sábado, 15 de agosto de 2009

Três pedidos


“Bom dia, Califórnia! Bom dia, Emeryville! Bom dia ouvintes da KLLC! São 6h45...”
Brad Bird desligou o rádio do carro e cruzou os portões do número 1.200 da Park Avenue com a nuca endurecida por um aviso de tensão. Cumprimentou a recepcionista e entrou confiante no estúdio, mas percebeu, nos cinco rostos que o aguardavam, um silencioso pedido de socorro.
− Harley? Problemas? - perguntou ele, de repente ansioso.
− Um só. Um... bem pequeno - respondeu anormalmente lacônico Harley Jessup, o diretor de arte do seu filme.
A diretora de fotografia, Sharon Callahan, e três artistas de animação digital que trabalhavam com eles confirmaram a frase com acenos murchos de cabeça.
− Não deu para editar o filme?! - Bird sentiu o sangue em looping acelerado.
− Não, não é isso. Nós terminamos. A primeira cópia pode ser gravada ainda hoje.
Por que as palavras de Harley diziam uma coisa e os seus olhos outra? Se não havia nenhum problema, por que o clima? Antes que pudesse se exaltar mais, Harley continuou:
− Você tem visita...uma visita urgente.
Deus! Problemas com o contrato de distribuição? Com o lançamento?
Bonjour! C’est un plaisir de vous connaître en personnel, Monsieur Bird!
Uma voz, definitivamente uma voz anasalada saía de algum lugar, lembrando as poucas palavras que Brad arriscava em francês: Paris, merci, oui...
− Oh, perdão, Mister Bird! Eu sempre me esqueço que os diretores quase nunca falam outra língua que não a de seu próprio país! Vamos começar de novo. Bom dia, é um prazer conhecê-lo pessoalmente, Mister Bird.
Bird olhou desconcertado para Harley, para Sharon e para os três assistentes que continuavam figurantes no cenário.
− Olhe para baixo, Bird - sussurrou Harley, sem se atrever a fazer o mesmo.
Brad Bird desceu a vista. Um pouco mais. E outro tanto ainda. Desceu a vista exatamente 1,72m, até encontrar os 18 cm da voz que falava com ele. Sustentado em apenas duas patas, ali estava a sua criação, o rato Remy! A pata estendida em cumprimento e o aceno de cabeça provocaram em Bird a mesma reação que nos outros cinco.
Recompondo-se em parte, mirou o rato sem conseguir ainda dizer nada.
− Não se assuste, Mister Bird. Uma visitinha rápida para mudar umas cenas, umas coisinhas do seu...do nosso Ratatouille. O senhor ficaria surpreso de saber como é fácil vir de Paris até Emeryville através da tela dos seus computadores. Tempo real, uma viagem e tanto!
Bird tinha um bom ouvido. E ele estava escutando um rato de animação lhe dizer que tinha vindo de Paris por via digital, e que estava ali para mudar o seu filme!!!
− Bird, me chame de Bird, Remy - foi, no entanto, só o que conseguiu expressar.
− Obrigado, Bird! E você, por favor, me chame de Rémy. Rémy com o “R’ aspirado, um Rrrrrr, entende? Você esqueceu também um tracinho para a direita sobre a vogal, que serve para fechar o som. Eu sei que os americanos não usam acento nenhum, mas nós, franceses, usamos todos os que vocês não usam e mais alguns.
− Ahn? Ah, entendo, entendo, Rémy - Bird respondeu, impossibilitado de maior ênfase.
− Três pedidos somente, Bird. Tantas cenas, tantas sequências e eu aqui, pedindo para mudar apenas três petites choses!
− Vamos lá, diga o que deseja...mon ami! - ironizou Bird, recuperando-se.
− Eu entendo a ironia, mon ami! A sua visão é a visão de um bird: uma perspectiva de quem olha do alto as criaturas do chão. Mas é preciso cheirar mais perfumes e imundícies da terra para entender por inteiro o que se passa na vida de um rato!
− Desculpe, Rémy, mas o meu roteiro mostra o tempo todo um rato limpo, que anda em duas patas e que lava as mã.... essas patas antes de mexer com os alimentos! Meu rato nem deixa a colônia comer coisas podres. É inteligente, genial!
Oui, Bird, isso é verdade! Mas escute por favor as minhas idéias e acredite, sem preconceitos, que qualquer um pode dirigir um filme.
Mesmo cansado e impaciente, Bird achou melhor deixar o pequeno chef falar.
− Sou todo ouvidos!
− Que bom, mon ami! Uma pena que eu, tão pequeno, não seja todo voz! Por favor, um microfone para que todos me escutem alto e claro!
