terça-feira, 22 de setembro de 2009

Kanpai, família!

Todas as famílias têm um quê de loucas. Não adianta disfarçar, fingir que tudo acontece dentro da normalidade, porque se a gente mexer, revirar bem, encontra uma insanidadezinha aqui, outra ali.
Bom, na minha família nem é preciso procurar: as loucuras saltam aos olhos e aos ouvidos de quem conviver conosco pelo menos 10 minutos. Ser meio doido, na minha família, é pré-requisito.
Por isso mesmo não achamos nada estranho quando o pedido de uma das primas foi feito.
Estávamos em quatro mulheres sentadas à mesa, comemorando por termos nos encontrado para conversar depois de tanto tempo, quando uma delas falou:
– Vocês estão lembradas do aniversário do meu marido que está próximo, não?
O assunto foi aprovado por todas, já que significava festa, e festa é o que nós mais amamos na minha família. Começamos a combinar pratos, bebidas, local, convite e missa – sim, missa é uma coisa da qual não abrimos mão, seja para celebrar, seja para agradecer.
De repente, a prima-esposa disse:
– E tem o parabéns.
– Como? É claro que tem o parabéns...
– Alguma coisa especial com o parabéns?
– Bem, como o meu marido é japonês, e apesar de ele morar aqui há mais de 60 anos, eu e os meninos (leia-se quatro homens entre 30 e 40 anos) decidimos que o parabéns será em japonês.
Na breve escolha entre o silêncio e uma pergunta qualquer, optamos pela segunda:
– Ué...e parabéns em japonês é diferente?
Fomos, então, apresentadas ao Kanpai, de Nagabuchi Tsuyoshi. Quem é Nagabuchi Tsuyoshi? Um dos mais conhecidos artistas japoneses!
– Eu não sei como é que eu vivi até hoje sem essa informação! – disse a prima mais gaiata.
Conversa vai, wihsky desce, acertamos tudo para o grande dia. A letra, cuja tradução preferimos não usar (é horrível!), foi projetada num telão, com separação silábica (não que adiantasse muita coisa). Ninguém estava preocupado com a afinação, apenas com a emoção do momento. Faríamos uma homenagem de tirar o fôlego ao velho Shira.
Antes de começar, pedimos aos outros membros da família e aos convidados que cantassem junto conosco, mesmo que não soubessem o que significava a letra.
– O que importa é cantar com o coração!
Colocado no centro do salão, de olhos vendados, Shira recebeu um beijo da esposa e o aviso de que íamos fazer uma homenagem.
No telão, as palavras ampliadas e em negrito avançaram sobre a platéia de cantores amadores. E a música começou:

Katai kizuna ni oomoi o yossete
Katari tsukusenu seishun no hibi
Toki ni wa kizutsuki toki ni wa yorokobi
Kata o tataki aata anohi
Arekara dorekurai taata no darou
Shizumu yuuhi o ikutsu kazoetarou
Furusato no tomo wa imademo kimino
Kokorono naka ni imasuka


Ao final, antes que a venda fosse retirada,a pergunta da esposa:

– Gostou?
– Bonito, muito bonito. Que língua é essa?

Um comentário:

  1. Ai, meu Deus! Adorei! Sua família deve ser parecida com a minha. Todo mundo doido...

    Beijos, Cinthia. Saudades,

    Patrícia Goulart

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