quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Multiplicação de respeitos

Ecologia não é conversa de intelectual e nem é coisa de chato. Posso até concordar que tem gente que ao invés de praticar, vivenciar, educar, prefere policiar a vida alheia. A esses, chamo inconvenientes.
Ecologia é muito mais que um modismo, que um patrulhamento descabido. É convivência. E convivência é respeito.
Não quero ouvir bronca porque uso sacolas de plástico, nem porque imprimo os meus textos para ler. Quero é que me mostrem, sempre, as tartarugas e pinguins asfixiados por esses plásticos que usei e joguei fora. O que eu preciso é compreender que o meu lixo mata. E que matar não é opção.
Só não quero estudiosos fanáticos me passando descomposturas humilhantes, me obrigando a obedecer. Ah, isso não! Porque ninguém alcança o entendimento pelo tacão da bota. Entender, compreender, refletir são processos de aceitação, não de obediência.
A consciência que eu preciso despertar é a minha. Não me enfiem goela abaixo a consciência coletiva, por favor! A gente trabalha em bando, anda em bando, vive em bando, chora em bando. Mas não tem nada mais individual que a consciência. Talvez, só a morte.
Por isso, a morte da tartaruga pelo saco plástico só vai me apavorar se pesar em mim, se chocar a mim, se preocupar a mim. Não a você.
Se eu me lembrar do bebê que está morrendo de sede ou de fome, posso aprender a fechar mais a torneira, a não colocar no prato o que não quero comer. Se for em mim que tudo isso calar fundo, eu chegarei, finalmente, à pergunta que tanto e tantos precisamos fazer: “Qual é a parte que me cabe nisso tudo?”.
A gente se desculpa dizendo que, no final, tudo vai dar certo. Eu acredito nisso, mas não como desculpa. Acredito, talvez, porque eu seja otimista, talvez porque eu ainda confie nos homens, ou porque eu goste da certeza de que ainda vamos conseguir limpar toda a sujeira que criamos por aí.
Os pessimistas debocham de gente que acredita. Tudo bem. Eu não me preocupo muito com eles. Gente pessimista é anti-ecológica. Deixar de acreditar é anti-ecológico.
A mudança pelo carinho, pelo desejo é mais completa do que aquela que se faz por necessidade ou obrigação. Mostrar a uma criança o quanto é bela a flor, a árvore, o mato e até o galho de onde brotam tenros brotos é mais garantia de que ela queira proteger a flora em sua vida adulta do que simplesmente lhe dizer que é errado destruir a natureza. A gente não precisa de certo e errado. O que a gente precisa é de vontade.
Vejo pessoas preocupadas em não pisar na grama, em não falar ou rir mais alto, em não jogar o lixo no cesto errado. E isso é bom. Mas preciso do melhor, do ótimo, do excelente! Preciso de gente que pise na grama porque correu para ajudar uma senhora idosa com as compras pesadas. Que fale ou ria alto para tirar da tristeza ou depressão um par de olhos que jorram um pedido de socorro! Que jogue o lixo no cesto errado porque se distraiu olhando a beleza de um amanhecer sem nuvens, de um luar de sonhos!
Complacência. Compaixão. Compadecer-me de mim e do outro. Ler no dicionário que compaixão é “sentimento piedoso de simpatia para com a tragédia pessoal de outrem, acompanhado do desejo de minorá-la”. Tenho certeza de que são esses os melhores sinônimos de ecologia que podemos aprender e passar adiante.
E aí, não tem planeta machucado, não tem ambiente degradado, não tem animal sufocado, não tem escassez de comida, de água, de afeto.
Basta, apenas, uma multiplicação de respeitos.

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