Microfone colocado à sua frente, Rémy desfiou seus pedidos para a audiência atônita.
− Primeiro pedido: você precisa mudar o meu nariz. Redondo demais. Eu sou um rato pequeno, mas o meu nariz ficou parecido com o de Émile, que é gordo!
Bird não conseguiu uma brecha na pausa.
− O escultor fez nove protótipos meus e seis não foram usados, um desperdício! − continuou o rato − Dei uma fuçadinha e achei um nariz que fica bem melhor em mim. Harley, por favor, peça a um dos seus assistentes para colocar na tela o protótipo número quatro, s’il vou plaît!
Antes que Harley Jessup pensasse em atender o pedido, Bird gritou:
− Isso é loucura! O nariz fica como está!
− Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc! Então, deixemos esse item para mais tarde - pareceu concordar Rémy.
A reivindicação seguinte foi ainda mais sofisticada.
− Segundo pedido: faça e gentileza de criar uma cena em que eu seja comparado a um herói da Resistência Francesa. Algumas frases fortes, um narrador em off...
− ????????
− Os heróis da Resistência, assim como nós, os ratos, se esconderam nos subterrâneos de Paris até conquistarem a vitória na superfície! Conviveram conosco, dividiram a nossa comida, nos entenderam e nós os entendemos. Lutamos juntos no anonimato, até que o Dia D os separou de nós, devolvendo-os à luz. Com Ratatouille, você criou o Dia D dos ratos e nos deu a superfície! Somos, portanto, heróis tardios da mesma Resistência, mon ami!
− Uma associação entre heróis da resistência francesa e....e... ratos...? - questionou-se em voz alta o diretor.
− Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc! Um rato herói, Bird! Você fez de mim um rato herói! Além do mais, pense comigo, pense comigo: E Jerry? E Stuart Little? Americanos, e ratos!
Bird sabia que havia mais um pedido e entregou-se ao medo de ouvi-lo.
− Para terminar, o terceiro pedido e o principal. − Rémy ruborizou-se − Eu desejo uma companheira!
− Deseja o quê?! Aumente o corpo da letra, Rémy!
- Uma companheira....
− Namorada?!
− Hum, hum! Bird, mon ami, Paris não é só culinária! Paris é a cidade dos amantes, Paris é l’amour! Eu fico olhando aquelas paisagens lindas que vocês puseram no filme e imaginando como seria aconchegante ter uma alma gêmea roedora para apreciar comigo as luzes de Paris! Até aquele palerma do Linguini tem a Colette e eu, seu protagonista, não tenho ninguém!
Bird, olhos fechados, esperou uns instantes para ver se o pequeno Rémy tinha mesmo encerrado os pedidos. Pouco depois, e ainda sem abrir os olhos, disse, de chofre:
− Rémy, suas idéias são tentadoras, confesso, mas eu não posso mudar um filme que já está pronto! Agradeço a visita e as sugestões.
O pequeno chef respirou tão fundo que seu nariz treinado, e ainda gordo, sentiu entrarem nele, de uma só vez, todos os cheiros e poeiras do ambiente. Em seguida, pareceu mudar de assunto:
− Harley, por favor, ponha na tela aquela cena em que o Linguini me despreza e eu abro o Gusteau’s para a colônia poder roub..., digo, poder satisfazer a fome na despensa, sim?
Rapidamente, antes que Bird tentasse impedir, Harley abriu na tela a cena e Rémy prosseguiu:
− Agora, Bird, pense comigo, pense comigo o tanto que essa cena poderia ter manchado a minha reputação! Um rato mesquinho que, magoado com um amigo humano ingrato, abre as portas do restaurante desse amigo à pilhagem! Um desastre para a minha imagem! Você me deve alguma retratação por enfiar dentro de mim, mesmo que por pouco tempo, essa fraqueza humana chamada vingança! Isso me marcou profundamente!
− Mas isso é chantagem emocional, Rémy!!! - se descontrolou Bird.
− Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc! Isso é argumento, mon ami! E dos bons! - rebateu Rémy.
Bird, com o semblante abrandado pela performance do pequeno chef, permitiu ao rato o xeque-mate:
− Faça outro filme, mon ami, quase igual! E ponha nele o nome Ratatouille: versão do protagonista. Afinal, qualquer um pode dirigir um filme...
Meses depois, um em Paris, outro em Emeryville, esbarraram, rato e homem, na mesma notícia:
“Oscar esperado e merecido para Ratatouille! Impossível dizer qual versão é a melhor, a do diretor, ou a do protagonista”.

Um comentário: