segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Acho que eu sou burro, talvez apenas feliz... (texto de Gabriel Marinho)

24 de Setembro de 1991. O disco Nevermind, da banda Nirvana, chega ao mercado. Semanas antes, uma cópia pirata fugiu dos domínios da gravadora Geffen e iniciou previamente o fenômeno no qual esse registro se tornaria. Simplesmente, um chute no saco, um tapa na cara e inúmeros jabs no estômago dos críticos que deram o rock como morto depois que, em 1990, nenhum álbum do estilo atingiu o topo das paradas de sucesso. Nevermind fez mais do que vender milhões de cópias e botar o Nirvana no topo do rock mundial; o álbum virou o mercado fonográfico do avesso, colocou o rock alternativo no mainstream e mostrou que a tristeza também é um tema vendável, além de presentear o mundo com a melhor capa de álbum da história, segundo vários críticos.
A revelia de seus fãs, começava a se tornar algo quase messiânico. Kurt Cobain, vocalista, guitarrista e principal compositor do grupo, tinha todos os holofotes voltados para ele. Algo inevitável para alguém com um apelo visual fortíssimo (que ditou moda naquela época), uma personalidade forte e o talento de transformar suas dores e fraquezas em arte. Fiel aos mandamentos da ética punk, o sucesso o incomodava, embora, ironicamente, ele ligasse com frequência para a MTV norte-americana, pedindo para que passassem mais seus vídeos. Desiludido com a fama, que não lhe trouxe de volta a alegria de quando era criança, Kurt afundou-se nos excessos, excepcionalmente na heroína, que usava como desculpa para neutralizar suas frequentes dores de estômago.
O parágrafo acima narra parte do cenário do final de 1992 para o início de 1993. Época em que o trio da pequena cidade de Aberdeen foi anunciado como uma das atrações do Hollywood Rock. Tinha 15 anos na época e era completamente apaixonado pelo grupo, a ponto de deixar meu cabelo crescer até o ombro, sair na rua trajando roupas que pareciam ter sido tiradas do fundo de um baú, com direito a muita flanela, um suéter-cardigã puído que pertenceu a minha avó e um tênis Converse branco sujo. O choque da notícia foi quase fatal, e me fez correr para os meus pais pedindo para que eu viajasse para o Rio ou para São Paulo para vê-los – na época, eu morava numa cidade que não fazia parte do circuito dos grandes shows. Eles propuseram uma troca: se eu passasse direto em todas as matérias do colégio, sempre com notas altíssimas, eles disponibilizariam tudo. Enfurnado no quarto, matei-me de tanto estudar e cumpri minha parte do acordo. Transformei-me no adolescente mais petulante do mundo naquele instante.
O dia 23 de janeiro de 1993, graças a minha ansiedade, demorou um pouco para chegar. Desembarquei no Rio de Janeiro no dia do show, hospedando-me na casa de um primo que residia na cidade maravilhosa. Apesar das demais atrações de peso do dia (Red Hot Chili Peppers, L7, Alice in Chains, entre outros), o principal motivo das mais de 70 mil pessoas que iriam a praça da Apoteose naquela noite era o Nirvana, apresentada como a maior banda do mundo. A imprensa, os críticos, a MTV e a organização do espetáculo insistiam: esse show prometia. Soube no boca-a-boca a decepção do concerto em São Paulo. Os paulistas, ávidos pela noite de suas vidas, testemunharam uma banda letárgica e aborrecida, completamente fora de sintonia. O Nirvana fez alguns covers que irritaram os que queriam as músicas de Nevermind. Estas, aliás, assim como todo o repertório próprio do grupo, soaram como verdadeiras cacofonias. Kurt, que nunca foi de conversar muito com o público, ignorava-o totalmente, enquanto Krist e Dave, tomados por um sentimento de vergonha pelo colega de banda, tentavam, em vão, colocar tudo nos eixos.
O mau presságio não me desanimou e, horas antes dos portões serem abertos, já estava na fila, devidamente caracterizado como dita o movimento, assim como a maior parte das pessoas que lá estavam. As horas passaram, os portões abriram, fui revistado, avancei na pista e, na metade do show do L7, já estava literalmente na grade, quebrado e seco, pois não comi nem bebi nada por horas.
A noite avançou, deu lugar à madrugada e, finalmente, pela voz do locutor do evento, foi anunciada a banda principal da noite, incendiando a platéia, já em convulsão.“Nirvana, Nirvana, Nirvana”, gritou o público. O palco permanecia escuro e a minha alegria se chocava com o céu e retornava mais forte. Ainda no escuro, Krist cantarolou uma musiquinha em inglês, que logo foi acompanhada pela bateria de Dave. O público bateu palma em sincronia, mas esse som durou pouco, dando lugar a um improviso que incluiu um trecho da ópera Carmen, em que a plateia quicou junto com o bumbo. O palco já estava banhado por luzes azuis e todos os músicos já estavam visíveis. Kurt Cobain vestia uma espécie de pijama bem folgado. Estava com os cabelos curtos, um cavanhaque espesso, e aparentemente lúcido. Minha primeira reação foi: “puta que o pariu, é ele”, gritando para mim mesmo. Não demorou muito para ele tocar o riff inicial de School, do primeiro álbum. A interpretação foi correta e nem um pouco confusa, fazendo-me crer que os cariocas teriam a sorte que não tinha pairado na terra da garoa. Então, veio Drain You, a primeira do Nevermind. O empurra-empurra voltou mais forte, quase me sufocando. Breed fez surgir as primeiras rodas de pogo. Sliver, do álbum de b-sides Incesticide, teve suas primeiras frases sussurradas por Kurt enquanto In Bloom foi a primeira faixa recebida de forma catártica pela audiência. Estava tudo como imaginei: Kurt, do lado esquerdo do palco, roubava as atenções para ele por causa de seus trejeitos idiossincráticos.
