sábado, 15 de agosto de 2009

Oclusal


Impressiona-me sentar, num fim de tarde, em um canto qualquer, apenas para olhar as pessoas que passam, as pessoas que param. Sento-me em praças, cafés, livrarias e, ultimamente, em bondes. Melhor à tarde. A noite ofusca ou embriaga um pouco o brilho das feições, os esgares, os traços delicados. Percebo as pessoas à luz da tarde. Nem muito cedo, para que não estejam protegidas pelo descanso da noite, nem atormentadas pela insônia despudorada. A tarde é perfeita.
Sou desses viajantes de bonde deslumbrados. Vindo até Santos em curtas férias daquele meu Rio de Janeiro, me delicia perceber a junção das mulas e do carro lustroso onde nos sentamos todos, desconhecidos da hora. Quem são eles? O que murmuram para não serem abertamente ouvidos? Beleza e feiúra, sorrisos e melancolia. Histórias pulsantes.
E me pergunto se a disparidade dos extremos não oculta apenas uma única verdade, e muitas percepções.
Atrás de mim...atrás de mim as vozes são um pouco mais vívidas. Eles falam mais alto, ou talvez seja eu que tenha sido atraído por alguma coisa nessas vozes imperiosas.
Viro-me brevemente...bem, nem tanto. Tenho por hábito acreditar que sou discreto e que, por isso mesmo, estou apto ao disfarce. Um pigarro providencial, uma nova olhada de soslaio e um encontro descuidado com dois olhares magníficos! Um, repleto de sorrisos. Outro, em chamas.
Existe em mim uma tendência natural, milenarmente herdada, em crer que esses dois olhares se auto-alimentam da força das suas próprias emoções. E eu acredito, preciso acreditar que só a paixão, quiçá o amor profundo, pode provocar esse tempero de tons que vislumbrei naqueles olhos. A amizade seria ainda uma opção, embora última, que me faria entender tanto vigor.
Mas então o que é isso que escuto agora proferirem essas duas bocas?! Não, melhor aprumar mais o ouvido, nortear-me pela direção onde estão aqueles olhares, o sorridente e o em chamas. Por certo, enganei-me! Novamente faço esforço em compreender as palavras e, num derradeiro intento, volto-me mais uma vez em direção aos dois. São eles, sim, que falam.
Percebo então, e só então, que se trata de um homem e de uma mulher. Ele, uns 38, sequer 40, garboso, elegante, cuidado, confiável. Ela, frágil e pálida, mignon mesmo. Bonita seria dizer demais, mas graciosa. Mas nada disso importa. Só aqueles olhares fortes, completos, límpidos em suas intenções. E, rendido ao inevitável susto do que escuto, ponho-me a escutar ainda mais.
Conversam os dois sobre como se conheceram, como se atraíram, como se casaram. E não escuto falar de amor, nem de paixão, nem mesmo de amizade. Bêbedo de estranheza e corrompido pela curiosidade, escuto, ouço, arrebato-lhes as palavras.
- Por que me escolheste entre tantos que te cortejaram?
- Não te escolhi, apenas excluí os demais! Te senti, te analisei, te avaliei...como aos outros dois.
- Por certo és cínica o suficiente para me dizeres tamanha ofensa!
- Por certo não te vais fingir agora de ofendido, se foi essa minha franqueza que te conquistou a razão.
- Mas por que eu? Vai, diz, eu quero ouvir tuas razões!
- Que pensas tu que me deixaria em brasas, Senhor Luís Alves, meu marido? O plácido e devotado amor que me assediava noite e dia nos olhos de Estevão? Era como se precisasse de mim sem trégua para prosseguir vivendo, fraco, alimentado apenas por sentimentos, mas não por idéias! Ou pensaste que Jorge seria a minha escolha, tão desprovido de vontades, tão sem olhos para qualquer futuro, tão preocupado apenas em dar-se prazer e em satisfazer, por meu intermédio, sua rasa superfície? Tu me conheces mais que isso!
- Sim, sei da tua ambição, da tua persistência, do teu jeito de negociar até com a vida. Sei onde queres estar em nossa sociedade e sei, principalmente, que queres caminhar comigo nisso tudo, minha querida!
- É por isso que tanto te admiro, senhor meu marido!
Falam de união, de razão, de planos sociais, mas não falam de amor! Mas aqueles olhos, então, por que brilham? Desespera-me um tanto não compreender inteiramente onde está o segredo. Logo eu que me orgulho sobremaneira em ser também um cínico! Como podem palpitar assim olhares sem desejo, sem a comichão da carne? O que os excita é o negócio, o jogo do poder, a ambição! Não os culparia por isso, porque eu mesmo recrimino o desvario dos choros femininos e a entrega masculina desregrada ao sentimento do amor. Mas não sentir nada, não correr sequer em paralelo com a paixão, não provar do amor como um petisco ocasional...isso é demais!
O que percebo, o que confirmo não me assusta, mas me compromete com uma nova verdade, que não a verdade dos amantes. É o interesse mutuamente consentido, revelado e previamente aceito que motiva aqueles dois olhares, um em sorrisos, o outro em chamas. São cúmplices, audaciosos, completam-se, e sentem-se felizes. Querem tudo, e não permitirão ao mundo ficar sequer com as migalhas. São parceiros, invasores. Encaixam-se como engrenagens perfeitas e azeitadas.
Sou ali apenas um apêndice, um pé de vento. E penso, subitamente, excitadamente, na fechadura que espreita a chave certa para abrir ou trancar seus mistérios. Penso nas engrenagens dentadas que movem os engenhos. Penso na oclusal perfeita: duas superfícies que se tocam e se fecham sem permitir atritos ou vácuos. E descubro que são os mecanismos que movem o mundo, não as emoções.
Minha estação chegou, preciso abandoná-los ao destino que escolheram trilhar jubilantes. E como ainda não quero dar-lhes rótulos, gravo em mim apenas seus olhares, fortemente. E parto.
É noite agora. E na penumbra aconchegante do meu quarto de pensão, que tem janela para o mar, agarro com sofreguidão a folha branca e ainda isenta de escrita. Preciso maculá-la, conspurcá-la! Preciso dividir com alguma coisa a sensação que me atormenta há horas. E, para isso, melhor a noite. A noite que ofusca ou embriaga a sensatez.
Desprezando outras comparações que antes me vieram à cabeça, expulso a indecisão dos dedos e gravo no papel o nome que finalmente quero dar à história daqueles dois olhares, o sorridente e o em chamas: A Mão e a Luva.

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