:
— Oooolha peeela jaanela paara a r-r-rrua, seu be-besta! Eu eestou aaaqui na es-es-quiiina, tra-traabalhando! Nãão aaamola!
Tentando impedir que o medo tomasse conta dele, agachou-se, procurando pela voz debaixo da cama. Abriu o closet de porta de madeira e espiou, depois mexeu nas cortinas. E enquanto o terror tomava novamente conta dos seus músculos, escutou a mulher irritar-se:
— Como é, vai devolver o colar e a aliança ou não vai? — insistiu a voz que parecia de outro mundo.
Jogando os dois objetos de volta na cômoda, Fininho apressou-se em sair dali, mas antes que seus pés obedecessem, a voz gritou:
— Nem pense em ir embora agora! Se sair daqui, vai se arrepender!
As almas! As almas de Nossa Senhora tinham vindo persegui-lo pelos pecados, pelos furtos, pela vida de ladrão! Bem que a mãe tinha avisado!
Parado no meio do quarto, tremendo, perguntou num fio de voz:
— Dona alma, o que a senhora quer que eu faça para me deixar em paz? Diga!
— Pouca coisa. Uma penitenciazinha aqui, outra ali e você pode ir embora, perdoado.
— É só falar, dona alma! O que a senhora quiser, viu? — continuou, sem coragem de olhar para a defunta.
— Vamos lá. Vou lhe dizer tudo o que tem a fazer. Preste a atenção. Primeiro, arrume as camas dos três quartos.
— Como?! — estranhou o rapaz.
— Isso mesmo, e ande logo antes que o meu filho chegue, porque se ele pegar você aqui é cadeia na certa!
De onde é que Zé Gaguinho tinha tirado a informação de que os moradores daquela casa tinham viajado? — remoía-se Fininho — Ah, Zé Gaguinho, você hoje vai se ver comigo! — esbravejou.
— Alôô! Você ainda não se mexeu, é?
— Mas arrumar as camas é penitência, dona alma?
— Uff...você nem sabe o quanto! Obedeça logo, vamos!
Acostumado a ajudar a mãe em casa, Fininho colocou rapidamente em ordem as camas dos três aposentos.
— Posso ir? — perguntou timidamente.
— Que pressa é essa? Você não estava com pressa quando entrou aqui! Ainda tenho mais duas tarefas para você, antes de deixá-lo partir.
— Duas? Então diga, por favor, dona alma, diga que eu faço!
— 1º: varrer a casa. 2º: preparar o almoço. Só isso. Depois, pode ir embora.
Mas que alma folgada! Arrumar, cozinhar...
— Está pensando em quê? — interrompeu a voz da defunta — Quer desistir? Tudo bem. Eu posso começar a atormentar a sua vida, quer ver?
— Nem pensar, dona alma! Calminha aí! Só estou achando esquisito esse negócio de a senhora ficar me pedindo pra limpar e cozinhar! Isso não parece penitência... É muito esquisito.
Com uma risadinha que deu calafrios em Fininho, a voz explicou:
— Hehehehehe! É que eu fui empregada doméstica. Trabalhei aqui nesta casa durante muitos anos, até hoje, quando morri. E não consigo pensar num castigo pior do que as tarefas domésticas, hehehehehe! Ande! Ao trabalho, meu rapaz! E se quiser falar comigo, volte aqui em cima, porque como eu desencarnei há pouco tempo, ainda não consigo ir para longe do meu corpo. Acho que a missa de Sétimo Dia vai dar um jeito nisso...
Encharcado de suor, aterrado pela companhia da alma, prometendo à Santinha que iria se emendar, correu a se desempenhar das penitências solicitadas. Em menos de uma hora, o cheiro de casa limpa se misturava ao de um almoço apetitoso. Retornou ao quarto e chamou a alma, na esperança de ela ter ido embora:
— Dona alma?
— Terminou tudo?
Ali estava ela, esperando por ele. Alma chata!
— Terminei. Posso ir agora?
— Pode. Agora pode.
Fininho alcançou a porta em duas passadas mas, antes de sair, uma curiosidade que o atormentava falou mais alto:
— Dona alma — perguntou sem se virar — a senhora pode me responder uma coisa?
— Depende, meu rapaz, depende do que você quer saber.
— A senhora é uma alma do outro mundo, dessas que só aparecem quando a gente faz coisa errada, ou é uma alma penada, que não encontra rumo e fica por aí vagando e perseguindo as pessoas? — perguntou sem respirar.
— Com eu disse, depende, meu rapaz, depende.
— Do quê? — insistiu Fininho.
— Assim que a gente desencarna, tem que começar a ajudar os vivos a encontrar o seu caminho. Se corre tudo bem, a gente vira alma do outro mundo. Agora, se o sujeito é teimoso, insiste nas coisas erradas, a gente vira alma penada e persegue o infeliz eternamente.
As pernas empurraram Fininho escada abaixo, aos tropeções, mas antes que alcançasse a porta da rua, ouviu de novo, distante, a voz da alma:
— E precisa rezar, viu meu rapaz? Rezar muito para as almas!
Saiu dali um homem de bem. Sem fazer caso do carro que o esperava com Zé Gaguinho ao volante, desceu a rua feito um louco, repetindo: “Um rosário inteiro, minha Santinha, um rosário inteiro, eu juro!”.
Na casa, uma senhora de cabelos brancos desligou o moderno circuito de comunicação que interligava o closet do seu quarto ao closet do quarto do lado, ocupado pela defunta que tinha lhe servido de empregada, de companhia e de amiga pelos últimos 40 anos da sua vida.
Entrando no quarto da morta pela porta camuflada atrás das prateleiras do closet, colocou-lhe no pescoço o pequeno colar de pérolas e sussurrou em seus ouvidos:
— Quem diria, hein, minha amiga? Afinal, a tal geringonça que o meu filho tanto insistiu em instalar entre os nossos quartos teve a sua utilidade!
Soltando, por fim, um riso abafado, completou:
— Eu não lhe disse que você podia partir tranquila que eu dava um jeito de me virar?

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