Come As You Are foi a primeira bomba da noite, com direito a tudo que tinha rolado até então – pulos, empurrões e coro da plateia – acontecendo ao mesmo tempo. A psicodélica Love Buzz antecedeu outro tema celebrado: Lithium. Chegou o primeiro momento que tornaria esse concerto inesquecível: Kurt e Krist protestaram contra o cigarro de uma forma irônica e bem divertida (Nota: o festival era patrocinado por uma marca de cigarros). Lembro-me de que apenas os que tinham um inglês fluente gargalhavam na plateia, enquanto os demais entendiam apenas uma palavra ou outra e soltavam risinhos encabulados. A balada Polly,teve alguns trechos de sua letra alterados por Kurt, entrando em contraste com as linhas originais cantadas por Dave, que fazia o backing vocal.
Depois de About a Girl, Flea, baixista do Red Hot Chili Peppers, subiu ao palco com um trompete em mãos. O megaclássico Smells Like Teen Spirit foi tocado com a sua participação especial, completamente avessa aos padrões tradicionais do rock, criando um momento curioso e, obviamente, único. As rápidas e enérgicas On A Plain, Negative Creep, Been A Son e Blew mantiveram o clima de festa, e deram as boas-vindas a duas faixas que sairiam apenas alguns meses depois no álbum In Utero: Heart-Shaped Box e a sincopada Scentless Apprentice, sendo que a segunda tornou-se o segundo momento inesquecível do show. Explico: no meio da música, sua intensidade diminuiu e apenas a bateria e o baixo fizeram um som compreensível, pois Kurt, em seu momento típico de loucura, tirava sons absurdos de sua guitarra com as próprias mãos e com algumas peças de roupa que o público jogava em sua direção, esfregando-as nas cordas. Ele caminhava de um lado para o outro, fazendo-se de cego em tiroteio. A plateia apenas admirava um artista em seu êxtase criativo. Chegou um momento em que ele se postou em frente a uma das câmeras da Rede Globo, que transmitia o festival para todo o Brasil e, depois de se admirar na lente com cara de sonso, cuspiu nela. Na outra câmera, ele foi bem menos conservador: aproximou-a de sua pélvis, abaixou levemente a calça que vestia e simulou uma masturbação, para o desgosto da emissora, além de outra cusparada certeira. Antes de voltar ao palco, pude testemunhá-lo tentando arrancar um enfeite branco que ficava na beirada. Fraco demais, contentou-se em manter as mãos agarradas em uma de suas bases e pular insanamente. Foi tão divertido quanto vê-lo saltar em cima da bateria.
Uma breve jam foi tocada por Krist e Dave (que vestiu um sutiã preto). Kurt, que tinha sumido do palco, reaparece trajando apenas uma camisola e uma coroa de plástico na cabeça, para tocar a venenosa Dive. Lounge Act, Aneurysm e Territorial Pissings, letais como de costume, foi a trinca que encerrou o show. Kurt, após os últimos suspiros dos últimos acordes, ficou de cócoras no chão, deixou sua guitarra ao relento e saiu do palco engatinhando, enquanto era ovacionado. Pouco mais de uma hora e vinte minutos depois, o show acabou. Seria a primeira e última vez que os veria ao vivo.
Um ano e três meses depois, o corpo de Kurt Cobain era encontrado por um eletricista, com um tiro na cabeça, estirado na estufa de sua casa, ao lado de uma espingarda. O ato derradeiro de uma mente inquieta que não conseguiu superar os próprios fantasmas. Aquele arquétipo de anjo, tal como os outros integrantes do infame “Club 27”, alçou o status de lenda, tornando-se imortal. O caso de Kurt foi mais especial, pois, depois dele, não surgiram mais ícones, e o rock estagnou-se, fazendo com que muitos acreditassem que a sua salvação seria manter as bandas antigas vivas na memória. Considero-o, com toda a certeza, como o último suspiro do estilo.
Escrevo este artigo 15 anos depois de sua morte. Nesse período, formei-me em jornalismo, casei-me e tive dois filhos. As únicas coisas que se mantiveram intactas foram os amigos e a paixão pela música. Agora, mais velho e mais amadurecido, penso naquela longínqua sexta-feira de 1993 de uma forma menos emocional e mais lógica. Analisando friamente, aquela não foi a apresentação mais brilhante do grupo. Mas o Nirvana não era o tipo de banda que fazia todos os seus shows iguais, do tipo que dá a entender que os músicos batem um cartão de ponto antes de subir no palco; cada um era uma história, uma coisa diferente. Não vi Kurt se atirar em cima da bateria, assim como os norte-americanos e os europeus não o viram cuspir nas câmeras e simular uma masturbação, entre outros desvios de normalidade. Cada expectador tem a sua própria experiência, única. Entendi a importância daquele momento quando o seu suicídio foi noticiado no Jornal Nacional. Fica o arrependimento de não ter prestado atenção em alguns detalhes, e o orgulho de poder partilhar o momento com os fãs que, devido a sua idade, não puderam acompanhar o apogeu do percussor do grunge. “Eu estive frente a frente com aquele bebê errático e mal-humorado; o triste, sensível, insatisfeito e pisciano pequeno homem de Jesus, que queimou de vez em vez de se apagar aos poucos”, bradaria com satisfação.
Hoje, resta-me aquela lembrança nostálgica de um tempo que dificilmente vai voltar. E sim, continuo sendo o adolescente petulante citado algumas linhas acima, sempre que me relembro disso.

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