segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O que não faz um apito

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O sujeito é um amor, e aí você deixa para lá os defeitos dele. Não corrige os erros de português que ele comete; ri das graças que têm graça e das que não têm; deixa que ele fale o que quer, releva as infantilidades e as vaidades.
Então, era uma vez, e você descobre, tarde demais, que ele “se acha”! É um homem completo, genial, não precisa reparos nem ajustes. A inteligência dele está acima da sua, e ele passa a lhe dedicar conselhos, a falar de suas experiências de vida como seu fossem únicas e ...únicas.
Então, um belo dia, o acaso conspira. Mais uma vez, é claro, contra você. O sujeito engraçado, amigo, companheiro e quase humilde fica lá atrás, num tempo que a poeira esconde.
Ele agora explode de autoconfiança, encontra-se em posição de julgar. De julgar você, ou, melhor dizendo, de julgar alguma coisa feita por você. E adora isso.
Como é que pode?
Não, ele não virou seu chefe, personal trainer, professor, consultor ou confessor. Ele recebeu alguma incumbência que diz respeito a você; só isso. Alguém pediu a ele que comentasse alguma coisa que você produziu, escreveu, inventou, desenhou, enfim, criou. E ele passou a se considerar melhor que você.
Diz a sabedoria popular que para se conhecer de verdade uma pessoa basta dar poder a ela. Verdade. Pode ser até mesmo um simulacro de poder, um factóide necessário ao bom andamento dos trabalhos.
O sujeito não era autoridade em nada; virou.
O craque do apito, aquele cujos olhos afiados e bandeiradas certeiras lhe valeram o cargo de juiz titular, um dia pediu para sair. Porque cansou, brigou, ficou doente, não importa. E ele, o juiz-reserva, ganhou um apito emprestado, no último minuto.
Protegido pelo apito, se confundiu, achou que era o dono da arbitragem e saiu pelo gramado, prontinho para dar cartões amarelos, alguns vermelhos, talvez. Só se esqueceu que, para ser mesmo o rei dos gramados, precisava ser tão bom quanto o titular, o dono do apito. Não era.
Mas ele, o sujeito que era um amor, engraçado, amigo, companheiro, quase humilde, oscilou apenas um instante entre uma falsa modéstia e uma empáfia escancarada. Cedeu à segunda.
Hoje, ele apita, e apita, e apita. Algumas vezes, acerta, contribui. E incentivado por esses pequenos acertos, que aprendeu com seus mestres, decide que é hora de voar sozinho e imprimir a sua marca.
Põe-se, assim, a distribuir, sem cerimônia ou autocrítica, seus cartões amarelos. É juiz, pode fazer o que quiser!
Nem nota que erra, tropeça na arbitragem.
Nem percebe que são os seus próprios erros que passa a expor à arquibancada lotada.

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